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NOSSAS VERDADES PARTICULARES
José Neres
Com os nervos à flor da pele, munidos de um arsenal de informações frágeis, fragmentadas e sem consistência teórica, geralmente adquiridas em vídeos de 15 a 30 segundos, todos os dias partimos para batalhas verbais que têm como objetivo precípuo mostrar que somos donos absolutos de todas as verdades do universo.
Não temos tempo, disposição e paciência para ouvir os argumentos alheios. E todos aqueles que ousam pensar diferente daquilo que pensamos entram em nossa mira, como se fossem pessoas perigosas que precisam ser abatidas ou, no mínimo, anuladas.
O direito ao contraditório é algo que só faz sentido quando nós mesmos nos sentimos vítimas. Os demais só têm o direito de permanecerem calados. Mesmo assim estarão sempre errados. Não importa o que digam. Se não coadunarem com nossas ideias, estarão erradas. E se, depois de muitas pressões, aceitarem nossos pensamentos, continuarão erradas, pois não têm o domínio de um vocabulário específico que apenas nós dominamos. Somos os donos de todas as verdades.
Não sentimos necessidade de parar para tentar compreender os pensamentos de nossos inimigos. Mas eles têm a obrigação de nos ouvir. E calados, de preferência. Eles têm muito a aprender com a nossa sabedoria, pois o conhecimento deles não passa de lixo e de escrotidão.
***
Uma fala como a descrita acima parece absurda. Porém ela condiz com o que vem acontecendo nos tempos atuais.
Quando temos alguma ideia, devemos preocupar-nos não apenas com o que vamos dizer, mas também como vamos nos expressar e com quem estamos nos comunicando. Uma palavra fora de lugar ou mesmo uma entonação inadequada pode dar origem a um conflito de grandes dimensões. Exemplos disso não faltam. Basta atentar para nosso entorno.
Por um lado, isso pode ser bom, pois obriga o emissor a pensar antes de escrever ou de falar. Mas, por outro lado, esse incessante policiamento ideológico acaba censurando pensamentos que ainda nem foram elaborados e devidamente processados e tira o direito de alguém falhar, ser comunicado dessa falha e, após uma reflexão, corrigir ou não seu discurso.
No entanto, quando alguém (ou determinado grupo) se intitula Dono da Verdade, a fala do outro acaba sendo invalidada por interdições que vão além das palavras e ganham outras dimensões, que geralmente fogem ao controle até mesmo do censor.
Tais frases, palavras e atitudes podem passar a serem interpretadas não apenas por aquilo que elas comunicam, mas também por aquilo que poderiam comunicar, caso fossem inseridas em um outro contexto. Além disso, esses textos acabam contaminados pela leitura enviesada de quem os disseminou após uma análise pautada, quase sempre, em um “achismo” impregnado de tendências ideológicas e da intenção de culpar ou inocentar alguém por seu discurso.
Ou seja, quem se acha dono da verdade pode estar adquirindo o perigoso e impensável poder de transformar palavras ditas em fatos; pensamentos em crimes; crimes em dúvidas; e possibilidade de fala em medo. Isso éuito perigoso!
A liberdade de expressão sempre foi uma liberdade vigiada. A natureza dos discursos sempre foi ideológica. E as palavras sempre tiveram a possibilidade de serem deturpadas ao longo das múltiplas transmissões. Possivelmente, nem mesmo seja novidade, cada pessoa ou grupo alimentar suas verdades particulares, para depois colher os frutos dessa semeadura.
Mas isso assusta… e como assusta… Não apenas assusta, mas também persegue, silencia, anula e cala quem pensa diferente.
Voltemos mentalmente para fevereiro de 1985, quando Josué
Montello colocou o ponto final em suas Confissões de um romancista, ensaio
literário que agora, mais de quatro décadas depois, deixa de existir apenas
como estudo introdutório do primeiro dos três volumes da coletânea Romances
e Novelas, publicada no ano seguinte, em 1986, pela Editora Nova Aguilar, em
coleção cada dia mais rara que contém 15 romances e 4 livros com novelas escritas
e publicadas por Montello até aquele momento.
