Novos artigos de segunda #60
LITERATURA E
ENVELHECIMENTO
José Neres
Envelhecimento é
um processo contínuo e irreversível. Mesmo quem faleceu muito jovem e não
alcançou a velhice, passou, obrigatoriamente, por algum tipo de envelhecimento.
Ele faz parte da vida.
A cada ato de
respirar estamos mais velhos, e o corpo, invariavelmente, passa por inúmeras e imperceptíveis transformações. Sobre isso, o pensador latino
Sêneca advertiu a seus leitores e alunos que “Ninguém devolverá seus anos,
ninguém o restaurará ao que era antes”, ou seja, traduzindo o pensamento de Sêneca nas letras da música popular brasileira, podemos dizer que “o que passou, passou, não
importa, ficou do outro lado da porta”, como escreveu o compositor Peninha em
sua conhecida canção.
Atenta a tudo o
que se refere às experiências humanas, a literatura e todas as demais formas de
arte abordam a temática do envelhecimento em suas obras. Não é à toa que o
filósofo grego Platão, logo no livro inicial de A República, colocou nas
palavras de Sócrates a seguinte constatação:
Em
verdade, Céfalo, eu aprecio conversar com os velhos. Penso que devemos aprender
com eles, pois são pessoas que nos antecederam num caminho que também iremos
trilhar, para assim conhecermos como é: áspero e árduo ou tranquilo e cômodo.
Em seu ensaio
intitulado “Saber Envelhecer”, o orador romano Cícero deixa uma importante
recomendação sobre o processo do envelhecimento. Ele diz, o referir-se à
memória das pessoas, que “os velhos a conservam tanto melhor quanto permanecem
intelectualmente ativo” No entanto, a idade traz também suas cobranças físicas.
Quem alertou sobre as consequências do envelhecimento foi o sábio Hipócrates, o
Pai da Medicina, ao comenta em um de seus aforismos que:
Nos
velhos aparecem dispneia, catarros com tosse, espasmos vesicais, disúrias,
dores articulares, nefrites, vertigens, apoplexias, caquexias, pruridos de todo
o corpo, insônias, diarreias, inflamações dos olhos e do nariz. Ambliopias,
catarata, dureza dos ouvidos.
Talvez com intuito
de amenizar os impactos dessas alterações no organismo, os agentes do comércio
acabaram cunhando a expressão “melhor idade” e os gestores públicos adoraram o
termo “idoso” com uma espécie de eufemismo pronto para mascarar aquilo que a fisiologia
humana chama simplesmente de velhice.
E como esse
processo de envelhecimento aparece na literatura? De diversos modos e em
diversas obras.
Em “Memórias de
Adriano”, famoso romance escrito por Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano,
protagonista do livro inicia sua narrativa em primeira pessoa comentado a
visita que fez a seu médico. Aos sessenta anos de idade, o imperador lamenta
sua debilidade física, preferindo não entrar em detalhes da “descrição do corpo
de um homem que envelhece e se prepara para morrer de uma hidropisia do
coração”. Ao longo do livro, em muitos momentos Adriano ressalta os problemas
advindos da idade bastante avançada para a época.
A peça “Rei Lear”,
de Shakespeare, é inteiramente dedicada a tratar da loucura, da velhice e dos
conflitos intergeracionais. Em diversas passagens dessa obra, as demais
personagens remetem à idade do antigo rei não como fonte de sabedoria, mas sim
como exemplo de decrepitude. Em determinado momento, o próprio Rei declara,
depois de ser ofendido por uma das filhas: “Querida filha, confesso que estou
velho. A velhice é inútil. De joelho eu imploro que me concedais roupa, cama e
alimentação”. Sobre essa peça Shakespeareana, o professor e crítico Harold
Bloom chegou a afirmar que: “a leitura de rei Lear, em especial, é experiência
rara. Sentimo-nos, a um só tempo, constrangidos e à vontade, para mim, nenhuma
outra experiência individual pode ser tão gratificante”.
Existem centenas
de obras literárias que remetem ao processo de envelhecimento e suas múltiplas
consequências, como é o caso de “Memórias de Minhas Putas Tristes” (Gabriel
García Márquez), “O Velho e o Mar” (Ernest Hemingway) “Memorial de Aires”
(Machado de Assis), “O Largo do Desterro” (Josué Montello), “Litania da Velha”
(Arlete Nogueira da Cruz), "O curioso caso de Benjamin Button (Scott Fitzgerald) e tantos outros. Alguns tratando o assunto de forma direta e outros a partir de metáforas.
No entanto, é na poesia de Cecília Meireles que os amantes da leitura encontram uma das mais belas e contundentes formas de representar a passagem do tempo no corpo de alguém. Escreveu a autora que:
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?"










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