quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A MEUS ETERNOS PROFESSORES

 A MEUS ETERNOS PROFESSORES

José Neres 

Fonte da imagem: arquivo do autor 


Durante todo a minha vida escolar e universitária, sempre tive o prazer de contar com bons e excelentes professores.

Claro que alguns marcaram mais e que outros se esvaíram nas frestas do esquecimento. Mas a cada um deles eu sempre agradeço mentalmente. 

Não tenho esperança de ser lido por nenhum deles. Os falecidos obviamente não visitam está página. Os que continuam entre nós certamente têm mais o que fazer do que ler estas linhas tortas e cambiantes. 

Com medo de esquecer alguém, não citarei nenhum nome aqui. Contudo, todos os meus professores e professoras podem se sentir homenageados das descrições a seguir.


Tive...

Uma professora que um dia segurou minha mão quando ainda não tinha destreza nem mesmo para segurar um lápis...

Tive ..

Um professora que foi ameaçada por um aluno em plena sala de aula e isso fez com que ela perdesse o filho que esperava...

Tive...

Uma professora de língua portuguesa que era freira e italiana. Poucas pessoas tratavam nossa gramática com tanto cuidado como ela...

Tive...

Um professor que, com sua velha moto amarela e com suas aulas de língua portuguesa, me inspiraram a ser professor...

Tive...

Um professor conhecido internacionalmente que, depois das aulas, deixava de almoçar para explicar a matéria para os alunos que tinham dificuldade...

Tive...

Um professor que, ao chegar sóbrio à escola, se perdia dentro de si mesmo. Mas, quando bebia, ministrava as melhores aulas e fazia os melhores desenho que já vi em um quadro-negro...

Tive...

Um professor que, certo dia me perguntou: você está bem? Ele nem imagina como foi saber que alguém se preocupava com um quase desconhecido...

Tive...

Um professor que se vestia, dançava e cantava como Elvis Presley...

Tive...

Uma professora que, quando foi minha  colega na graduação, renegou todas as aulas que ministrou...

Tive...

Um professor que cantava e tocava violão para explicar os estilos literários e para ajudar na interpretação de textos...

Tive...

Uma professora que almoçou comigo durante mais de um ano no mesmo restaurante. Ainda hoje, quando passo por sua antiga casa, ainda a vejo sua imagem debruçada em um muro que não existe mais...

Tive...

Uma professora que nunca faltou, jamais chegou atrasada e que ministrava as melhores aulas a que já assisti 

Tive...

Um professor que cobrava presença tabuada, borrão e caderno controlado. Ele me fez ver que os números tinha sentido.

Tive...

Um professor que resolvia seus cálculos não apenas no quadro da sala, mas também nas paredes de fórmica. Cada cálculo pegava uma aula inteira e várias folhas de caderno.

Tive...

Uma professora que disse: "O que faltam para o brasileiro é indignação. Nós aceitamos os maiores absurdos de forma pacifica."...

Tive...

Um professor que confiava tanto em mim que me levou para substituí-lo em um lugar onde ele trabalhava...

Tive...

Uma professora que tinha como único aluno da turma EU. Ficávamos doze horas por semana discutindo as obras e os autores, cujos livros ela me emprestava para ler na língua original...

Tive...

Uma professora que, ao receber um livro meu de presente, disse: "Aguarde novidades". Anos depois, encontrei a resenha do livro na revista cientifica que ela dirigia...

Tive...

Um professor que presenteou a mim e a mais duas colegas aniversariantes com belos quadros a nossa escolha. Esse quadro é uma das preciosidades que tenho na parede e no coração...

Tive..

Um professor que nunca disse seu nome para a turma. Ele não permitia que nenhum aluno lhe dirigisse a palavra...

Tive...

Uma professora que conseguia que a turma inteira fosse para a aula em pleno sábado. Eram aulas memoráveis...

Tive...

Um professor que, em pleno supermercado, percebeu que eu estava com dificuldades em caminhar, examinou meu joelho e passou uma série de exercícios para fortalecer a região. Nunca mais senti dores no joelho...

Tive...

Um professor que parou sua aula para assistir à defesa de minha dissertação. Depois, me cumprimentou e voltou para sala de aula...

Tive...

Uma professora que me incentivou a praticar a crítica literária após ler um dos trabalhos que produzir em sua disciplina...


Como todos foram e são importantes para mim e como ele continuam, mas na ausência, a me ensinar, creio que devo mudar o te ho verbal do pretérito para o eterno presente que recebi... Então...

Tenho..


segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ESTA É UMA NÃO RESENHA

 

Novos artigos de segunda #101

 

ESTA É UMA NÃO RESENHA

José Neres

ISNI: 0000000530697862


Imagem cedida por Natércia Moraes Garrido


Poeta é um ser geralmente insatisfeito que luta contra tudo e contra todos, inclusive contra seus próprios fantasmas e contra os obstáculos impostos pela sisudez das linguagens tradicionais.