Naquela volumosa e cada vez mais desejada coleção, que conta
com quase quatro mil páginas, englobando estudos críticos, cronologia,
bibliografia ativa e passiva, além de um texto introdutório que elucida boa
parte das motivações montellianas na arte da criação textual, há também um interessante
ensaio inicial. Esse ensaio tem como título Confissões de um Romancista.
E é assinado pelo próprio Josué Montello.
Façamos agora, senhoras e senhores, um breve exercício
mental. Voltemos quatro décadas no tempo, quando aquele texto foi publicado, exatamente
em 1986. Naquela época internet, o mundo e a vida cotidiana já eram acelerados,
mas não tanto quanto agora. Ainda não vivíamos no império tacocrônico e
tacocrático tão estudado e discutido pelo professor Mário Sérgio Cortella e por
outros pensadores contemporâneos.
Naquele aparentemente distante ano, as pessoas passaram
horas com a cabeça erguida à espera da passagem do Comenta Harlley. Talvez por
estarem com a cabeça nas nuvens, nem mesmo se lembraram que aquele ano foi
considerado pela Unesco (Organização das nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura) como o Ano Internacional da Paz. Da mesma forma, mesmo com
os olhares fixos no céu, não nos lembremos da fatídica explosão do ônibus
espacial Challenger, menos de um minuto e meio após sua decolagem. Talvez nem mesmo
nos lembremos que, naquele mesmo ano, na Ucrânia, o acidente nuclear de
Chernobil tomava conta das manchetes dos jornais e das revistas.
Porém, talvez algumas pessoas ainda tenham em sua memória a
vitória da seleção Argentina sobre o time da então Alemanha Ocidental, por 3 a
2, na final da Copa do Mundo, e da greve geral contra o Plano Cruzado, que
havia sido anunciado no segundo mês daquele ano e aprovado em abril. No meio de
tantos momentos icônicos, poucas pessoas também talvez se lembrem que enquanto os
três volumes da obra de Montello eram “rodados” nas gráficas da editora, cerca
de 1800 pessoas perdiam a vida por causa da exposição de dióxido de carbono na
África, mais exatamente em Camarões, um de nossos países irmãos.
Naquele mesmo ano, perdíamos nomes como o grande músico
Nelson Cavaquinho e o galã cinematográfico Cary Grant, ator imortalizado por
filmes como Ladrão de casaca (1955) e Alice no País das Maravilhas (1933). No
mesmo ano, chegavam às telas dos cinemas filmes como Highlander (com
Cristhofer Lambert e Sean Connery), Curtindo a Vida Adoidado (com Mattew
Broderick), Top Gun: Ases Indomáveis (com Tom Cruise), Platoon (Com
Charlie Sheen e Willem Dafoe), Crocodilo Dundee (com Paul Hogan) e Eu
sei que vou te amar (de Arnaldo Jabor, com Fernanda Montenegro e Thales Pan
Chacon).
Na literatura, escritores como Juan Rulfo (Pedro Páramo),
Jorge Luis Borges (Ficções), Origenes Lessa (Rua do Sol),
Alexandre O’Neil (Abandono Vigiado), Simone de Beauvoir (O Segundo
Sexo) e Josué Guimarães (Dona Anja) saíam do mundo terreno e
deixavam suas obras para a posteridade.
Ao mesmo tempo, as rádios brasileiras eram embaladas por canções
como Perigo (Zizi Possi), Tempo Perdido e Eduardo e Mônica
(Legião Urbana), Quando Gira o Mundo (Fábio Junior), Demais
(Verônica Sabino), Vida Louca Vida (Lobão) e Só a Lua (Absyntho),
Retratos e Canções (Sandra de Sá), Melô do Marinheiro (Paralamas
do Sucesso) e Do Leme ao Pontal (Tim Maia), entre outras.
É, senhores e senhoras, o mundo vibrava em outro ritmo. Não
sei se melhor ou pior do que o ritmo de hoje.
Mas o que tem a ver Josué Montello com todo esse contexto
histórico? Tudo, claro!
