(Professor.
Membro da AML, ALL, APB e Sobrames-MA)
Lançado em 1979, em plena
efervescência de um período ditatorial no Brasil, o LP Peregrinação é um
dos melhores produtos da discografia produzida por um cantor e compositor
maranhense.
Mesclando letras que tratam de
questões amorosas, traços autobiográficos e críticas sociais, Nicéas Drumont
(1951-1990) – nome artístico do cantor e compositor rosariense Nicéas Alves
Martins, um sambista nato que circulava com extrema competência por
praticamente todos os ritmos musicais – nesse disco, conseguiu mostrar toda a
sua maestria e senso crítico com relação à realidade vivida pelo Brasil naquele
momento histórico.
No ano do lançamento de Peregrinação,
o Brasil iniciava um momento de transição com a posse do general João Batista
de Oliveira Figueiredo na presidência da República, em substituição ao também
general Ernesto Geisel. Era um período em que a censura ainda demonstrava sua
força e no qual os artistas insatisfeitos com o sistema tinham que utilizar
metáforas e alegorias para imiscuir suas indignações e críticas sociais em
peças teatrais, poemas, contos, romances, roteiros de filmes e nas letras de
músicas.
Nicéas Drumont aproveitou essa
fresta de transição e, no meio de canções que falavam de aventuras amorosas,
gravou alguns trechos que rementem direta ou indiretamente a algumas
insatisfações que não poderiam ser expressas abertamente em anos anteriores.
Logo na segunda música do disco,
intitulada Sentença, é possível perceber que o artista maranhense
utiliza uma hipotética história de decepção amorosa para remeter a alguns
pontos que podem ser também interpretados como um recado sobre o desejo de uma
mudança de sistema, algo bem próximo do que havia sido feito por Chico Buarque
de Hollanda anos antes, em Apesar de você, na qual o autor da Ópera
do malandro denunciava as opressões governamentais do Presidente Emílio
Garrastazu Médici (1905-1985). Nicéas Drumont aparentemente utiliza esse mesmo
recurso estético/simbólico em sua música, conforme pode ser visto a seguir: Tá chegando
a hora De lhe ver
pagar Todo o
sofrimento que você Me fez
passar. Você abusou
de meus direitos Andava por
aí contando marra Pulou
demais e caiu do cavalo Vai ter que
segurar a sua barra É a hora da
sentença Eu quero
ver você pagar Você fez
cama de espinho Aonde vai
ter que se deitar Em outra música que trata de tema
amoroso – Cavalo de Tróia, na qual um homem se torna totalmente
dependente da presença de sua amada, o compositor maranhense aproveitou a
situação para tecer uma comparação entre a situação econômica do Brasil em um
período em que as chamadas empresas multinacionais, com o intuito de reduzirem
os custos operacionais e aumentarem as margens de lucro, aproveitando-se das
lacunas presentes nas legislações dos países menos desenvolvidos, chegaram ao
Brasil e aqui se instalaram. Atento a tudo isso, Nicéas inicia a canção
dizendo: “Essa mulher parece multinacionais, tá me comprando e cada vez
querendo mais”, em uma clara referência ao processo de exploração do
trabalhador nessa fase da história do Brasil.
Na composição Em casa de bamba
crioulo é doutor, em alguns momentos, as diferenças de classe são
lembradas, como ocorre no fragmento a seguir: “Mulher de rico espera o sol na
praia / mulher de pobre só espera filho”. E, para completar, traz uma denúncia
a respeito da injusta distribuição de renda no Brasil, como pode ser visto a
seguir:“Não me venha com essa malandragem de comer a fruta e me dá o
caroço, pois não sou panela de pobre, que tanto cozinha e não passa de um osso”.
Em Aluguel, que também ficou
conhecida como Eu vou morar no mato, o artista rosariense, fez uma séria
denúncia sobre as modificações ocorridas na relação locador/locatário e que
acabaram culminando na aprovação da Lei 8.245, de 18 de outubro de 1991 – a
chamada Lei do Inquilinato. Interessante notar que a referida Lei foi aprovada
após o falecimento do compositor, mas o Projeto de Lei já havia causado
diversas controvérsias e sido discutido durante vários anos. As críticas ao
ordenamento jurídico que deu origem à chamada “denúncia vazia”, que permitia ao
dono do imóvel pedir de volta a casa alugada, sem justificativa para o
contratante, se considerasse que as condições de aluguel não lhes eram
satisfatórias, aparecem claramente na composição.
Utilizando de seu característico bom
humor e da criatividade que lhe eram peculiares, Nicéas Drumont escreveu: Já
vendi meu terno também
meu sapato eu
vou morar no mato eu
vou morar no mato (eu
já disse a você) Já
dizia meu avô nos seus raros argumentos que
o índio é que tá certo não
dá bola pro cimento Não
precisa de colchão dorme
no couro do gato se
livrou do condomínio e da lei do inquilinato. Claro que o elemento indígena a que
ele se refere na letra da música ainda está bastante ligado à visão romântica e
que a letras traz em si até mesmo um laivo de preconceito, mas não se vê nesses
detalhes um desejo de diminuir a importância dos povos indígenas, mas sim de
apontar uma alternativa ao que ele considerava como forma de exploração
pecuniária a partir do aumento abusivo do valor dos aluguéis.
De modo extremamente direto, o autor
de Gavião Vadio conseguiu escrever uma composição que possivelmente
poderá servir com hino de protesto contra todos os governos, independentemente
das colorações ideológicas. Aproveitando o fato que sempre haverá um razoável
número de pessoas insatisfeitas com o panorama político e a com a administração
pública, seja ela em esfera federal, estadual ou municipal, Nicéas Drumont
compôs o seguinte texto, que é autoexplicativo: Você
nos encheu de promessas jurou
bem alto e esqueceu Agora
tenha santa paciência Queremos
tudo que você nos prometeu (e não cumpriu) Já
não temos mais o que sofrer Já
não temos mais o que chorar Só
nos resta o dia pra gemer Só
nos resta a noite pra gritar Flores
maltratadas morrerão porque
lamparina seca não conduz ninguém É
demais a peregrinação Queremos
paz Queremos
luz Agora
é nossa vez de contestar E
você tem que tirar o prego de nossa cruz. Esse LP é hoje uma raridade, mas
graças às diversas plataformas de vídeo e de música, é possível apreciar esse
belo trabalho de Nicéas. Claro que, nestes tempos tacocrônicos em que vivemos,
as pessoas não parecem dispor de 34 minutos e 44 segundos para apreciarem um
dos bons exemplos do que há de melhor da música brasileira. Espero ser
contrariado e um dia ficar sabendo que você que agora me lê tenha colocado em
um dos motores de busca as tags Nicéas Drumont e Peregrinação, tenha
encontrado os links e tenha se deleitado com a audição desse disco que
parece cada dia mais atual.
Tomara!
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