Diante da impossibilidade de transpor o inefável para a página em branco, o que resta aos alquimistas da palavra que vivem de transmutar vivências e sentimentos em palavras que fogem do convencional? Alguns se rendem às soluções aparentemente fáceis e populares, evitando explorar as múltiplas potencialidades dos versos em prol de um lirismo exacerbado ou de um engajamento político militante.
Às vezes, o escritor pode revoltar-se e romper os com padrões impostos pela tradição, tal qual fizeram os autores da chamada terceira fase do Modernismo Brasileiro e nos movimentos de vanguarda. Mas romper com o quê? Com o que quiser. Pode ser com os temas mais comuns, ou com a previsibilidade da linguagem ou mesmo com as formas convencionais. E se o público não compreender ou se sentir ofendido com tais mudanças? Não importa! Sempre tem alguém que irá aplaudir e disseminar essas aparentes novidades.

No final, tudo é válido, pois a construção de uma obra de arte quase sempre envolve o estado de ânimo do autor ou sua visão momentânea de alguns aspectos da vida. O poema que pode ser lindo para uns talvez seja  recepcionado com indiferença por outros leitores. O conto, romance, peça teatral ou composição musical que deixou alguém praticamente sem fôlego pode ser a mesma obra que desperte antipatia ou até mesmo ojeriza em alguém que não simpatiza com a forma ou com a temática abordada na obra de arte.

Mas o importante é cada pessoa possa continuar produzindo e divulgando suas obras. Que cada leitor possa abrir ou fechar um livro na hora que mais lhe aprouver. Que cada pessoa tenha o direito de ouvir e até dançar ao som de seus ritmos preferidos.... Tudo isso sem a necessidade de pedir desculpas ou implorar permissão a quem quer que seja.

Penso nisso enquanto leio o livro da escritora e amiga Natércia Moraes Garrido “Este é um não poema” (2026, Editora Urutau, 72 páginas). Desde o título, já fica claro que se trata de um livro que enceta algumas rupturas, afinal, é muito fácil encontrar algum livro com poemas, mas não é muito comum deparar-se com uma obra que já apresenta, desde as inscrições da capa, a certeza do não ser.

Importante notar que a frase-título que marca praticamente toda a trajetória do livro: “Este é um não poema” e totalmente diferente de uma outra informação como “Este não é um poema”, ou seja, o “não-poema” acaba por reconhecer a tácita existência do poema. De alguma forma no livro, a negação pode ser vista como uma afirmação daquilo que precisa ser negado ou mesmo questionado. Porém o esquecer voluntário é também uma forma de (re)lembrar aquilo que nos incomoda.

Fica a dúvida se estamos diante de 30 poemas que se completam e que mantêm um diálogo temático entre si, ou se de trata de um único poema dividido em trinta partes. Prefiro a segunda opção, mas acredito que a escolha da ideia de que ver o livro como composto por três dezenas de poemas não altera muito a interpretação do conjunto arquitetônico que norteia a ideia central do livro: a fragmentação do Ser diante de situações que questionam a Vida, a Morte e as inevitáveis Perdas sem possibilidades de reposição.

Os versos são compostos a partir de uma primeira pessoa que tenta ocultar seu gênero a partir de pronomes como eu, meu ou mesmo pela presença/ausência de elementos elípticos e que em raríssimos momentos de deixa “fotografar” pelas frestas da linguagem. Do outro lado, está um outro Ser, simbolizado pelos pronomes explícitos: “ele”, você... Tudo isso mediado por uma pontuação econômica, porém necessária, que geralmente se limita a um, dois ou três pontos finais em pontos estratégicos dos textos. Essa quase ausência de pontuação faz com que os leitores tenham a oportunidade de escolher o ritmo da leitura, as pausas e as opções sintáticas que podem derivar a partir de cada escolha. Isso permite que cada verso possa ter seus significados multiplicados.

A opção pelas letras minúsculas, pela ausência de títulos, pela repetição do verso-título ao final e do isolamento de uma palavra em 28 dos 30 poemas levam o leitor a perceber que há algo mais que se repete de forma sistemática. Inocentemente, alguém poderia imaginar que apenas as palavras estão repetidas, contudo, mas do que palavras, há a repetição de um grito silencioso que remete a um questionamento que não necessita nem mesmo do sinal de interrogação para estar presente.