Ele
foi um homem que viveu intensamente todas as épocas por que passou. Ele estava
atento a todos acontecimentos e muitos deles foram aproveitados como temática
principal ou como pano de fundo para a produção de sua obra. Montello tinha o
hábito salutar de anotar em diários suas impressões sobre os acontecimentos vividos
por ele, como muito bem já escreveram os pesquisadores Mauro Cézar Vieira e
Saulo Barreto em suas respectivas dissertações de mestrado.
Talvez
mesmo sem perceber, Josué Montello prestou um relevante serviço a quem possivelmente
ainda nem havia nascido quando suas Confissões de um Romancista chegaram
às mãos dos leitores há quarenta anos. Os períodos iniciais do livro são simples,
diretos, descritivos e incontestes:
Nasci
a 21 de agosto de 1917, em São Luís, numa casa que ainda hoje existe, na esquina
da Rua dos Afogados com a Rua do Pespontão. Casa simples de duas janelas e uma
porta, rente à calçada.
Pronto. Já no início deste primeiro parágrafo o leitor já se
depara com o estilo elegante de Josué Montello. O mesmo cuidado estético que
ele tinha na construção de suas personagens ele também utilizou para falar de
si próprio, de seus livros e de diversas passagens marcantes de sua vida até
então. Ele não nega que a inspiração para o ensaio veio da leitura de Como e
por que sou romancista, biografia literária escrita por José de Alencar e
que vem encantando diversas gerações de pessoas apaixonadas pela literatura ao
longo de várias décadas.
Aos poucos, o leitor passa a perceber como uma enfermidade e
a presença constante da ideia de morte moldaram não apenas um grande leitor,
mas também um futuro escritor preocupado com o que narrar e como narrar. A
leitura de autores como Samuel Butler, Miguel de Cervantes, Eça de Queirós, Maranhão
Sobrinho, João Ribeiro, Rachel de Queiroz, Amando Fontes, Machado de Assis, Aluísio
Azevedo, James Joyce, Willian Faulkner, Guimarães Rosa, Michael Gold, Lúcio
Cardoso, Stendhal, Balzac, Anatole France, Shakespeare e Göethe, entre tantos
outros acabou servindo para solidificar um estilo que sempre esteve em
construção, pois o autor jamais estava satisfeito com o próprio texto e buscava
sempre aperfeiçoá-lo.
Montello mesmo declarou em suas Confissões que ele “não
lia apenas – sobretudo aprendia”, que ele bem cedo ficou sabendo que “a
literatura é uma aprendizagem permanente” e que é preciso mergulhar nos
clássicos, “não para imitá-los, mas para aprender com eles”. Porém, mesmo talvez
sem perceber, muito cedo Montello deixou (sem jamais deixar de verdade) a
condição de aprendiz, para tornar-se um mestre. Um mestre na arte de tecer
narrativas com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Um mestre na
arte de criar mundo paralelos nos quais os leitores podem conviver com personagens
que mesclam ficção, história e aparentes realidades.
Contudo esse livro talvez nem existisse, caso não fosse um
breve episódio narrado a seguir. O ensaio teórico que abriria o primeiro volume
dos Romances e Novelas de Josué Montello ficou a cargo do crítico e
escritor maranhense Franklin de Oliveira, que há alguns anos já estudava a obra
montelliana e que ficou de ajustar alguns textos já publicados para entregar à
editora. Mas, por algum motivo, esse texto introdutório não foi entregue a
tempo, o que acabou obrigando o próprio Montello a escrever sobre sua própria obra.
No final, o público leitor acabou ganhando duas vezes: primeiro, por poder entrar
em contato com as confissões narradas pelo próprio ficcionista; segundo, porque,
anos depois, mais exatamente em 2017, o ensaio de Franklin de Oliveira veio
público graças aos esforços da professora, escritora e ensaísta Arlete Nogueira
da Cruz, que editou o livro A Obra Romanesca de Josué Montello, que
ajuda a complementar a compreensão dos livros do autor de Os Tambores de São
Luís.
O livro que agora, graças aos esforços da equipe da Casa de
Cultura Josué Montello, se desvincula fisicamente do primeiro volume da Coleção
Biblioteca Luso-Brasileira e passa a ter uma vida independente, é uma obra essencial
e extremamente necessária para todos os admiradores e estudiosos da produção
intelectual montelliana. Em cada página o leitor encontra alguma surpresa,
alguma confissão que só poderia sair da lavra de quem dominava a arte de contar
uma história criando laços e apertando nós, sem que nós percebamos que, de
alguma forma estamos enlaçados nesses nós.
