domingo, 10 de maio de 2026

MARIANA LUZ

 Novos artigos de segunda #82




DOR E SOFRIMENTO NA POESIA DE MARIANA LUZ:

 UMA BREVE LEITURA DE “MURMÚRIOS”

José Neres

 

            Considerada uma das filhas mais ilustre da cidade de Itapecuru-Mirim, Mariana Luz é uma daquelas celebridades que mereciam melhor acolhida tanto por parte dos leitores, dos estudiosos da literatura como também dos editores. Sua produção literária, embora não seja vasta do ponto de vista quantitativo, apresenta enorme relevância poética e pode ser considerada uma das mais significativas das letras maranhenses da metade do século XX.

            Depois de um inexplicável período de olvido, sendo apenas ocasionalmente citada em discursos e artigo esparsos, a autora de Murmúrios foi resgatada pela pesquisadora Jucey Santana em um importante livro que reúne não apenas a produção da poetisa maranhense, mas também boa parte da fortuna crítica a respeito dessa escritora, recuperando também depoimentos sobre sua atuação como educadora e outros detalhes até então pouco explorados. Em seu discurso de posse, em 1998, Sálvio Dino, atual ocupante da cadeira 32, que foi fundada por Mariana Luz, pouco se alongou sobre a escritora, mas não deixou de lembrar a importância daquela intelectual que “nasceu e passou toda a sua vida na cidade de Itapecuru, sempre integrada como professora normalista à causa do ensino da juventude. Poetisa, escritora, teatróloga, teve intensa colaboração na imprensa gonçalvina [e] que também deu valiosa contribuição na luta que a mulher sempre enfrentou para conquistar o seu justo lugar ao sol” (Dino, 2010, p. 198).

            Mesmo constantemente esquecida quando se trata de elencar os grandes poetas da literatura Maranhense, como ocorreu, por exemplo, quando o crítico e historiador literário Assis Brasil destacou os nomes mais representativos da poesia maranhense do século XX, em alguns momentos, o talento de Mariana Luz foi ressaltado, lembrado e elogiado por outros pesquisadores.

            Clóvis Ramos, ao estudar a poesia de expressão feminina no Maranhão, identifica no estro da autora de Murmúrios “uma poesia triste, amargurada” (RAMOS, 1993, p. 22) filiada à estética simbolista. A acadêmica Laura Amélia Damous destaca, além da atuação docente de Mariana Luz em sua cidade natal, considerada uma “legenda querida e luminosa para todos os itapecuruenses” (Dino, 2008, p 63), o fato de ela haver sido a segunda mulher a ocupar (e também a fundar) uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, instituição para a qual foi eleita e tomou posse em 1949.

            Em 1945, o crítico Crysósthomo de Souza comentou ser a autora de Tronco Velho “uma poetisa de apreciável estro (sendo que) suas produções revestem-se de encantador lirismo, de uma suave musicalidade, em movimentos de cores e luz” (apud Santana, 2014, p. 128). Consideração semelhante teceu o escritor Nascimento Morais, que considerou Mariana Luz, como “uma das mais brilhantes poetisas maranhenses” (apud Santana, 2014, p. 131). Lembrando os problemas financeiros enfrentados pela escritora e sua saúde frágil, Felix Aires, sucessor de Mariana Luz na AML, em seu discurso de posse recordou que a escritora era também conhecida como “a poetisa das rosas; artista e pensadora, a irmã das flores, como não poderia deixar de ser, pelo trato, pelo bom gosto e afinidade, tinha predileção pelas mais variadas espécies de rosas (apud Santana, 2014, p. 122).

            Mesmo dotada de grande talento e sendo reconhecida ainda em vida por seus versos e por sua atuação no âmbito da educação, Mariana Luz não teve uma vida fácil e enfrentou ao longo de toda a sua existência física provações ocasionadas pelos parcos recursos financeiros que inviabilizaram, entre outras realizações, a publicação de seus textos esparsos em forma de livro. essas dificuldades financeiras são lembradas em muitos momentos por Jucey Santana em seu alentado estudo sobre a vida e a obra de Mariana Luz. Segundo Santana (2014, p. 101), “na velhice, a poetisa enfrentou muitas dificuldades pessoais e financeiras, em virtude da falta de vigor físico, problemas de locomoção e visão deficiente, o que a incapacitava para o labor diário”.

            Além disso a escritora ainda passou pelo dissabor de ter seu nome ridicularizado por detratores como o jornalista Raimundo Cardoso, que passou a atacá-la pelos jornais, deixando de lado os dotes artísticos da poetisa e destacando tanto suas origens humildes como sua raça e aspectos físicos. Mas, mesmo com esses contratempos, a poesia de Mariana Luz sobreviveu e seu livro Murmúrios, mesmo com tiragem reduzida e edições com pouco apuro gráfico, tornou-se uma referência quando se fala em boa poesia.

            A edição utilizada para este estudo é a de 1990, publicada pelo Serviços de Imprensa e Obras Gráficas do Estado do Maranhão – SIOGE, e que conta com apenas duas dúzias de poemas distribuídos em 35 páginas. Embora no livro haja uma indicação de que a obra é composta por sonetos, é importante lembrar que nem todos os poemas ali enfeixados podem receber tal classificação. Uma edição com mais poemas pode ser encontrada no anteriormente citado estudo elaborado por Jucey Santana, que traz diversos outros textos de Mariana Luz, inclusive crônicas e outros gêneros literários.

            Apesar da diversificação temáticas dos poemas de Murmúrios, dois temas se destacam: a Dor e o Sofrimento, que em muitos momentos formam elementos complementares um do outro. Esses aspectos da produção poética de Mariana Luz já foram detectados por outros pesquisadores como Santana (2014), para quem “sofrimento, solidão e tristeza são temas muito explorado pela autora”, e Ramos (1993), que lembra serem “raras as poesias de Mariana Luz onde o sorriso desabrocha”. Dominando a forma e o uso das rimas, nos versos dessa escritora existe uma espécie de “busca da arte pura”. conforme afirmou o professor José de Jesus Moraes Rego (1990).

