Novos artigos de segunda #65
AFRODESCENDÊNCIA
EM NÓS
José Neres
Não importa onde você esteja. Ali também estarão sua história, seu passado, suas dores e alegrias. Muitas vezes esses momentos se tornam rebeldes e teimam em se esconder nas fronhas do silêncio ou nos lençóis de um indecifrável esquecimento. Em outros momentos, porém, eles imploram para virem à tona das memórias e reminiscências e, nas mãos da pessoa certa, ganham a forma de linguagem, ou melhor, de linguagens.
Nós, que não somos donos nem mesmo de nossa história, pois há trechos de nossa vida que estão arquivados em memórias e lembranças alheias, muitas vezes - por medo, insegurança ou vergonha - tentamos sufocar as três incômodas perguntas universais: quem eu sou, de onde eu venho e para onde ou vou…
Felizmente existem também pessoas que não se escondem dessas inquietações e passam a considerar nossas dúvidas, angústias e ancestralidades como motivo de orgulho e fonte de inspiração.
Uma dessas pessoas é a escritora e professora Maura Luza Frazão, que recentemente publicou o livro “Afrodescendência em mim” (Editora InVitro, 2025, 132 páginas), no qual exibe com justificável orgulho, um pouco de si e de tantos lugares e pessoas que fizeram e fazem parte de sua trajetória de vida.
Logo no início do livro, a autora deixa claro para os leitores que seus “versos carregam / Reminiscências, lamentos, dores / Resquícios da escravidão” (pág. 19). Após apresentar as diretrizes de seus poemas, Maura Luza Frazão passa a se despir em palavras no intuito de mostrar que no corpo dos poemas habitam um passado, uma história e uma “Alma de poeta” (pág. 22).
Sabedora de que tudo o que somos deriva de outras pessoas, a escritora aproveita o espaço subliminar que existe entre os versos e os silêncios para homenagear dona Benedita Desidéria, “uma pessoa singular (...) popularmente conhecida como ‘Dona Bibi’”, (pág. 29), sua mãe, que seguramente é a personalidade mais destacada do livro e sobre quem são escritos os versos mais pungentes e os mais suaves da obra. Mesmo com poemas dedicados a celebridades como Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Beatriz Nascimento, Gonçalves Dias e Ferreira Gullar, é a aura de Dona Bibi que norteia os caminhos trilhados pela autora ao longo do livro. É ela a força motriz que acaba por conduzir os demais eixos temáticos dos poemas.
O ser mulher, brasileira, nordestina, maranhense, monçonense e afrodescendente, herdeira de histórias e de tradições é o outro ponto de destaque do livro. Essa multiplicidade de identidades que se completam sem necessidade de competição se entrecruza na composição da simplicidade de versos que se compõem a partir da noção de um eu que revela sutilmente a presença do outro, seja do presente, seja do passado.
É dessa confluência de tantos “eus” que Maura Luza Frazão retira a matéria-prima que compõe seus versos e tenta despertar a latência de uma Afrodescendência que habita em nós.
Como nosso passado habita em nós, nada melhor que transformá-lo em arte, pois é a arte que também nos une.
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| A escritora Maura Luza Frazão durante lançamento da Antologia do UniCeuma Fonte da imagem: arquivo do autor |

