Muito mais do que simples ou indiscretas confissões, o livro
está repleto da humana sensação da possível falibilidade de alguém que almejava
a perfeição na escrita. De alguém que reconhece suas angústias e que reconhece que
as palavras eram suas vestes mais ajustadas e perfeitas. E que, aos despir-se dos
vernáculos tornou-se ainda mais humano, mais mortal e mais imortal ao mesmo tempo.
Semana passada, durante o encerramento do VI SiGEMA - Simpósio do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense, tive a honra de fazer parte de uma Mesa que contava também com a participação da professora e mestranda em Letras Linda Barros e da professora Doutora Natércia Garrido, com a mediação do Dr. Dino Cavalcante.
Na ocasião, falei mais detidamente sobre o romance Um Destino Provisório, de Lucy Teixeira. Mas, antes, fiz um passeio panorâmico pela produção romanesca de diversas escritoras maranhenses. Claro que esse tipo de incursão é sempre cheio de lacunas, de lapsos de memória e de provas de desconhecimento.
Entre as autoras que citei brevemente estava o nome de Seane Melo, que recentemente teve seu livro Migalhas agraciado com o prêmio de romance do ano pela Academia Maranhense de Letras. Por uma dessas coincidências que se escondem nas esquinas da vida, o livro que eu havia separado para ler no final de semana era justamente Digo te amo a todos que me fodem bem, dessa premiada autora ainda pouco conhecida e divulgada no Maranhão.
Como não poderia deixar de ser, o contato com um título impactante como o desse romance pode tanto aproximar como afastar alguns hipotéticos leitores. Ou pelo menos fazer alguém ler o livro e negar tê-lo lido, por razões diversas e nem sempre confessáveis em público.
Como acredito que não deve existir espaço para os preconceitos nas leituras literárias destinadas ao público adulto e consciente da possibilidade ou não de virar a próxima página, prossegui atentamente na leitura.
O livro é escrito em primeira pessoa e apresenta ao público Vanessa, uma mulher jovem, aparentemente bela, com situação financeira estabilizada e aberta para a exploração do próprio corpo, seja acompanhada ou de modo solitário.
No entanto, o que à primeira vista parece apenas um romance erótico, com a protagonista narrando suas aventuras e fantasias sexuais, pode (e deve) ser visto também como um mergulho em questões sociais e psicológicas que nem sempre são abordadas pelas pessoas e pelos autores de ficção.
Dividido esquematicamente em trinta capítulos, a narradora acaba também se dividindo entre três de seus principais parceiros - João, Mateus e Thiago - cada um com suas taras, manias, angústias e comportamentos. Nessa divisão, cada um deles tem direito ao protagonismo por dez capítulos, espaço suficiente para deixarem suas marcas - positivas e negativas -, suas lembranças e terem a oportunidade inclusive de aparecerem nas partes dedicadas às memórias de boas ou más experiências.
Esses três rapazes são diferentes entre si, mas apresentam comportamentos que acabam compondo uma espécie de estereótipo de como o homem acaba se apresentando para a sociedade. Todos têm um tipo específico de beleza e trazem características que vão além das aparências.
Vanessa - sintomaticamente o nome também de um gênero de borboletas - é solta, livre e esvoaçante, mas, aos poucos, acaba se mostrando também dependente da atenção alheia. Não é à toa que a autora dá bastante ênfase às trocas de mensagens entre Vanessa e seus companheiros. A falta de respostas quase sempre angustia a protagonista. Porém as respostas que não a satisfaçam também fazem com que ela mergulhe na angústia. A complexidade comportamental da personagem é um atrativo a mais na leitura do livro.
Ao longo do livro Seane Melo vai sutilmente chamando atenção para os usos das redes sociais, demonstrando como algumas exposições e dependências podem trazer consequências para a saúde física e mental das pessoas. A cena de Vanessa, sozinha, lavando a louça e comentando sobre os vários níveis de dificuldade com a limpeza tem efeito catártico e metafórico ao mesmo tempo. O celular está ali perto, mas é o momento do encontro consigo mesma, do silêncio e da busca de um brilho que parecia perdido por camadas impregnadas no tempo.