            Lexemas como dor/ dolorida/ dolorosa e outras que gravitam em torno do campo semântico de tristeza e angústia são recorrentes ao longo de todo o livro. de certa forma, a escritora acaba deixando claro para seus leitores que o ato de viver perpassa pela experiência dos momentos difíceis. Em um dos primeiros poemas do livro, o eu lírico chega a advertir para o fato de que quem viveu sempre cercado de bons momentos “sem nunca pisar a via dolorosa”:

Não viveu, vegetou, pois só em sonhos

É que se gozam dias tão risonhos,

Sem sentir uma dor, um mal pungente. (Luz, 1990, p. 15)

            Mesmo sendo possível verificar ao longo dos poemas um diálogo intertextual com Arthur Schopenhauer, ao insinuar em seus versos que, assim como defendia o filósofo alemão, “embora toda a infelicidade individual apareça com exceção, a infelicidade em geral constitui a regra” (Schopenhauer, 1997, p. 227), a escritora itapecuruense negava ser pessimista e chegou mesmo a retrucar ao poeta Leslie Tavares, que possivelmente deve ter comentando sobre a ênfase dada por Mariana Luz à tristeza em seus poemas. Ela responde com veemência que:

Julgaste descobrir na minha pobre rima

Um sofrimento atroz que me alanceia a alma, (...)

Mas eu não sofro, crê, e do martírio a palma

Não me cabe, pois sinto a chama que reanima... (Luz, 1990, p. 28).

            Dessa forma, ela recusa a pecha de ser alguém voltado para temas sombrios e negativos. Diante da insistência que Leslie Tavares tem em demonstrar que a obra de Mariana Luz seja pessimista e que isso possa ser um reflexo do eu da escritora, ela volta a negar dizendo:

Como me julgas mal? Eu vejo encantos

Em tudo o que me cerca, e os agros prantos

Não me turbam da vida a calma infinda. (Luz, 1990, p. 29)

Claro que, como afirmou, Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”, ou seja, nem sempre registra no papel o que verdadeiramente está sentindo, podendo seus versos irem em sentido diametralmente oposto a seus sentimentos mais imediatos. Então utilizando-se como parâmetro apenas os poemas, sem a intensão de analisar psicologicamente a autora, é possível notar que seus temas preferidos estão centrados em uma carga de pessimismo diante da vida. Mesmo em um poema intitulado Risos (p. 25), a tonalidade dos versos descamba para um ar de tristeza e desesperança.

De certa forma, assim como Camões questionou o chamado desconcerto do Mundo, Manuel Bandeira passou uma “vida inteira que podia ter sido e que não foi”, e Carlos Drummond de Andrade destacou seu modo gauche de ver o mundo, a escritora maranhense também demonstrou seu descontentamento com o aparente desequilíbrio entre o que ocorre de bom e de ruim para as pessoas. Em dois poemas que trazem imagens bem próximas, ela lamenta que “Se para uns a vida é eterno gozo / Porque a outros ferir tão duramente?” (LUZ, 1990, p. 12). Em outro poema, usando termos bem próximos, ela “dialoga” com Raimundo Correia ao demonstrar que existe um sutil jogo de essência e de aparências, máscaras que escondem um Mal Secreto que atormenta muitas pessoas, pois:

E o mundo passa alegre e rumoroso,

E para uns a vida é eterno gozo,

Eterno paraíso.

Sem ver que há dores, sofrimentos fundos,

Nascidos nos mistérios mais profundos

... ocultos num sorriso. (Luz, 1990, p. 16)

Essas dores e esses sofrimentos diversas vezes retratados nos versos de ML às vezes encontram eco na figura da Morte, que constantemente é citada em seus poemas, seja pela presença de cadáveres, como ocorre nas páginas 19 e 21, seja pela certeza do não aproveitar a vida e sentir-se desesperançado (páginas 11, 12, 13 e 17, entre outras).

A presença da dor é intensificada pela certeza da efemeridade da vida, da chegada da velhice ou do desperdício dos momentos de existência. Novamente retomando o diálogo intertextual com Manuel Bandeira, a escritora itapecuruense lamenta o fato de que:

É inútil tentar. Ao longe, esguio

Vejo um cipreste lúgubre, sombrio.

Morrer! E vou morrer sem ter vivido. (Luz, 1990, p. 11)

Lendo os poemas dessa escritora tão lúcida, mas hoje também tão esquecida, é possível perceber que a Dor e o Sofrimento se completam em seus versos. Em sua poesia, embora ela mesma tenha negado, ecoam os gritos da angústia humana e da certeza da efemeridade da vida. Mas também ao ler os versos dessa escritora, fica evidente que ainda há um fértil campo de pesquisa tanto sobre sua vida quanto sobre sua obra e que seus textos clamam não apenas por reconhecimento, mas também por estudos que possam extrair deles o máximo possível de informações e de possibilidades interpretativas.

Dor e o Sofrimento são apenas dois dos temas possíveis de serem vistos na obra de Mariana Luz. Há muitos outros à espera de estudos mais aprofundados em artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses. Mariana Luz e sua obra oferecem aos estudiosos das letras um vasto campo a ser cultivado.

 

 

REFERÊNCIAS

DAMOUS, Laura Amélia. As Mulheres da Academia. In: AML, Livro do Centenário – 1908-2008. São Luís, AML, 2008. p 62-65.

DINO , Sálvio. Discurso de Posse. In: AML, Revista da Academia Maranhense de Letras, Vol. 22. São Luís: AML, 2010. p. 173-195,

LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.

RAMOS, Clóvis. As aves que aqui gorjeiam: vozes femininas na poesia maranhense. São Luís: SIOGE, 1993.

REGO, José de Jesus Moraes. A arte poética e a nova crítica. In: LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.

 SANTANA, Jucey. Marianna Luz: Vida e Obra e Coisas de Itapecuru-Mirim. Itapecuru-Mirim. Edição da Autora, 2014.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e Paralipomena, São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Coleção Os Pensadores)


OBSERVAÇÃO: Este artigo foi publicado inicialmente no livro Púcaro Literário II, organizado por Jucey Santana e José Carlos Pimentel Cantanhede, em 2018.

