sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

CORDEL PARA FIRMINA

 Uma homenagem a:

MARIA FIRMINA DOS REIS
(Para Nascimento Morais Filho, em memória)

José Neres 



Praça Maria Firmina dos Reis - em Guimarães - Arquivo do autor


Ninguém pode escravizar
A mente de uma pessoa
Enquanto no fundo restar
Uma força que ressoa 
E que nos faça lutar
Seja ao sol ou na garoa.

Mas nosso corpo, porém,
Vive a lutar contra a Morte
E contra a Vida também 
E nem sempre tem a sorte
De ser aqui - não no além -
Livre no Sul ou no Norte.

Lutar pela liberdade 
De todo homem e mulher
Não é ato de vaidade
Ou gesto tolo qualquer,
Deve ser realidade
Onde injustiça houver.

Foi em pleno Maranhão,
No século dezenove,
Foco de escravização,
Que ainda hoje comove,
Que ela chamou atenção:
Que o crime não se renove!

Quem será essa pensadora?
Essa mulher maranhense 
Artista e compositora,
Que ao preconceito só vence
E se torna vencedora
Por crer no que lhe pertence?

Maria Firmina dos Reis -
Escritora e professora,
Que por si mesma se fez
Em época opressora
Quando não tinha nem vez
De ser uma sonhadora.

Dona de muito talento
Ela se dedicou à escrita
Como se em busca de alento 
Para uma sina descrita
Desde o Velho Testamento,
Mas que vem sendo proscrita

E que hoje não tem espaço 
Embora haja defensores
Desse tão machista traço 
De não reconhecer dores
A esconderem em abraços 
E em lindo bouquet de flores. 

Esquecida por um tempo -
E por tempo até demais -
Sua obra sumiu no vento
Mas estava nos jornais 
Esperando um momento
Para voltar aos anais

Nossa história literária 
Ainda pouco explorada
Parece tão refratária
À pesquisa dedicada
À verve extraordinária 
De autora não renomada.

Nascimento Morais Filho
Foi o autor da proeza
De recompor um trilho
O qual, com toda certeza,
Precisava dum gatilho
Pra dispara a beleza

Que se escondia numa obra
Quase desconhecida.
Foi ele que fez a manobra
De tornar reconhecida
A prosa que se desdobra
Na página recolhida.

Úrsula - livro primeiro 
Dessas letras de ficção 
A trazer ao brasileiro
Com imensa convicção 
As dores de um povo inteiro,
As dores da escravidão.

Antero, Túlio e Suzana
Formam trio especial
Deles a saudade emana
De forma viva… real.
São frutos da dor humana
Em busca do capital.

Úrsula e seu bom Tancredo 
Vivem história de Amor
Não conheciam o medo
Até terem o dissabor
De retornar do degredo
Alguém cheio de rancor.

Fernando, o vilão da história,
Encarna o eterno Mal,
Teve momento de glória,
Acredita num sinal,
Sua gana pela vitória 
Marca o momento fatal.

É um livro interessante 
Repleto de reviravolta
Uma leitura instigante
Que de nós não se solta.
Ao tirá-lo lá da estante,
Coloque-o sempre de volta.

Em Cantos à Beira-Mar,
Maria Firmina dos Reis
Faz sua voz ecoar
Aos ouvidos de vocês 
Ali ela pôde entoar
Um canto de cada vez.

À sua mãe dedicado,
O livro fala de Amor 
Eterno ou contrariado,
De saudade e de temor,
Do que deve ser lembrado,
E do que nos causa dor.

São muitas as poesias
Nesse livro sem igual
Todas com muitas magias
Todas com gosto de sal
Todas lembram maresias
Todas reluzem cristal.

A Escrava traz um bom conto
De crítica social
Ele narra desencanto
E sofrimento fatal
De uma mulher cujo pranto 
Marca a linha final.

Joana, a escravizada,
Teve seu filho vendido,
Teve sua paz roubada,
Teve seu juízo perdido…
Por todos foi enganada
Seu ser procura sentido

Para o destino de fel
De viver perseguida
Pelo capataz cruel
Que busca tirar-lhe a vida
A mando do coronel,
Mas se vê socorrida 

Por uma dama bondosa
Que não vê a escravidão 
Como coisa valorosa.
Esse conto traz lição:
O mundo não é mar de rosa
É um poço de aflição.

O casal Épica e Gastão 
Formam um par original 
Que ao viver uma paixão 
Mas, de forma especial,
Ele descobre ser irmão 
De sua amada, afinal.

Nessa tragédia vivaz
Construída com rigor
Nossa escritora nos traz
Triste história de amor
Entre uma moça e um rapaz
Com grandes traços de dor.

Eis a ideia de Gupeva,
Esse conto indianista
De puro amor com reserva
De tom bem nacionalista
Onde nele se observa
Uma Firmina ativista.

Escrito em cinco partes
Repletas de descrições
Este conto é estandarte 
Das imensas emoções 
Em que tudo se comparte
Ressaltando comoções.

Firmina hoje é estudada
Como exemplo de escritora.
Sua obra é dissecada 
Também da vida da autora
Muita coisa foi encontrada
Por tanta gente leitora.

Orgulho do Maranhão,
Nossa intelectual 
Tem grande produção 
E obra monumental 
Que desperta reflexão 
Sobre questão atual:

Respeitar as diferenças 
Deve ser obrigação.
Fujamos das ofensas.
Somos uma só nação 
Preconceitos são doenças 
Que agridem o coração.

Ler Firmina por prazer
Ou por pura obrigação 
Deve ser nosso dever
Tomado com emoção 
Pois um povo, se não ler,
Jamais terá solução.

São Luís, 11 de dezembro de 2025.


























6 comentários:

  1. Admiro sua capacidade de formar uma poesia, um cordel que homenageia Firmina, ela deve merecer. Imagino os costumes terríveis em sua época que ainda ocorrem por hoje de forma institucionalizada com as palavras democráticas.

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    1. Muito obrigado pela leitura. Ler e escrever cordel é um passatempo que muito me agrada

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  2. Parabéns, amigo. Eu não conhecia essa sua verve cordelística. Não deve nada aos mais talentosos repentistas.

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  3. Que maravilha vilha de cordel! Parabéns!!

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