Outro ponto a destacar é a playlist que acompanha a personagem ao longo de sua trajetória. Cada música tem um efeito nos aspectos psicológicos de Vanessa e de seus parceiros. Como uma borboleta, Vanessa flutua por diversos terrenos. Ela parece frágil, mas é difícil de ser capturada. Mesmo assim, em alguns momentos, sente-se como uma peça de uma coleção, como um troféu, tal qual ocorre na rápida relação com o aparentemente predador Thiago.
O que Vanessa aprendeu e o que Vanessa ensinou ao longo do livro é algo complexo que daria margem para um estudo mais aprofundado sobre essa personagem tão encantadora e complexa.
Digo te amo a todos que me fodem bem é um livro que deve ser lido longe dos estigmas e dos preconceitos. A leitura é fluida e esconde mensagens que vão além da epiderme e além do prazer momentâneo da própria leitura.
“Desculpe-me pelo horário. “Provavelmente, o senhor não se lembra de mim, mas sou FULANA DE TAL e fui sua aluna há alguns anos na (Diz o nome da Instituição)”.
“Sim, lembro”.
“Obrigada. É o seguinte. Atualmente estou trabalhando (diz o nome do município) e estou responsável por um grande projeto de literatura para nossos alunos e gostaria de saber se o senhor pode ministrar uma palestra de uns quinze a vinte minutos sobre os autores maranhenses”.
“E quando será esse evento?”
“Na quinta-feira que vem. Sua palestra seria às cinco e meia da tarde. Coisa rápida, pois os meninos não gostam muito de palestra e ficam logo agitados. E como é uma escola pública, não temos como pagar transporte e hospedagem para o senhor, mas é pertinho e dá para o senhor chegar em casa de volta antes das dez da noite, se terminar antes das seis. Outro detalhe, não temos como pagar cachê, pois todo o dinheiro que arrecadamos só dará para o pagamento da banda que vai tocar das sete às nove, para o transporte dos músicos e para o lanche que vai ser distribuído. Mas o senhor não precisa ficar, para não sair muito tarde”.
“Hum-hum”.
“Então, o senhor pode vir?”
“Oh! Gostaria muito, querida, mas nas quintas-feiras trabalho o dia inteiro e não terei como ir. E na sexta-feira, bem cedo, estou em sala de aula.”
“Poxa, professor, que pena! Estava contando com o senhor. Tomara que da próxima vez dê certo. O senhor teria como indicar alguém?”
“É difícil indicar alguém assim em um prazo tão curto.”
Ouço um suspiro de decepção.
“Obrigada. Tchau. Desculpe pelo incômodo!”
“Até logo!”
Enquanto me arrumo para sair, fico pensando naquela conversa. Lembrei do excelente livro de João Ubaldo Ribeiro - O conselheiro come - sobre como o trabalho intelectual é visto pela sociedade.
Poxa! Perdi a chance de participar do evento. Eu só teria que faltar ao serviço, dirigir durante cerca de duas horas e meia. Falar durante alguns minutos. Provavelmente para jovens sem o menor interesse em me ouvir. Depois, fazer um lanche às pressas. Voltar para casa enfrentando uma estrada em situação calamitosa. Perdi uma bela oportunidade de gastar tempo, fôlego, paciência, combustível e muito mais.
Fica para a próxima!
Olhei para o relógio. Hora de sair. Era sábado. Mas o trabalho me esperava.
*****
PS: Claro que esse diálogo não aconteceu. Mas ele é uma colagem de algumas propostas indecentes que recebi durante minhas atividades docentes. Pior que aceitei algumas delas!
Envelhecimento é um tema que sempre chamou minha atenção.
Não temos como escapar. Todos nós passamos cotidianamente pelos processos de envelhecimento.
Mesmo que acha que não irá envelhecer, envelhece a cada ato de respirar.
Gosto tanto do tema que me formei em Gerontologia. Não para exercer essa nobre profissão, mas para entender como funciona esse longo, contínuo e irreversível processo que vai do nascimento até os momentos finais da vida.