COLHEITA


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COLHEITA

José Neres 


E chego àquele tempo tão sagrado
Em que tudo parece bem profano 
Quando o terreno que jamais foi arado
Nos compensa com fruto desumano.

A colheita é feita com grande enfado
Como se já fosse parte de um plano,
A imitar o ritmo de triste fado
Adaptado à bela voz de soprano.

Mas tudo na vida tem mais de um lado
E tudo acaba num cair de pano,
Quando até o deserto se torna um prado.

Mesmo não querendo, sofrer é humano.
Ninguém vive só em eterno agrado.
Que ninguém viva neste eterno engano!

(São Luís, 10.05.2026)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

CAMINHOS

 

CAMINHOS
José Neres 


Jamais visto os trajes da derrota
A vitória vem de poder lutar.
Muitas vezes eu mudo minha rota
Para até mudo alto poder gritar.

Tantas vezes as dores vêm em frota
Prevendo em vão que vão me derrubar
Mas da rua arrebento a velha porta
E bem louco me ponho a caminhar.

Cada passo meu é uma revolta
De um ser a quem teimam querem calar,
Mas ando com mil anjos como escolta.

Sempre é muito difícil derrotar
Alguém que de sua fé não se solta
E quem cria caminho ao caminhar.

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domingo, 3 de maio de 2026

RIDÍCULO, MAS...

 Novos artigos de segunda #81


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É RIDÍCULO, MAS…

(José Neres)


1

Em muitas salas de aula, o professor precisa negociar com os alunos os minutos de aula que serão ministrados, caso contrário, nem mesmo a chamada ele (ela) conseguirá fazer.

“Vamos fazer o seguinte, eu falo uns quinze minutos. Depois vocês fazem a tarefa, me entregam e então estão liberados. Só não pode. É fazer muito barulho, para a supervisão não aparecer por aqui, certo?”


2

A docência é uma área desvalorizada em 360⁰. Alunos, pais, gestores públicos, políticos e até mesmo os próprios colegas de profissão contribuem cotidianamente para essa desvalorização. E não se trata apenas dos salários, que quase sempre estão bem abaixo daqueles que são pagos para outros profissionais com estudos de nível superior, mas também de uma desvalorização do trabalho executado e uma sobrecarga de atividades burocráticas pouco ou nada relacionadas com o processo educacional.


3

Atrelar um pagamento mensal à simples presença do aluno em sala de aula, sem a contrapartida de uma aprendizagem mínima, não foi uma boa ideia. 

Hoje, os professores se deparam com uma sala de aula lotada de corpos sem alma, que vislumbram apenas a quantia que deverá cair na conta no próximo mês. Estudar e aprender não fazem parte das prioridades. 

Claro que existem alunos que precisam dessa quantia e que até mereceriam bem mais, contudo, a falta de critérios ligados à produtividade acaba prejudicando boa parte do processo.


4

Alguém (com uma inteligência suprema e que provavelmente nunca ministrou uma aula) decidiu que as metas de aprovação são mais importantes que as metas de aprendizagem. Dessa forma, a certeza de que será aprovado mesmo sem ter adquirido os conhecimentos básicos oferece a segurança necessária para que um estudante se torne apenas um frequentador de sala de aula (e quando quiser!). Direitos sem deveres podem se tornar um salvo conduto para a apatia de quem já não acreditava no poder transformador da Educação.


5

Não tenho visto projetos educacionais e políticas públicas que realmente visem à melhoria do processo de aprendizagem e ensino. Tudo é tão superficial, sem base científica e sem continuidade que assusta. 

Vivemos em paradoxo: quem tem ideia e pode fazer a diferença não tem poder. Quem está bom poder não demonstra habilidade, vontade e competência para mudar a rota antes que o fundo do poço se aproxime de modo definitivo.



sexta-feira, 1 de maio de 2026

APENAS MAIS UM DIA

 PRIMEIRO DE MAIO

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APENAS MAIS UM DIA 

José Neres 


O dia não foi dos melhores.

Bem cedo, ao acordar, sentiu uma terrível câimbra que quase não o deixava levantar-se da velha, mas bem asseada cama.

Ainda no vaso sanitário, percebeu que o papel higiênico havia acabado e, pior ainda, por falta de pagamento, o fornecimento de água havia sido cortado.

Tomou um café fraquíssimo, sem açúcar, com um pedaço de pão seco. Na volta traria dinheiro para um café decente.

Como não tinha dinheiro para a passagem de ônibus, encarou oito quilômetros e meio a pé, para fazer um “bico” para o qual havia sido indicado e que lhe renderia uns trocados para pelo menos sobreviver até a próxima semana. 

Foi um dia exaustivo de trabalho, com direito apenas a uns copos d’água e a poeira na cara.

Terminada a tarefa, a dona da casa veio, com um sorriso cínico, avisar que só poderia fazer o pagamento no dia seguinte. Engoliu seco e começou a imaginar o longo caminho de volta, a pé. E com mais fome ainda na bagagem.

Cerca de duas esquinas antes de sua casa, sentiu que a bolotinha que segurava as tiras da chinela acabava de soltar. Foi salvo por um prego que avistou metros à frente e por uma pedra de médio porte que serviu como um martelo improvisado. 

Àquela hora, a mulher já deveria ter saído para o trabalho noturno em uma loja de conveniência, onde ganhava quase nada, mas, pelo menos, graças à bondade da patroa, recebia um lanche perto da meia-noite. Geralmente, comia a metade e levava o restante para o filho.

O menino também já devia ter chegado em casa. No colégio dele quase nunca tinha aula, mas pelo era servida de segunda a sexta uma merenda, quase sempre um suco ralo com alguns biscoitos. 

A sensação de vertigem era grande. Mas já estava a alguns passos de casa. De repente, lembrou-se de um ovo que restara do dia anterior. Aquele ovo e um pouco de farinha eram os únicos alimentos que provavelmente existiam naquele casebre miserável.

