Novos artigos de segunda #74
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| Fonte da imagem: arquivo do autor |
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UMA SENSUAL BORBOLETA NAS PÁGINAS DE UM LIVRO
José Neres
Semana passada, durante o encerramento do VI SiGEMA - Simpósio do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense, tive a honra de fazer parte de uma Mesa que contava também com a participação da professora e mestranda em Letras Linda Barros e da professora Doutora Natércia Garrido, com a mediação do Dr. Dino Cavalcante.
Na ocasião, falei mais detidamente sobre o romance Um Destino Provisório, de Lucy Teixeira. Mas, antes, fiz um passeio panorâmico pela produção romanesca de diversas escritoras maranhenses. Claro que esse tipo de incursão é sempre cheio de lacunas, de lapsos de memória e de provas de desconhecimento.
Entre as autoras que citei brevemente estava o nome de Seane Melo, que recentemente teve seu livro Migalhas agraciado com o prêmio de romance do ano pela Academia Maranhense de Letras. Por uma dessas coincidências que se escondem nas esquinas da vida, o livro que eu havia separado para ler no final de semana era justamente Digo te amo a todos que me fodem bem, dessa premiada autora ainda pouco conhecida e divulgada no Maranhão.
Como não poderia deixar de ser, o contato com um título impactante como o desse romance pode tanto aproximar como afastar alguns hipotéticos leitores. Ou pelo menos fazer alguém ler o livro e negar tê-lo lido, por razões diversas e nem sempre confessáveis em público.
Como acredito que não deve existir espaço para os preconceitos nas leituras literárias destinadas ao público adulto e consciente da possibilidade ou não de virar a próxima página, prossegui atentamente na leitura.
O livro é escrito em primeira pessoa e apresenta ao público Vanessa, uma mulher jovem, aparentemente bela, com situação financeira estabilizada e aberta para a exploração do próprio corpo, seja acompanhada ou de modo solitário.
No entanto, o que à primeira vista parece apenas um romance erótico, com a protagonista narrando suas aventuras e fantasias sexuais, pode (e deve) ser visto também como um mergulho em questões sociais e psicológicas que nem sempre são abordadas pelas pessoas e pelos autores de ficção.
Dividido esquematicamente em trinta capítulos, a narradora acaba também se dividindo entre três de seus principais parceiros - João, Mateus e Thiago - cada um com suas taras, manias, angústias e comportamentos. Nessa divisão, cada um deles tem direito ao protagonismo por dez capítulos, espaço suficiente para deixarem suas marcas - positivas e negativas -, suas lembranças e terem a oportunidade inclusive de aparecerem nas partes dedicadas às memórias de boas ou más experiências.
Esses três rapazes são diferentes entre si, mas apresentam comportamentos que acabam compondo uma espécie de estereótipo de como o homem acaba se apresentando para a sociedade. Todos têm um tipo específico de beleza e trazem características que vão além das aparências.
Vanessa - sintomaticamente o nome também de um gênero de borboletas - é solta, livre e esvoaçante, mas, aos poucos, acaba se mostrando também dependente da atenção alheia. Não é à toa que a autora dá bastante ênfase às trocas de mensagens entre Vanessa e seus companheiros. A falta de respostas quase sempre angustia a protagonista. Porém as respostas que não a satisfaçam também fazem com que ela mergulhe na angústia. A complexidade comportamental da personagem é um atrativo a mais na leitura do livro.
Ao longo do livro Seane Melo vai sutilmente chamando atenção para os usos das redes sociais, demonstrando como algumas exposições e dependências podem trazer consequências para a saúde física e mental das pessoas. A cena de Vanessa, sozinha, lavando a louça e comentando sobre os vários níveis de dificuldade com a limpeza tem efeito catártico e metafórico ao mesmo tempo. O celular está ali perto, mas é o momento do encontro consigo mesma, do silêncio e da busca de um brilho que parecia perdido por camadas impregnadas no tempo.
Outro ponto a destacar é a playlist que acompanha a personagem ao longo de sua trajetória. Cada música tem um efeito nos aspectos psicológicos de Vanessa e de seus parceiros. Como uma borboleta, Vanessa flutua por diversos terrenos. Ela parece frágil, mas é difícil de ser capturada. Mesmo assim, em alguns momentos, sente-se como uma peça de uma coleção, como um troféu, tal qual ocorre na rápida relação com o aparentemente predador Thiago.
O que Vanessa aprendeu e o que Vanessa ensinou ao longo do livro é algo complexo que daria margem para um estudo mais aprofundado sobre essa personagem tão encantadora e complexa.
Digo te amo a todos que me fodem bem é um livro que deve ser lido longe dos estigmas e dos preconceitos. A leitura é fluida e esconde mensagens que vão além da epiderme e além do prazer momentâneo da própria leitura.

















