Novos artigos de Segunda #85
DUAS NOTINHAS
José Neres
Acometido por uma insistente gripe, sobrevivi parte da semana à base de remédios, de constante hidratação e de alguns alimentos nem sempre bem palatáveis.
Mas não parei de ministrar minhas aulinhas e de pensar como está nossa cidade, nosso Estado, nosso Brasil e nosso tão maltratado mundo. Entre uma obstrução nasal e outra, entre tosses e espirros, aproveitei o finalzinho de domingo para escrever essas notinhas.
1 BRIGAS DE FACÇÕES
Um dos grandes problemas de nosso País é que a maioria das pessoas deixou de lado o raciocínio lógico e começou a fazer parte de facções ideológicas.
Como ninguém quer se dar por vencido, cada uma dessas facções escolhe seus ídolos, coloca-os em um pedestal e passa a adorá-los cegamente.
Outro passo importante é escolher os desafetos. As verdades não interessam e são varridas para baixo de um tapete multicolorido e fétido.
Diante dos fatos, esses guerreiros da falta de senso investem seus parcos recursos em três instrumentos metafóricos e muito eficientes: uma lupa, uma borracha e um lápis.
A lupa serve para esquadrinhar cada mínimo detalhe da trajetória dos inimigos. Tudo é conveniente e desajeitadamente investigado: “Mas um dia, vinte anos atrás, ele pisou o pé de uma namorada… sem dúvida que foi de propósito”, “tenho certeza de que ele está envolvido no sumiço daquele lote de papel higiênico”... Etc etc etc
A borracha, por sua vez, serve para apagar os rastros das falcatruas presentes e passadas dos ídolos com pés de lama. “Nunca que ele é corrupto! Tudo não passa de uma armação muito mal feita desses canalhas!”, “Coitadinho, sempre perseguido pelos inimigos… Tão inocente!!!".
Como o interesse nunca é buscar a verdade, mas sim comprovar que a culpa habita o outro lado do muro, o lápis torna-se essencial para reescrever a história de vida dos ídolos de acordo com os momentâneos interesses.
E, nessa briga de perigosíssimas facções, a verdade é esfaqueada; a lógica é sepultada; a mentira ganha coroa de rainha e todos nós perdemos…
Mas, como não sou obrigado a fazer parte dessas facções, prefiro ver a banda passar e ficar vendo os corpos esfacelados da idiotice humana.
2 NOSSAS LETRAS
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| Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial |
Gosto muito da literatura maranhense, mas confesso que a cada dia se torna mais difícil tentar divulgar nossos autores e nossas obras.
A tarefa se torna ainda mais complexa quando se percebe que não existe interesse político em disseminar as obras criadas por aqui. E isso não ocorre apenas com as letras, como pode ser comprovado pelo desastroso Edital que conclamava pessoas das diversas esferas culturais a se auto escravizarem em troca de aplausos que nem se sabe se viriam. Deveriam fazer a mesma proposta para artistas que recebem cachês altíssimos, além de mimos e presença das autoridades, para cantarem no Carnaval, no São João e no aniversário da Cidade. Mas, em casos assim, o pagamento é feito de forma adiantada e a divulgação é veiculada em rede nacional.
Voltando à literatura, parece que temos mais autores que leitores. As centenas de livros publicados todos os anos tendem a caírem no esquecimento e até mesmo a família dos autores parece ignorar o sacrifício de quem investiu tempo e dinheiro na esperança de pelo menos ser lido…
Nas Feiras do Livro e demais eventos literários, os espaços principais são destinados a autores convidados, aqueles com uma editora forte na retaguarda e com possibilidade de formação uma fila para autógrafos.
E os escritores e escritoras locais? Bem… ficam a um canto esperando pelo menos um sorriso ou que um ou dois exemplares de seus livros sejam vendidos.
Mas sempre resta a promessa de que no próximo ano será diferente…
No ano seguinte, alguns autores locais estarão ali de novo implorando por um pouco de atenção. A imprensa entrevistará (quando muito) apenas os escritores de renome, as autoridades engravatadas ou que estejam calçadas com um belo Dolce & Gabanna. Os demais são invisíveis e continuarão invisibilizados. São autores e personagens do próprio infortúnio.
Parece que nossos autores, por mais talentosos que sejam, não têm público na própria casa e são tratados como intrusos em um cenário para onde são convidados apenas para aplaudirem.
Parece que o plano deu certo!
Infelizmente!...