Finalmente chegou. Apenas o filho estava em casa. Oito anos. Brevemente já estaria ajudando no sustento do lar. Talvez vendendo coisas na rua, ou ajudando o pai no trabalho pesado. Era importante trazer um pouco de dinheiro para casa.

Mal chegou, e o filho foi logo avisando que não teve lanche naquele dia. Havia faltado água na escola e todo mundo foi mandado para casa mais cedo. Estava com fome. Com muita fome. 

Percebeu que o sonho do ovo com farinha ia ficando mais distante. O menino era prioridade.

Sorte que ainda tinha gás. Pegou a frigideira, colocou nela um restinho de óleo, ligou o fogo e começou a preparar o ovo. Acrescentou a pouca farinha que tinha, colocou um pouquinho de sal, colocou tudo em um prato raso e levou a comida para o filho. 

A fome e o cansaço eram imensos. Acabou cochilando sentado na cadeira da cozinha. Despertou com um barulho estranho. Era o filho jogando a farofa no saco de lixo. 

- Comida ruim da peste!

Foram o cansaço, um restinho de dignidade e a memória que impediram que ele se jogasse de corpo, alma e fome naquele saco de lixo. Lembrou-se que era ali onde provavelmente a esposa havia jogado as folhas de caderno que substituíam o papel higiênico naqueles momentos de crise.

Mesmo sem poder banhar-se, com o corpo suado e dolorido, jogou-se na cama. 

Amanhã... quem sabe?


terça-feira, 28 de abril de 2026

VIDA DE GADO

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



VIDA DE GADO
José Neres 

Os números perseguem nossos passos
Desde o nascimento até nossa morte 
Marcam as nossas medidas no espaço 
E nossos jogos em busca da sorte.

Ao nascermos, somos bem mais que um traço 
Somos animais de pequeno porte 
Que alimentados a leite e melaço 
Seguirão para uma linha de corte

Depois põem números em nosso braço 
Separam o mais fraco do mais forte
E mostram que nosso destino é o laço 

E caso este mundo não nos comporte 
Os nossos ossos virarão bagaço 
Adubando o mundo de Sul a Norte.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

UBIRATAN TEIXEIRA

 Novos artigos de segunda #80

Fonte da imagem: arquivo pessoal do autor
Clique de Linda Barros


UBIRATAN TEIXEIRA E EU

(José Neres)


Cheguei de volta ao meu Maranhão no final de 1986. Trazia na minha bagagem muito pouco da minha própria terra. Conhecia o nome de José Sarney, que era na época o presidente do Brasil conhecia também o mínimo da obra de Gonçalves Dias e Ferreira Gullar, autores e apareciam nas páginas dos livros didáticos adotado isso na minha antiga escola. Trazia na memória afetiva também a voz de Alcione, Ely Carlos, Cláudio Fontana e Nicéas Dumont, cantores que faziam sucesso em todo o Brasil. E nada mais! 

Fui estudar na antiga Escola Técnica Federal do Maranhão - que depois virou CEFET e atualmente é o IFMA. Quis o destino que minha sala de aula ficasse a alguns passos da biblioteca daquela instituição de ensino. Então eu, ávido por conhecer um pouco mais de minha própria terra, passava os raros tempos livres entre as estantes daquele pequeno paraíso. A princípio, debrucei-me sobre os aspectos históricos, folclóricos e geográficos do Estado. Mas, uma bela manhã, encontrei um livro que me chamou atenção tratava-se da novela O Banquete, escrita por Ubiratan Teixeira.

Até aquele momento, eu não fazia a menor ideia de quem era Ubiratan Teixeira. Mesmo assim, levado pela curiosidade, resolvi pegar aquele pequeno livro e ler o seu conteúdo. Gostei. Procurei outros livros daquele mesmo autor, mas não os encontrei na biblioteca. Mas naquele momento nascia meu interesse pela literatura produzida por autores maranhenses. Depois, li João Mohana, Dagmar Destêrro, Bandeira Tribuzi, Nonnato Masson e muitos outros naquela mesma biblioteca.

Com o tempo, adquiri também o hábito de ler os jornais. Principalmente, o Estado do Maranhão, que tinha uma coluna muito interessante cujo título geral era "Hoje é dia de...". Foi um momento em que entraram em minha vida escritores como José Chagas, Jomar Moraes, Ivan Sarney e Oliveira Ramos, entre outros. E foi nas páginas daquele jornal que reencontrei o nome de Ubiratan Teixeira. Seu estilo era escorreito e coloquial ao mesmo tempo, carregado de ironias e com um evidente desejo de divulgar e defender a cultura maranhense. Não tenho a menor ideia de quantas crônicas dele eu li. Mas me lembro de que a cada semana eu aprendia bastante com as palavras daquele cronista.

Um dia naquele mesmo jornal encontrei uma reportagem sobre as bibliotecas particulares dos escritores maranhenses. Mesmo já acostumado com a pequena foto dele que aparecia na coluna, foi nessa reportagem que pela primeira vez encontrei mais informações sobre aquele escritor. Estava ele ali, diante de uma máquina de escrever, de camiseta, tendo ao fundo uma grande quantidade de livros. Até hoje guardo essa reportagem. Foi ela que despertou também em mim o desejo de viver cercado de livros. 

Em 1998, comecei a publicar textos na página de Opinião do jornal O Estado do Maranhão. Enviei um texto sobre Ferreira Gullar, ainda pelos Correios, na certeza de que aquelas vinte linhas jamais seriam publicadas. Mas foram. A partir daquele momento, comecei uma série de colaborações que foram até o encerramento das atividades do jornal. Parece-me que o Ubiratan Teixeira lia alguns dos meus textos, pois umas duas ou três vezes ele citou meu nome entre os autores novatos que despontavam no cenário cultural maranhense. Para mim, ter meu nome em uma crônica de Ubiratan Teixeira era quase como ganhar na loteria. 

Quando o doutor Jorge Murad criou o Festival Geia de Literatura, em São José de Ribamar eu fui convidado a ministrar uma palestra em uma escola. Foi quando eu conheci pessoalmente o escritor Ubiratan Teixeira. Foi um cumprimento rápido e algumas palavras amistosas. A partir daí, vez ou outra eu o encontrava em algum evento literário ou lançamento de livro. Muito cordato, ele me cumprimentava e trocava mas algumas palavras sobre literatura e teatro.

