terça-feira, 9 de junho de 2026

AMIZADE

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


AMIZADE
José Neres 

O cachorro sentia o odor do dono
Que para casa jamais voltaria
E ali enfrentava fome, frio e sono
Nas frestas do relento se escondia.

Sofria as mil dores de um abandono
Involuntário que tanto lhe doía 
Fosse inverno, primavera ou outono
Só de saudade o peito lhe tinia.

A fria lousa tornou-se seu trono
Perto daquela cruz ele latia
Convertendo lágrimas em carbono.

Eu vejo tudo isso e me impressiono…
Com aquela canina sinfonia
A clamar pelo falecido dono.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

NICÉAS DRUMONT

 Novos Artigos de Segunda #87




34 MINUTOS DE PEREGRINAÇÃO

 

José Neres

(Professor. Membro da AML, ALL, APB e Sobrames-MA)

 

 

            Lançado em 1979, em plena efervescência de um período ditatorial no Brasil, o LP Peregrinação é um dos melhores produtos da discografia produzida por um cantor e compositor maranhense.

            Mesclando letras que tratam de questões amorosas, traços autobiográficos e críticas sociais, Nicéas Drumont (1951-1990) – nome artístico do cantor e compositor rosariense Nicéas Alves Martins, um sambista nato que circulava com extrema competência por praticamente todos os ritmos musicais – nesse disco, conseguiu mostrar toda a sua maestria e senso crítico com relação à realidade vivida pelo Brasil naquele momento histórico.

            No ano do lançamento de Peregrinação, o Brasil iniciava um momento de transição com a posse do general João Batista de Oliveira Figueiredo na presidência da República, em substituição ao também general Ernesto Geisel. Era um período em que a censura ainda demonstrava sua força e no qual os artistas insatisfeitos com o sistema tinham que utilizar metáforas e alegorias para imiscuir suas indignações e críticas sociais em peças teatrais, poemas, contos, romances, roteiros de filmes e nas letras de músicas.

            Nicéas Drumont aproveitou essa fresta de transição e, no meio de canções que falavam de aventuras amorosas, gravou alguns trechos que rementem direta ou indiretamente a algumas insatisfações que não poderiam ser expressas abertamente em anos anteriores.

            Logo na segunda música do disco, intitulada Sentença, é possível perceber que o artista maranhense utiliza uma hipotética história de decepção amorosa para remeter a alguns pontos que podem ser também interpretados como um recado sobre o desejo de uma mudança de sistema, algo bem próximo do que havia sido feito por Chico Buarque de Hollanda anos antes, em Apesar de você, na qual o autor da Ópera do malandro denunciava as opressões governamentais do Presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985). Nicéas Drumont aparentemente utiliza esse mesmo recurso estético/simbólico em sua música, conforme pode ser visto a seguir:
 
Tá chegando a hora
De lhe ver pagar
Todo o sofrimento que você
Me fez passar.
 
Você abusou de meus direitos
Andava por aí contando marra
Pulou demais e caiu do cavalo
Vai ter que segurar a sua barra
É a hora da sentença
Eu quero ver você pagar
Você fez cama de espinho
Aonde vai ter que se deitar
 
            Em outra música que trata de tema amoroso – Cavalo de Tróia, na qual um homem se torna totalmente dependente da presença de sua amada, o compositor maranhense aproveitou a situação para tecer uma comparação entre a situação econômica do Brasil em um período em que as chamadas empresas multinacionais, com o intuito de reduzirem os custos operacionais e aumentarem as margens de lucro, aproveitando-se das lacunas presentes nas legislações dos países menos desenvolvidos, chegaram ao Brasil e aqui se instalaram. Atento a tudo isso, Nicéas inicia a canção dizendo: “Essa mulher parece multinacionais, tá me comprando e cada vez querendo mais”, em uma clara referência ao processo de exploração do trabalhador nessa fase da história do Brasil.

            Na composição Em casa de bamba crioulo é doutor, em alguns momentos, as diferenças de classe são lembradas, como ocorre no fragmento a seguir: “Mulher de rico espera o sol na praia / mulher de pobre só espera filho”. E, para completar, traz uma denúncia a respeito da injusta distribuição de renda no Brasil, como pode ser visto a seguir: “Não me venha com essa malandragem de comer a fruta e me dá o caroço, pois não sou panela de pobre, que tanto cozinha e não passa de um osso”.

            Em Aluguel, que também ficou conhecida como Eu vou morar no mato, o artista rosariense, fez uma séria denúncia sobre as modificações ocorridas na relação locador/locatário e que acabaram culminando na aprovação da Lei 8.245, de 18 de outubro de 1991 – a chamada Lei do Inquilinato. Interessante notar que a referida Lei foi aprovada após o falecimento do compositor, mas o Projeto de Lei já havia causado diversas controvérsias e sido discutido durante vários anos. As críticas ao ordenamento jurídico que deu origem à chamada “denúncia vazia”, que permitia ao dono do imóvel pedir de volta a casa alugada, sem justificativa para o contratante, se considerasse que as condições de aluguel não lhes eram satisfatórias, aparecem claramente na composição.

            Utilizando de seu característico bom humor e da criatividade que lhe eram peculiares, Nicéas Drumont escreveu:
 
Já vendi meu terno
também meu sapato
eu vou morar no mato
eu vou morar no mato
(eu já disse a você)
Já dizia meu avô nos seus raros argumentos
que o índio é que tá certo
não dá bola pro cimento
Não precisa de colchão
dorme no couro do gato
se livrou do condomínio e da lei do inquilinato.
 
            Claro que o elemento indígena a que ele se refere na letra da música ainda está bastante ligado à visão romântica e que a letras traz em si até mesmo um laivo de preconceito, mas não se vê nesses detalhes um desejo de diminuir a importância dos povos indígenas, mas sim de apontar uma alternativa ao que ele considerava como forma de exploração pecuniária a partir do aumento abusivo do valor dos aluguéis.

            De modo extremamente direto, o autor de Gavião Vadio conseguiu escrever uma composição que possivelmente poderá servir com hino de protesto contra todos os governos, independentemente das colorações ideológicas. Aproveitando o fato que sempre haverá um razoável número de pessoas insatisfeitas com o panorama político e a com a administração pública, seja ela em esfera federal, estadual ou municipal, Nicéas Drumont compôs o seguinte texto, que é autoexplicativo:
 
Você nos encheu de promessas
jurou bem alto e esqueceu
Agora tenha santa paciência
Queremos tudo que você nos prometeu (e não cumpriu)
 
Já não temos mais o que sofrer
Já não temos mais o que chorar
Só nos resta o dia pra gemer
Só nos resta a noite pra gritar
Flores maltratadas morrerão
porque lamparina seca não conduz ninguém
É demais a peregrinação
Queremos paz
Queremos luz
Agora é nossa vez de contestar
E você tem que tirar o prego de nossa cruz.
 
            Esse LP é hoje uma raridade, mas graças às diversas plataformas de vídeo e de música, é possível apreciar esse belo trabalho de Nicéas. Claro que, nestes tempos tacocrônicos em que vivemos, as pessoas não parecem dispor de 34 minutos e 44 segundos para apreciarem um dos bons exemplos do que há de melhor da música brasileira. Espero ser contrariado e um dia ficar sabendo que você que agora me lê tenha colocado em um dos motores de busca as tags Nicéas Drumont e Peregrinação, tenha encontrado os links e tenha se deleitado com a audição desse disco que parece cada dia mais atual.

Tomara!


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