Vez ou outro volto ao tema. Ele faz parte da vida de todos nós.
Tenho conversado com muitas pessoas que se sentem para baixo, que vivem e sobrevivem divididas entre os poucos momentos de alegria e os vazios da depressão. Entre o pé no freio da realidade e a aceleração constante da ansiedade.
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VI, LI, OUVI… MAS NÃO CONSIGO ACREDITAR
José Neres
Está cada dia mais difícil acreditar no que vemos, lemos ou escutamos. E não estou falando aqui da onda de textos, imagens e sons criados por Inteligência Artificial, nem dos boatos, mentiras, hoax ou fake news que assolam nosso dia a dia. Falo de situações constrangedoras que nos levam a deixar de acreditar em nossos próprios sentidos. Um
Deixando de lado as questões políticas que acabam afetando até mesmo nosso senso lógico, passo abaixo a tentar reproduzir algumas cenas absurdas que vivenciei recentemente. Nem sob tortura direi quem disse as asneiras, mas todas elas foram colhidas do terreno de nossa realidade.
1 - Uma confissão
Durante uma “live” sobre literatura, um professor declarou em alto e bom som que é apaixonado pela obra de José de Alencar, mas fez uma ressalva: ele se diz apaixonado especialmente por uma das personagens alencarianas, contudo, segundo ele, não é por Capitu, que ele inclusive considera “meio biscate”, mas sim por Helena…
Essa confusão mental pode até ser um lapso momentâneo, mas creio que alguém apaixonado por Alencar não confunde suas personagens com as de Machado de Assis.
Contudo, o pior viria depois. O mesmo professor afirmou diversas vezes que é preguiçoso, não gosta de estudar e que desde pequeno só pensa em se aposentar… um belo exemplo para as próximas gerações de docentes.
2 - Educação
Uma aluna do Ensino Médio chega para o professor e diz que está muito chateada, pois o professor não permite que ela durma durante as aulas. “Isso é um absurdo! Que dizer que tenho que ficar acordada na sala? Nunca vi isso!!!” Depois, ela saiu indignada por não ter permissão para tirar seu sagrado cochilo durante as explicações do mestre…
Parece piada, mas é verdade. Essa situação serve para demonstrar como está nossa educação hoje em dia….
Mas acho que não é só a garota que está dormindo durante as aulas. Grande parte da sociedade também dorme em berço esplêndido, enquanto nossa aprendizagem mergulha em um poço de descaso.
3 - Miopia
Conversando com uma autoridade do poder judiciário, caí na besteira de perguntar sobre os escândalos que são divulgados diariamente pela imprensa nacional. Essa autoridade me ouviu atentamente e depois respondeu com toda a calma do mundo:
“Tudo faz parte de um plano para desestabilizar o governo. Nunca houve corrupção no judiciário. A imprensa pega uma besteirinha e a transforma em um monstro de sete cabeças. Mas tudo não passa de boato. Nunca existiu corrupção no judiciário.”
Mudei de assunto. Melhor não contrariar…
4 - Orgulho
Diante de alguns colegas de turma e de alguns transeuntes, uma aluna do terceiro período de Letras se vangloria de jamais haver lido um único livro durante toda a sua vida. Mas sempre foi aprovada…
Sem constrangimento, todos riem.
Provavelmente, ela fará seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre “A Importância da leitura etc etc etc.”
O futuro da educação está garantido.
Só não sei como será esse futuro…
***
Essas cenas poderiam ter sido criadas por um simples prompt de Inteligência Artificial, mas são frutos da realidade e, para confirmar a veracidade, podemos lembrar a frase final de I-Juca Pirama: “Meninos, eu vi!”
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MEU AMIGO INSEPARÁVEL
José Neres
Creio que eu estava com sete para oito anos quando fomos apresentados. Ele era bem mais velho do que eu e demonstrava ter muita experiência de vida. Lembro-me que fiquei encantado com sua sabedoria. Tudo o que eu lhe perguntava, ele me respondia. Às vezes demorava um pouco, mas sempre respondia.
