Novos artigos de segunda #98
![]() |
| Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial |
A TURMA DO FUNDÃO
José Neres
ISNI: 0000000530697862
Embora muitas pessoas discordem (e é um direito de todos a discordância), acredito que existem diversas mudanças ocorrendo no campo da educação, embora nem sempre nos damos conta disso.
Uma dessas mudanças vem acontecendo com a chamada “turma do fundão”. Quem é mais antigo nas lides com a sala de aula deve recordar que ali era o espaço historicamente reservado para os alunos que faziam barulho, soltavam piadinhas, tumultuavam as aulas e tinham como missão sagrada e específica tirar os professores do sério.
Era no fundão que o barulho imperava. Era quase sempre de lá que vinham os aviõezinhos de papel, as piadinhas de duplo (ou triplo) sentido, as risadinhas maliciosas. Porém, quando o professor se virava, todos fingiam estar concentrados e, cinicamente, chegavam a perguntar se aquele sermão ou indireta era para eles. Depois disso, o ano letivo continuava e a vida também.
O desinteresse não mudou muito com o passar do tempo, contudo o cenário vem se tornando cada dia mais diferente. Hoje, o chamado fundão é ocupado por quem procura um cantinho mais aconchegante para dormir, usar o celular mais à vontade, ouvir suas músicas preferidas ou simplesmente localizar uma tomada disponível a fim de recarregar a bateria de seu aparelho (geralmente de última geração).
As risadas abafadas e os papeizinhos jogados nos colegas foram substituídos paulatinamente pelo brilho que emana das telas dos celulares e pelas mensagens trocadas com pessoas que estão distantes, mas que habitam o coração do sempre desatento aluno…
E se o professor pedir atenção para a aula ou reclamar? Provavelmente, nos raros casos em que for ouvido, será solenemente ignorado. E os conteúdos das aulas? Depois um vídeo ou um esquema produzido por uma IA resolvem isso. E a busca de um aprofundamento? Aprofunda o quê mesmo?...
A turma do fundão sempre foi vista (com exceções, claro) como exemplo de incivilidade em sala de aula. Mas pelo menos, vez ou outra interagia com os professores e, de alguma forma, servia para animar as aulas e dar um tom menos formal ao dia a dia acadêmico. A nova geração dessa turma, no entanto, optou pela apatia e por uma presença ausente, ou seja, o corpo está ali, conectado a aparelhos e não à necessidade de aprender algo.
O pior é que esse fenômeno não se espalhou rapidamente por todos os níveis de ensino. Basta dar uma espiadinha em nossas salas de aula para constatar.
Alguns professores já começam a sentir falta da antiga turma do fundão…