Em 2005, conquistei o prêmio Odylo Costa, filho, com o livro de contos Restos de vidas perdidas. Pouco depois, pela imprensa, fiquei sabendo que Ubiratan Teixeira havia sido um dos jurados do concurso, que muito me honrou, pois conhecia o senso crítico daquele leitor extremamente exigente. No ano seguinte, quando o livro foi lançado, autografei, um exemplar para ele, que nos honrou com sua presença. Lembro-me de que, depois de um sorriso amistoso, ele me disse: "Já li o trabalho e gostei bastante. Obrigado pelo livro". Pronto, com aquelas palavras meu livro ganhava mais um prêmio.

Anos depois, quando a AML, concedeu a medalha João Francisco Lisboa, meu nome estava elencado entre os contemplados. Foi naquela festiva à noite que tirei a foto que ilustra este artigo. Eu e Ubiratan conversamos sobre literatura durante vários minutos. Ele me deu uma verdadeira aula sobre teatro brasileiro e maranhense, sobre a cultura de nosso estado e sobre o abandono que em vivíamos. "Gosto muito de seu trabalho. Continue produzindo", disse ele antes de subir para o local reservado para os acadêmicos, pois o evento ia começar. 

Em 2012 novamente encontrei nosso cronista na cidade de São José de Ribamar. Ele havia acabado de ministrar uma palestra e eu seria o próximo palestrante. Mas havia um intervalo entre os dois momentos. Foi quando nos sentamos próximo à Igreja e conversamos novamente. Naquela manhã, ele estava especialmente falante e me disse: "Quando você for se candidatar à Academia não esquece de me comunicar." Deu uma risada encantadora e saiu. 

O destino prega suas peças. Na metade do mês de junho, 2014 em um final de semana no qual me isolei de todo o contato com as notícias, para concluir um trabalho, não fiquei sabendo de que aquele generoso cronista havia falecido. Segunda-feira bem cedo, ao assistir ao jornal, fui informado daquela triste notícia. Na época eu estava professor substituto da Universidade Federal do Maranhão e teria aula às 10:00. Arrumei-me mais cedo e decidir passar na academia para despedir-me daquele notável escritor.

Meses depois, quando foi aberta a vacância da cadeira número 36, instado por alguns amigos decidi candidatar-me àquela vaga. Fui eleito e no discurso de posse fiz um estudo sobre a vida e a obra de Ubiratan Teixeira, aqui agradeço pelas boas conversas, pelos excelentes textos e por toda a sua contribuição para a cultura maranhense.

Ubiratan é uma daquelas boas recordações que me acompanham na jornada de constante luta com as palavras



domingo, 26 de abril de 2026

AGRADECIMENTO

 

AGRADECIMENTOS 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 🪳 


Hoje agradeço ao escritor, professor, filósofo e amigo Rogério Rocha pela carinhosa homenagem prestada a mim e a meu amigo e parceiro em tantas pesquisas, o professor doutor Dino Cavalcante.

Sempre digo que, é necessário agradecer a alguém que se dispõe a gastar parte de seu precioso tempo para nos homenagear. 

Além das imagens tão bem elaboradas, Rogério Rocha também nos brincou com o delicado texto que reproduzo abaixo.

Hoje quero registrar minha homenagem a dois grandes seres humanos: José Neres e Dino Cavalcante. Professores, pesquisadores e divulgadores incansáveis da literatura maranhense, eles representam o compromisso com a educação, a memória e a formação de leitores. Esses dois grandíssimos amigos continuam revelando autores, defendendo nossa cultura e mostrando que a literatura do Maranhão continua viva. Esta edição da nossa Filosofia Barata faz esse gesto de carinho, respeito e reconhecimento a esses dois batalhadores da educação e da cultura literária em nosso estado. Que suas trajetórias sigam inspirando todos nós que acreditamos no poder transformador dos livros.

Meus agradecimentos ao amigo RR. Sua generosidade merce um MUITO OBRIGADO do tamanho de uma mapa do Brasil em escala 1x1.

🖋️ 🪳 

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

DEVER DE CASA

CONTO: DEVER DE CASA

(José Neres)

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


- Vô, qual é a capital da Bahia?

- Salvador, garoto.

- Muito obrigado.

- Agora tem esse dever aqui de matemática que não consegui resolver sozinho. Pode me ajudar?

- Claro. O que está pedindo na questão?

- Vou ler para o senhor: Se uma pessoa nasceu em 1960, quantos anos ela completou em 2022? Achei difícil.

- Você já estudou subtração na escola?

- Sim, mas achei muito difícil.

- Não é tão difícil assim. Qual é o número maior?

- 2022.

- Muito bem. E qual o número menor?

- Humm. 1960.

- Isso. Então, basta você subtrair o número menor do número maior. Veja bem. 2022 menos 1960. Já sabe armar a conta?

- Sim, vovô. Já sei. Veja se é bem assim?

- Muito bem. Agora faça a continha [silêncio] Qual a resposta?

- Aqui. Sessenta e dois anos. Certo?

- Certíssimo. Parabéns! Só isso?

- Sim, vovô querido. O senhor já vai? Quando o senhor volta?

- Já vou, rapazinho. Preciso ir. Volto quando você precisar de mim e me chamar. Mas não conte para sua mãe que eu ajudei você na lição de casa. Ela não gosta. Da última vez, ficou zangada.

- Tá bom. Tchau, vovô! Amo o senhor.

- Tchau.

***

Que bom que tenho o vovô para me ajudar com o dever de casa. Ele sabe tudo. É um gênio. A professora disse que eu melhorei bastante neste ano com as aulas dele. Pena que mamãe não gosta quando ele vem me ajudar. Quando eu falei para ela, ela até ficou zangada comigo. Disse que eu era mentiroso. Fiquei triste. Mas acho que estava muito cansada. Melhor mesmo não contar para mamãe. Ela tem trabalhado tanto que até mesmo pensa e acredita que vovô morreu bem antes de eu nascer. 


segunda-feira, 20 de abril de 2026

O COTIDIANO DESENREDO

 Novos artigos de segunda #79

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


NOSSO COTIDIANO DESENREDO POLÍTICO

José Neres 


No início deste ano, eu e os alunos do terceiro ano do Ensino Médio fizemos uma leitura conjunta do conto “Desenredo”, de João Guimarães Rosa.

