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| Imagem criada com auxílio de Inteligência Artificial |
UMA NOVA LISÍSTRATA
José Neres
Tenho diversos problemas comportamentais. Um deles é que não posso ter um tempo livre que logo começo a ler ou a escrever.
Como tenho poucos leitores, escrevo mais para mim que para os outros. Pelo menos me divirto. Vez ou outra vem à memória um fato antigo e logo o transformo em um texto. Se fica bom ou ruim já é outra história.
De qualquer forma, parodiando o mestre, digo para mim mesmo: “se lembrei e se sorri… o importante é que um texto escrevi…”
Depois de uma semana corrida na qual tempo livre virou lenda. Aproveito este finalzinho de sexta-feira para pôr na tela do celular essa historinha real - mas o nome do protagonista não será revelado. Nem mesmo sei se ele ainda se encontra entre nós. Mas, se já tiver partido, agradeço pelos bons momentos de conversa e pela história que será reproduzida a seguir.
*******
No início deste século, eu era sócio e professor de um grande curso pré-vestibular. Trabalhava de domingo a domingo, mas sempre sobrava tempo para um bate-papo com alguns alunos e com os colegas de jornada.
Um dia, na turma da noite, ao entrar na sala de aula, deparei-me com um senhor de aparência aristocrática, com gravata e camisa de manga comprida, sentado exatamente na primeira fileira. Cumprimentei a turma, ele respondeu com voz de barítono, e comecei a aula. Cerca de vinte minutos depois, aquele senhor dormia tranquilamente, como se estivesse em um aeroporto à espera de seu vôo. Os demais alunos sorriam de maneira respeitosa, mas sorriam.
Decidi não intervir no sono daquele senhor que até ressonando era elegante. Minutos depois, ele despertou, implorou desculpas com os olhos, abriu a apostila e tentou acompanhar a aula. Vez ou outra, perguntava algo sobre a disciplina e, mesmo tentando controlar-se, cochilava.
No dia seguinte, ele me esperava na entrada do Curso e, muito educado, pediu-me desculpas pelos cochilos e acrescentou:
“Eu não quero estudar, professor, estou aqui obrigado.”
Não entrou em detalhes. Foi para a sala, sentou-se no mesmo local e se tornou um aluno exemplar. Mas, vez ou outra, era dominado pelo sono. Com o passar dos dias, foi se enturmando com os demais alunos e servia como exemplo para aquela juventude que se preparava para os vestibulares.
Vez ou outra, ele olhava para trás, dava um sorriso desconfortável e voltava a estudar. Além de elegante e educado, ele tinha muito conhecimento.
Um dia ele me contou sua história.
Casou-se jovem, teve uma família feliz. Tinha uma esposa a quem amava e dois filhos já adultos e formados, além de netos. Como constituiu família cedo, teve que largar os estudos e dedicar-se ao sustento da família e a colocar os filhos para estudar. Cresceu na profissão e chegou ao cargo de chefia em uma instituição pública.
“Ah, professor - disse ele - um dia meus filhos se reuniram em um almoço em família. Parecia algo comum, mas não era. Era uma armadilha para mim.”
Como assim? - perguntei espantado
“Eles, mancomunados com a mãe, me disseram: olha, pai, o senhor passou a vida nos obrigando a estudar. Hoje estamos formados e decidimos que é hora de o senhor retomar os estudos. Já matriculamos o senhor em um curso pré-vestibular. - Foi assim que vi. Parar aqui, professor!”
Ela falava pausadamente, com uma entonação de que tinha o poder de convencer os outros, mas que agora se via subjugado e quase sem forças para reagir.
“O senhor percebeu que eu faltei mais de uma semana?”
Respondi que sim e que ele fizera muita falta. Inclusive que vários alunos haviam perguntado por ele. Aqueles olhos claros brilharam. Talvez ele não soubesse que se tornara fonte de inspiração e de admiração para muitos colegas de classe.
“Sentiram, professor? Nossa! Eu estava matando aula. Olhe discretamente para trás e veja aqueles dois rapazes grandões de roupa social. Viu? São meus filhos. Quando descobriram que estava fugindo do curso, me deram uma bronca e agora ficam ali me vigiando. Nem tenho mais como fugir. Pode uma coisa dessas?”
Começou a rir.
Semanas depois, ele desapareceu novamente. Parece que havia desistido. Uma pena. Era uma pessoa muito inteligente e com grande experiência de vida. Os outros alunos adoravam conversar com ele.
Mais de um mês depois, quando entrei na sala, lá estava ela, sorridente, sem gravata, anotando e perguntando, sempre com o aspecto sério, mas com um sorriso cativante. Olhei para o fundo da sala e não localizei os dois filhos dele. Estranho!
No intervalo, ele veio conversar comigo.
“Ah, professor… da última vez que vim aqui, quando cheguei em casa, reuni a família e quebrei o maior pau. Disse que não viria mais. Que eu não precisava provar nada para ninguém. Que não ia fazer vestibular coisa nenhuma. Que eu me sentia deslocado ao lado dessa garotada cheia de energia. Que eu trabalhava o dia inteiro e ainda tinha que passar vergonha aqui na sala... Meus filhos desistiram e foram embora tristes. Me senti vitorioso e livre.”
E o que fez o senhor voltar assim tão sorridente? - Perguntei.
“Professor. Depois que meus filhos foram para a casa deles, minha esposa me chamou com toda calma do mundo e me disse: Olha só, sei que você está estressado e cansado, mas vai fazer vestibular, sim. Vou te dar algumas semanas de folga no curso. Depois você vai pedir férias no serviço e voltar para os estudos. E se não voltar, escuta o que vou te dizer, se não voltar, você nunca mais vai deitar comigo ou tocar no meu corpo. A escolha é sua.”
Deu uma gargalhada e disse:
“E aqui estou de volta, sem sono, disposto e pronto para estudar. Nem preciso mais de vigia, professor!”
Foi um dos melhores alunos que tive.
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Para os curiosos: ele fez vestibular, passou entre os primeiros colocados e se formou.
E quem não entendeu o título do texto, um conselho. Faça como meu antigo aluno: estude!

Muito bom texto.
ResponderExcluirObrigado, querido amigo Mhario Lincoln!
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