Nos horários vagos, ele costumava me contar um monte de histórias bonitas. Príncipes, reis, heróis, seres encantados, aventuras, romances… Ele tinha um incrível arsenal de histórias. E isso me encantou desde nosso primeiro contato.
O tempo foi passando e um dia ele me disse que eu precisava dividir minha atenção com outros assuntos. Nem tudo na vida são aventuras. E um dia eu necessitaria ganhar a vida com o suor de meu rosto.
Paciente, ele me mostrou diversos caminhos que eu poderia seguir. Mesmo com minhas constantes hesitações, dúvidas e mudança de rotas, ele estava sempre ali, orientando-me sem impor suas vontades.
“O destino é seu. Você que sabe para onde quer ir e onde vai chegar. Meu dever de amigo é sempre apoiar você e oferecer um pouco do que aprendi durante minha longa existência”, disse-me um dia em que eu estava indeciso entre os números e as letras; entre os cálculos e a sensibilidade literária; entre a poesia das fórmulas e as fórmulas da poesia.
Decidi. Depois mudei de ideia. Voltei a estudar para mudar meus rumos.
Cada vez que eu me sentava para tentar aprender algo, meu amigo ficava ali, ao meu lado, fazendo o possível para que eu alcançasse meus objetivos. Passamos inúmeros momentos juntos. Todos felizes.
Passei no Vestibular para Letras e, no dia da matrícula, ele foi comigo para a Universidade. Todo orgulhoso do amigo que estava iniciando um novo trajeto em sua vida. Estranhamente, ele não pôde ir à minha formatura. Mas me deu todo apoio quando decidi cursar Comunicação Social. Na primeira semana não houve aula e ficamos vagando pelos corredores do prédio. Um dia lhe perguntei: “Você me aconselha fazer História?” “Aconselho e apoio”. Fiz.
Vieram outros cursos e ele sempre ao meu lado… Muitas pessoas tentaram nos separar. Mas não conseguiram. Por nossa amizade, decidi perder muitas festas, bons momentos na praia, alguns namoros e até algumas pseudo-amizades.
Quando tinha alguma dúvida, procurava-o e ele estava sempre disponível para um papo sobre qualquer assunto.
Lutei, trabalhei, viajei, voltei, envelheci… E ele sempre ao meu lado, atencioso e fiel.
Agora mesmo, ele está aqui ao meu lado. Olhando para mim e rindo. Sorrio de volta. Ele tem o dom de não envelhecer. Inclusive já me avisou que brevemente nos separaremos. Não por nossa vontade, claro, mas pelo simples fato de que “tudo passa, tudo sempre passará”.
É tarde. Hora de dormir. Já levei uma bronca: “Esse texto era para ter sido escrito na segunda-feira. Preste atenção!” Que bronca!
Hora de dormir. Hora de colocar meu velho amigo para dormir. Levo-o para a estante e lá ele se reúne com seus outros amigos e repousa tranquilamente.
Chegamos ao final de fevereiro. Um mês bonito e cheio de festividades, mas não podemos esquecer que somos seres finitos. Apenas uma peça em uma gigantesca engrenagem ⚙️ ⚙️ ⚙️ ⚙️
Despeço-me do mês com esse singelo poema.
CARPE DIEM
José Neres
Aquelas coisas tão simples da vida Às vezes fazem uma falta danada. Como é bom provar da mãe a comida, Beijar o rosto da pessoa amada.
Poder andar com a cabeça erguida, Ter um bom bate-papo na calçada, Revisitar nossa infância perdida, Cantarolar com voz desafinada,
Pensar que toda a vida é decidida No jogo de botão da garotada Ou na notícia tão bem recebida.
Aproveite a bonança e a trovoada… Quando chegar nossa hora de partida, Seremos só montezinho de nada.
Li, ontem, em uma excelente
tradução de Fabiana Colasanti, o romance A House at the Bottom of a Lake –
Uma casa no fundo de um Lago (Intrínseca, 2018, 160 páginas), de Josh
Malerman, autor do bastante conhecido Caixa de Pássaros (Bird Box),
que serviu de base para uma adaptação para o cinema com título homônimo.
Trata-se de um livro de uma
leitura rápida e instigante, uma mescla bem equilibrada de breves cenas do cotidiano
com fantasias literárias que remetem o leitor a diversos questionamentos subjetivos.