No primeiro momento, eles leram o texto silenciosamente e anotaram os trechos nos quais tiveram alguma dificuldade. A seguir, após uma breve conversa sobre o autor e seu estilo, passamos para uma leitura em voz alta, parágrafo a parágrafo, identificando as personagens e compreendendo a trama da narrativa.

Praticamente todos os alunos consideraram que o texto era complexo e que a história não tinha sentido lógico, afinal, a história de Jó Joaquim e sua amada com triplo ou quádruplo nome dificilmente teria reflexo no mundo real.

Houve quem defendesse o chamado crime em defesa da honra, mas também houve quem aplaudisse o silencioso e resignado sofrimento amoroso do protagonista. No geral, o texto foi visto como complexo, mas bem escrito e inovador.

Contudo, a ideia da negação das evidências e da reconstrução de uma nova e higienizada biografia para quem havia enganado seus parceiros de modo deliberado causou certo desconforto no alunado. Alguém chegou a argumentar: “Isso não faz sentido. Ninguém seria capaz de esquecer tantas mentiras e traições e ainda defender quem traiu e mentiu!”

Mas…

Não é isso o que ocorre cotidianamente em nosso campo político? Biografias não são retocadas? Mentiras não são apagadas? Traições não são esquecidas? Pessoas não discutem e brigam para defenderem seus políticos preferidos? 

Mais do que uma fabulação amorosa, o conto “Desenredo” traz também uma oportunidade de reflexão sobre nossas paixões em todos os sentidos. De alguma forma, apagamos aquilo que não nos interessa e ressaltamos qualidades que às vezes somente nós somos capazes de ver em criaturas tão dissimuladas, cruéis e imperfeitas.

Um novo período eleitoral já está em pleno andamento e, mais do que nunca, as maquiagens biográficas estarão em evidência. Inúmeros Jós Joaquins desfilarão com o nome de seus candidatos no peito e jurarão que eles sempre foram honestos e fiéis ao povo e a suas propostas e promessas de campanha.

Mais…

Após a campanha, após as eleições e contagens oficiais dos votos, após a diplomação dos (re)eleitos, após a derrota dos adversários, tudo será lavrado em ata e uma nova verdade começará a vigorar. Não importa o que aconteceu antes, não importam as denúncias de corrupção, fraudes, desvios de verbas e tudo mais… Os eleitores apaixonados continuarão apaixonados e só conseguirão enxergar aquilo que lhes interessa. Cada grande erro de seus ídolos será visto apenas como um ligeiro deslize, algo sem importância e que deve ser relevado, mesmo que condenem violentamente uma ação semelhante ou até menos grave, mas que tenha sido executada por seus adversários políticos.

***

Não sei se os alunos compreenderam que os textos ficcionais podem ser lidos sob a perspectiva social e que a literatura possibilita diversas possibilidades de leitura e de interpretação.

Mas o importante é que eles entraram em contato com um texto de um dos mais talentosos escritores da língua portuguesa. Espero que eles tenham percebido que ler e estudar são duas das mais eficientes formas de rebeldia.

Tomara que alguém se torne um rebelde do bem e continue lendo e estudando.


sexta-feira, 17 de abril de 2026

TRÊS SONETOS DE HORROR

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



PORTÕES ABERTOS
José Neres

Em homenagem ao amigo Dino Cavalcante, amante de imagens góticas 

I

Próximo à igreja, dois portões abertos
Sorriam às pessoas que ali passavam.
De limo eles estavam tão cobertos…
Sozinhos? É o que muitos pensavam…

De dentro, vários gemidos incertos 
Uns horríveis sofrimentos lembravam 
E mil gritos de vazios desertos
Pelos silêncios da noite ecoavam.

Mal os fluxos do dia eram cobertos,
Os internos dali se levantavam.
Volviam à condição de despertos.

Dali, os olhos dos mortos espiavam
Os dois portões do cemitério abertos
Resguardando passos que nunca davam.

II

Certa noite, diante dos portões 
Passou Mara, filha de Juvenal,
Professor que dera muitas lições 
E que pereceu após passar mal.

Sofrimentos e tantas decepções 
Anteciparam seu triste final.
Mara só lhe trouxe desilusões 
Isso era conhecimento geral.

Estavam apagados os lampiões 
Era noite de escuridão total
Então rouca voz surgiu dos grotões:

“Mara, ingrata filha, então, afinal 
Tu deixaste teus fétidos porões 
Nesta tão bela noite sem igual?”

III

Dos pés até a cabeça estremeceu
O corpo daquela mocinha ingrata,
A voz do pai logo reconheceu
Logo surgiu uma luz cor de prata.

Frio fogo cada portão derreteu
Passou voando uma grande barata
Feio morcego em seu ombro desceu
Luz em seus olhos girou em cascata.

“E quede Mara?” “Desapareceu”
“Faz anos que dela ninguém mais trata”
“Não suportou quando seu pai morreu”.

Quando alguma notícia ali se cata,
Para se saber o que aconteceu,
Só se vê uma igreja no meio da mata.

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


quarta-feira, 15 de abril de 2026

O CORTEJO

 Soneto inspirado em diversas notícias que se repetem e que nem sempre são veiculadas em nossa imprensa com o devido cuidado.

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


CORTEJO

José Neres 

Parecia uma terra de ninguém 
Onde todos botavam qualquer mão 
Onde todos podiam ir além 
Onde jamais se agia como irmão.

Muita beleza e muita dor também 
Moravam no templo de sedução 
E, sempre em troca de algum vintém,
Todas as roupas paravam no chão.

Porém, um dia conheceu alguém 
Com quem dividiria a solidão…
Então desse outro ser vira refém.