Para quem ainda não leu o livro, reproduzimos abaixo um fragmento

 

escrevo para dizer que danço pela música incessante que você

não pode conhecer porque amargo é o contorno do gesto

há muito o que se dizer na esteira de um doce copo de vinho

mas bebo do líquido porque gosto de saborear as mil tonali-

dades cores que a realidade me extirpou ao nascer

a culpa do mundo cão não é minha nem sua nem

é.

este é um não poema. (p. 27)

 

De modo geral, esse novo trabalho poético de Natércia Moraes Garrido permite aos leitores um mergulho na essência humana. Quase no final do livro, está dito que “em não vim aqui para dizer da obviedade do destino que me aguarda” (p. 67), o que é verdade. Não se trata de uma leitura simples e que possa ser regida pela pressa em se concluir o livro, já que os hipotéticos não-poemas exigem uma multiplicidade de (re)leituras a partir das diversas experiências que em tenha o livro em suas mãos.

“Este é um não poema” é um livro para suscitar dúvidas e não para trazer respostas prontas. É um livro perfeito para quem já nasceu “pronto para vomitar a eterna vontade do querer...” (p. 13).

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

MINHA FILA PARTICULAR

 Novos artigos de segunda #100

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


MINHA FILA PARTICULAR 

José Neres 

ISNI: 0000000530697862


Ontem fiquei aproximadamente duas horas e vinte minutos em uma fila para poder exercer meu dagrado direito de votar em quem eu quisesse, sem dar satisfações a ninguém.

Como a maior parte das pessoas ditas normais, também não gosto de filas, principalmente dessas intermináveis. Mas, há muito tempo encontrei dois antídotos contra o marasmo que se alonga nas filas: sempre levo um livro e uma garrafinha com água.

Quando sei que terei a possibilidade de ficar um longo tempo exposto a uma espera sob a qual não tenho condições de gerenciamento, levo meu livros e aproveito para fazer andar uma outra fila: a das leituras represadas. 

Tornou-se praticamente um ritual: antes de sair de casa, procuro um livro cuja leitura pode ser breve e o levo para me fazer companhia. 

Você aí, do outro lado da tela talvez até ache estranho um cidadão ficar horas e horas perdido dentro de si mesmo e mergulhado nas páginas da poesia, da ficção ou mesmo de um trabalho científico. Mas eu gosto!

E qual será o livro que que levei para votar comigo? Fácil de responder: levei recentemente publicado “Nas encostas dos nimbos e outros contos” (Editora Lume, 2026, 126 páginas), da professora e escritora Arlete Nogueira da Cruz. 

Arlete Nogueira tem uma prosa cheia de nuances. Ela jamais se contenta em apenas contar uma história e então aproveita seus enredos e suas personagens para fazer o leitor conviver com situações aparentemente cotidianas, mas que podem esconder um leva de questionamentos acerca da própria existência humana. Esse seu novo livro não é diferente.

No conto que dá nome ao livro, entramos em contato com Celeste e sua família. Aos poucos, o que parecia apenas mais uma história de amor e de dificuldades financeiras vai se transformando em um turbilhão de fraturas sociais e familiares. 

Os três frutos do amor que deu origem à narrativa (duas garotas e um rapaz) destoam tragicamente entre si e percebem que, apesar dos laços consanguíneos, poucas coisas os unem de verdade. Cada um dos irmãos tem seus objetivos, todos conflitantes e isso acabará descambando para os inevitáveis desajustes que enlaçam seus destinos. 

O segundo conto, intitulado “Um natalício no Natal” mostra como uma data tão festiva e teoricamente propícia às confraternizações pode esconder uma gama de preconceitos e de atitudes que fogem ao clima natalino. O intertexto bíblico é evidente, mas não deixa espaço para o que os leitores podem esperar. Naquela casa, alguns segredos mais do que íntimos começam a incomodar as pessoas presentes ao mesmo tempo em que a graciosa decoração também começa a desmoronar. 

Uma vistoria no guarda-roupa e um mergulho no passado e na própria consciência servem como mote para o conto intitulado “A camisola”. De repente, a rica e poderosa Olívia começa a perceber que existe uma distância enorme entre o ter e o ser. Nota então, que sempre foi uma pessoa narcisista e que sempre explorou a força de trabalho alheia. Chega, então, a hora de se despir de alguns preconceitos e de parte de sua própria história.

E o que levaria um adulto a oferecer um celular de presente a uma criança praticamente desconhecida. O leitor talvez descobrirá a resposta no quarto conto do livro, cujo metafórico título - “Objetos flutuantes” desperta a curiosidade e faz o leitor inquirir os motivos ocultos por trás de cada gesto humano.

Finalmente, em “Uma vigilância”, entramos em contato com as angústias de Rosário, que vê nos trabalhadores braçais de seu prédio algo que vai além das meras relações comerciais. 

Pronto, assim transformei aquela lenta e enorme fila em uma oportunidade de conhecer uma legião de seres ficcionais que, possivelmente, poderiam se encaixar na vida de tantas daquelas pessoas que estavam perto de mim e que viam a fila apenas como uma perda de tempo.


A MEUS ETERNOS PROFESSORES

  A MEUS ETERNOS PROFESSORES José Neres  Fonte da imagem: arquivo do autor  Durante todo a minha vida escolar e universitária, sempre tive o...