Como se trata de um livro repleto de metáforas e de cenas que oscilam entre as
singelezas românticas, suspense e mistérios sem a necessidade de explicações, o
romance apresenta diversos tons narrativos e acaba agradando a diversos
públicos.
Um casal de adolescentes, ambos
com 17 anos – James e Amelia – entabulam um início de namoro e marcam um
primeiro encontro que sai do convencional. Os dois decidem fazer um passeio de barco em
um lago e, logo depois, adentram a um segundo lago. Tudo parecia tranquilo até
que eles descobrem uma passagem para um terceiro e misterioso lago, onde se
desenvolve a parte central da história.
É nesse terceiro lago que o casal
encontra uma casa submersa e decide explorá-la. No início, em um sistema de revezamento,
James e Amelia fazem algumas descobertas aparentemente sem muita relevância. Ao
mesmo tempo, de forma simbiótica, os dois jovens começam a explorar os próprios
corpos. É um livro sobre os mistérios das descobertas e sobre as possibilidades
que se apresentam diante do desconhecido e sobre até onde se pode avançar
quando estamos em um ambiente que pode apresentar surpresas.
Aos poucos, a Casa deixa de ser
apenas um ambiente para se transformar em um ponto de confluência entre os
desejos mais íntimos expressos pelo casal e a necessidade de explorar o
desconhecido. Os protagonistas não demonstram muito espanto diante das
descobertas e dos aparentes fenômenos sobrenaturais que permeiam cada descida
deles até a Casa, mas, ao mesmo tempo demonstram certo desconforto diante da
lembrança de interdições sociais e religiosas que lhes forma impostas. E isso é
bem representado na referência ao Éden à alusão à maçã com a consequente
expulsão do paraíso.
Nas entrelinhas do texto, o
leitor de depara como um novo e inocente casal que ousa desafiar as convenções
e explorar os indevassáveis mistérios. Não e à toa que esse arquétipo de Adão e
Eva acaba também passando por uma nova e metafórica expulsão do Paraíso. O Jogo
de claro e escuro revela muito mais do que um mero defeito na lanterna ou a
vontade de a Casa ficar imersa nas trevas ou cheia de luzes. Revela a constante
oscilação do ser humano entre o que considera certo ou errado, possível ou
impossível, permitido ou não.
James e Amelia se sentem vigiados
o tempo todo por indecifráveis olhos e por sons que se assemelham a sussurros e
gargalhadas. Ficam entre o conforto da suavidade das águas e o calor que emana
da sauna. Ou seja, ficam divididos entre o prazer das descobertas e as culpas
advindas dessas mesmas descobertas. Entre o Paraíso e o hipotético Inferno a
que poderiam ser condenados, caso fossem além dos limites estabelecidos por
algo ou alguém que jamais aparecerá fisicamente, mas que está vivo em seus
questionamentos
Na impossibilidade de retornar ao
Paraíso, o casal percebe que a convivência se tornou algo difícil, pois os dois
estão para sempre marcados por um passado que não pode ser compartilhado com as
demais pessoas. O sentimento de culpa parece acompanhar cada um deles. Porém, a
percepção do momento de separação e de retorno para o próprio EU é diferente
para ele e para ela, o que reforça o tom de mistério da narrativa. O desejo
derreteu como uma figura de cera diante de uma fonte de calor ou não passou de
um momento?
Não é à toa que desde o título do
livro – Uma casa no fundo de um lago – tudo se torna indefinido. Não se trata DA
casa específica nem DO lago em si, mas sim de UMA casa e de UM lago situados
distante de olhos alheios e protegidos pelas profundezas das indefinições e das
dúvidas que farão parte da história de cada um deles. Ao final, ela nutre o
desejo de separação, mas busca reencontrar a Casa onde foi feliz. Ele, por
outro lado, deseja continuar a relação amorosa, mas não consegue ver o que ela
enxerga.
De qualquer forma, o livro remete
ao fôlego e aos equipamentos humanos necessários para que alguém possa
mergulhar nas misteriosas profundezas de uma relação.
Mas é importante notar que o livro traz margens para diversas interpretações.