Ao descobrir que Amor não é Prisão,
Deseja ser livre e não se contém…
Partiu - triste cortejo - em um caixão…



domingo, 12 de abril de 2026

NÚMEROS QUE TAMBÉM INCOMODAM

 Novos artigos de segunda #78

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


NÚMERO QUE TAMBÉM INCOMODAM

José Neres 


Semana passada, uma senhorita me procurou para parabenizar pelo artigo “Números que assustam”, publicado aqui mesmo no dia 18 de fevereiro. (Leia o artigo)

Ela disse ter ficado abismada com a onda de violência que assola as mulheres e com o fato de as esposas estarem em constante perigo dentro do próprio lar e que quase não conseguiu dormir ao tomar consciência de que quatro mulheres são assassinadas por dia, em média, por seus companheiros.

Ao final da conversa, a jovem suspirou profundamente e lamentou: "Como é difícil e perigoso ser mulher no Brasil e como deve ser confortável ser homem, pois eles estão livres do perigo e podem dormir tranquilos sabendo que não serão vitimados dentro da própria casa".

Olhei para ela e disse que não era bem assim. E os homens também são vítimas de suas companheiras e que, segundo dados do Atlas da Violência no Brasil, aproximadamente nove homens são mortos diariamente por suas companheiras, o que resulta em quase 3.300 (três mil e trezentos casos anuais), contra os 1.418 (mil quatrocentos e dezoito) feminicídio registrados em média nos últimos anos. Sendo que em ambos os casos devem ser levadas em conta as subnotificações.

Ela olhou para mim com olhar assustado, mas com um breve e mal disfarçado sorriso e disse: “Mas nesse caso eu super apoio. Se a esposa mata o marido é porque alguma coisa ele aprontou”. “Então está valendo”.

Disse para ela que aquele argumento era meio falacioso, pois acabava, de alguma forma, justificando as ocorrências de feminicídio. Já que também seria um absurdo justificar a morte de uma mulher alegando que “alguma coisa ela aprontou”.

O sorriso desapareceu, mas ela continuou afirmando que “era muito justo a esposa matar o marido. Mas é inadmissível um homem matar uma mulher”.

Ainda tentei argumentar que todo tipo de violência é condenável. Mas minha interlocutora apostou em uma cartada final: “Se são tantos casos assim, como não são divulgados? Não são os homens que dominam a imprensa e os institutos oficiais? Eles podem inventar os números que quiserem!"

Nesse ponto ela tem certa razão. É um trabalho árduo localizar as estatísticas relativas ao que seria hipoteticamente chamado de masculinicídio. No próprio Atlas da Violência no Brasil, os dados são bastante detalhados quando a vítima é a mulher, mas quase inexistentes e diluídos nos eixos da violência doméstica, sem ênfase quando o homem é a vítima.

De qualquer forma, concordamos quanto à ideia de que não existe uma política pública eficiente que busque proteger a vida, não importando que seja da mulher, seja do homem. Os programas buscam menos a mitigação ou solução desse problema que uma ineficiente exposição midiática ideologicamente programada.

Enquanto houver notícias como as seguintes - veiculadas na imprensa entre Março e abril de 2026, temos a certeza de que a sociedade como um todo é a grande derrotada. Uma grave derrota!

Todo e qualquer tipo de violência deve ser combatida.

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Professora mata marido com uma facada durante discussão (Londrina)

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Estado de São Paulo registrou aumento de 45% nas vítimas de feminicídio 

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Mulher vai buscar marido no bar para matá-lo a facada (Bahia)

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Santa Catarina registrou 15 casos de feminicídio apenas no início de 2026

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Mulher mata marido por wi-fi no PR e simula morte acidental

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Velório de mulher morta após espancamento mobiliza protestos contra feminicídio ( Maranhão)

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Mulher é flagrada ameaçando namorado antes de matá-lo a facadas (São Paulo)

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RS registra dois feminicídios em 24 horas; total chega a 27 em 2026

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Mulher mata marido com gargalo de vidro durante discussão no Recife.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

UM CONTO ALEATÓRIO

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 

O PREÇO DA CARIDADE

José Neres 


Quarta-feira. 14:32h. 

Quarto amplo. Ar-condicionado em 18⁰. Silêncio quase total.

Maurino desperta com o som do anúncio do recebimento de alguma mensagem. Uma hora dessas? Quem será? Todos os amigos e parentes sabem que ele só está disponível depois das dezoito horas. 

Deve ser algo urgente.

Antes de ler a mensagem, vai ao banheiro urinar. A farra do dia anterior foi pesada. Não se lembra se eram cinco, seis ou sete mulheres. Todas muito animadas. Essa era uma das vantagens de nascer rico. 

Preciso lembrar de colocar o celular no silencioso. 

Mas havia aproveitados tanto a noite que isso era de menos. A última vez que havia se divertido tanto foi quando compadeceu a uma das festas organizadas por aquele banqueiro que agora era manchete nos noticiários. 

Olhou-se no espelho. Até que não estava mal para quem chegava aos quarenta e dormia tão pouco. Seu físico esbelto, sua barba volumosa, seus longos cabelos e seu jeito de cantor sertanejo atraía bastante a mulherada.

Bocejou longamente.

Pegou o celular para ler a mensagem que o tirara de seu sono reparador. Ainda sonolento, demorou a reconhecer a autora dá mensagem.

Primo, desculpe o incômodo. Mas estou precisando de uma ajuda sua. Não sei você se lembra, mas me separei ano passado e você me disse que, se eu precisasse de algo, poderia pedir. E agora estou pedindo. Desde ontem que eu e minha filha não nos alimentamos direito. Não quero dinheiro, prefiro que você me doe uma cesta de alimento. 

Tenho certeza de que você ainda se lembra onde moro. Nem a chave eu troquei.

Sua Francy.

[Foto] uma mulher ainda bonita, com aspecto cansada, de vestido justo, ao lado de uma mocinha de uns quinze ou dezesseis anos em uniforme escolar. Ambas sorriem.

Mas quem diabos seria Francy? Prima? Chave? Jogou água no rosto e de repente, voltou a olhar bem para a foto e tudo clareou. Óbvio. Francy, sua prima pobre e gostosona com quem ele teve um casinho faz uns três anos. 

Mas o que era aquilo? Aquela era a filha dela? Nossa como cresceu! Ficou bonitona. Interessante!!!

Francy era uma prima distante. Sempre discreta, nunca lhe pediu nada e se contentava com rápidas passagens por motéis baratos. Um pobre amor de passoa! Merecia a ajuda.

Nunca gostou de ler nem de escrever. Preferia áudios. Mandou um. Do que mais você precisa? Onde entrego? 

Minutos depois veio a resposta em forma de outro áudio. Apenas o básico mesmo. Era apenas uma emergência. Estava mais preocupada com Lena (a filha) do que consigo própria. Desde que Cavalcante (o ex-marido) fora embora, tudo estava muito difícil. Ela já estava trabalhando e em breve teria um salário para se manter juntamente com a filha. A menina ficava em casa sozinha pela tarde e poderia receber as mercadorias.

Droga. Nem lembrava desse tal de Cavalcante! Acho que ele trabalha com IA ou coisa parecida. Mas que áudio longo. Acelerou. Acelerou. Acelerou.

Passou a mão pelos longos cabelos que começam a branquear. Aquela última frase: a menina fica sozinha em casa pela tarde era bem interessante.

Tomou um banho. Não fazia diferença alguma para ele dar ou não o que Francy pedia. Ela era simplória demais para se zangar com uma negativa. E era gostosa demais para ser ignorada. E aí da por cima tinha a menina Lena.. Bem interessante!

Resolvido. Ia passar no supermercado do Shopping. Detestava fazer compras. Mas tudo por uma boa causa. Dá para fazer tudo em menos de duas horas.

Maurino vestiu sua calça mais apertada e partiu.

Arroz

Feijão 

Macarrão 

Carne

Frango

Enlatados

Frios

Frutas 

Verduras etc.

Tudo de boa qualidade. 

Por onde passava, chamava a atenção. Vez ou outra olhava para o relógio. Tem que dar tempo! Quase chegando ao caixa, soltou um palavrão para si mesmo.

Quase que esquecia o mais importante.

Aliviado viu que no próximo ao caixa havia o que procurava. 

Acho que três pacotes de preservativo serão suficientes. 

Ainda dá tempo. Agora era acelerar. Acelerar e acelerar. A tarde está longe de acabar. Toda caridade tem um preço...


segunda-feira, 6 de abril de 2026

VIOLÊNCIA VERBAL EM SALA DE AULA

 Novos artigos de segunda #77

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VIOLÊNCIA VERBAL EM SALA DE AULA

José Neres 

 

Quando se fala em violência em sala de aula, muitas pessoas pensam logo em cenas de agressão física. No entanto, o uso de palavras ofensivas também pode ser contabilizado no rol das muitas violências que permeiam o convívio diário de quem está envolvido com a educação.

Nem sempre as pessoas envolvidas têm consciência de que palavras utilizadas com uma entonação adequada e em um contexto inapropriado podem levar a conflitos.

Tanto alunos quanto professores podem incorrer no constante uso de expressões e palavras que em nada contribuem para apaziguar situações. Contudo, nem sempre isso acontece de forma consciente. Muitas vezes as cenas ocorrem travestidas de brincadeiras ou do famoso “foi sem querer”.

Mesmo sendo “sem querer”, as palavras podem deixar cicatrizes invisíveis na vida de alguém. De alguma forma, todos nós já ferimos alguém com uma infeliz escolha de palavras ou de entonações.

Uma sala de aula deveria ser um espaço de diálogo, compreensão e de aprendizagem. No entanto, às vezes, torna-se um campo de batalhas verbais, do qual ninguém quer sair como perdedor.

Temos a seguir algumas frases que são ditas cotidianamente e que podem servir como arma no processo de comunicação entre discentes e docentes. Nenhuma das frases foi inventada. Todas foram ouvidas em sala de aula ou nos corredores de instituições de ensino.

***

Falas de professores

- Esta é a pior turma que eu já tive em toda a minha vida.

- Antes de entrar nesta sala, tenho que fazer o sinal da cruz.

- Vou tentar explicar, mas sei que ninguém aqui irá aprender. Esse assunto é para pessoas inteligentes.

- Dar aula para vocês é perder tempo.

- No dia da prova, vocês me pagam.

- Aqui tem um monte de analfabeto de pai e de mãe.

- Ainda bem que burrice não pega.

- Um final de semana com dor de dente é bem melhor que duas aulas seguidas nesta turma.

- Taí uma coisa que é novidade para mim: um pobre metido a inteligente. Cada uma!

- Eu sou formado e tenho pós-graduação. Quem você pensa que é para duvidar da minha aula?

- Estuda, minha filha, estuda... Feia como você é, só estudando para ter um futuro na vida.

 

Falas de alunos

 

- Professor, hoje vai ter algo importante ou só aula mesmo?

- Poxa, o senhor deveria ter ficado doente... Para que o senhor veio hoje?

- Acabou a aula? Graças a Deus! Ninguém merece ficar 100 minutos ouvindo a senhora.

- Professora, sonhei que a senhora tinha sido atropelada e morria. Assim que a senhora chegou, fiquei tão triste.

- A senhora consegue explicar por que todo professor é feio e tem cara de pobre?

- Depois um certo carro aparece com o pneu furado e ninguém sabe quem foi.

- Tenho tanta vontade de ir ao seu enterro...

- Tomara que você caia da escada e quebre o pescoço.

- Essa aula vai servir para que mesmo?

- Em dois dias, eu ganho mais do que a senhora em um mês.

- Se eu não obedeço meu pai, vou respeitar professor?

***

A seleção é básica e suave. Há frases muito mais grotescas e agressivas. Que cada um de vocês faça sua lista...


MARIANA LUZ

 Novos artigos de segunda #82 DOR E SOFRIMENTO NA POESIA DE MARIANA LUZ:  UMA BREVE LEITURA DE “MURMÚRIOS” José Neres                C...