segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

MEUS ESTIMADOS ALUNOS

 Novos artigos de segunda #63


Fonte da imagem: arquivo do autor 

 

MEUS ESTIMADOS ALUNOS

José Neres 


Foi exatamente no dia 1⁰ de abril de 1991 que iniciei, oficialmente, minha jornada docente. Eu era um jovem de apenas 21 anos recentemente completado, e meus primeiros alunos tinham uma média de 14 a 15 anos. 

Antes, eu já trabalhava na Cruz Vermelha ministrando cursos de Língua Portuguesa, e lá o alunado passava dos trinta ou quarenta. Mas, voltemos para a data oficial do início das atividades docentes. Fiz a entrevista no então Colégio Brasil e no mesmo dia fui efetivado como professor de língua portuguesa do antigo Primeiro Grau. 

Foi um momento maravilhoso. Trabalhava pela tarde em um local e pela noite no outro e aprendia muito com meus alunos, tanto com os adultos da CV, quanto com os adolescentes do Colégio Brasil. Foi aquele o período em que mais estudei. Não tinha a menor intenção de me decepcionar com o magistério, nem de decepcionar aqueles jovens ou aquela instituição pela qual sempre tive grande carinho.

Os colegas eram maravilhosos, a direção e a coordenação trabalhavam com afinco para que os professores pudessem lecionar e para que os discentes tivessem a oportunidade de aprender.

Depois vieram outros locais de trabalho: Colégio José Maria do Amaral, MENG, Dom Bosco, os inúmeros cursos pré-vestibulares, as faculdades particulares (Fama, Santa Fé, Pitágoras, IESF), os cursos de pós e a UFMA, onde estive como professor substituto e também nos programas de interiorização.

Ao longo dessas três décadas e meia de atividade, conheci inúmeros alunos extraordinários. Não citarei nomes, para não ser injusto, nem para alimentar ainda mais meus lapsos de memória. Mas sempre que pude acompanhei a trajetória deles e, sempre, sempre, sempre, torci pelo sucesso de todos.

Claro que nesse meio tempo muitos de meus antigos alunos saíram de meu campo de visão, alguns foram para outras cidades ou países. Outros, porém, passaram a, voluntária ou involuntariamente, fazer parte de meus círculos de amizade. E são sempre muito bem-vindos. São pessoas muito importantes para mim. Continuo torcendo por todos com a mesma intensidade de quando estavam em sala de aula. 

Ainda sem declinar nomes, um desses “meninos” sempre passa. pela porta de casa, dá uma leve buzinada e já me apresentou até para a família. Outros me convidaram para padrinho de casamento, para suas cerimônias de formatura no curso superior e outros eventos que marcaram suas vidas, para ministrar palestras ou para um simples bate-papo.

Hoje tenho ex-alunos que são, médicos, advogados, deputados, ministros, promotores, juízes, professores, oficiais, dentistas, psicólogos, administradores, secretários, músicos, atletas… mas também há aqueles que não prosseguiram os estudos e que levam uma vida sem glamourização. Admiro a todos. Todos me ajudaram a me construir como ser humano e como profissional. Agradeço a todos. Torço por todos!

Interessante que meus primeiros alunos já chegaram ou estão chegando à casa dos cinquenta anos. Quando nos encontramos, sempre há muita alegria envolvida. Daqui a pouco entraremos quase juntos no terreno oficial da velhice.

Semana passada, por exemplo, encontrei nas redes sociais um dos alunos mais inteligentes que tive. Vez ou outra, faço caminhadas ao lado de uma fantástica ex-aluna. Tenho sempre orgulho de dizer que alguns atuais colegas foram meus alunos. O tempo sempre me brinda com essas doses de alegria.

Mas nem sempre as notícias são boas. Faz poucos dias, fiquei sabendo da prisão de um antigo e estimado aluno. Soube também do falecimento de uma excelente aluna que tive. Um deles recebeu a notícia de HIV positivo no dia de sua colação de grau. Uma delas perdeu marido e filho no mesmo dia em acidentes diferentes. Outra perdeu a memória. Encontrei uma como apenada em um presídio durante um evento. Uma faleceu com o filho recém-nascido ao colo. No período da Pandemia, fui informado do falecimento de vários. Um cometeu o suicídio em pleno local de trabalho…

Essas tragédias também fazem parte da vida e nos trazem diversas lições. Resta-nos aprender com elas. As partidas, as despedidas, as boas e as más notícias fazem parte do uniforme dos professores. Um uniforme bastante digno e pesado, diga-se de passagem.

Começa um novo ano letivo e brevemente outros alunos estarão em sala de aula, e eu, como sempre fiz, continuarei pedindo que todos os deuses protejam cada um deles. Se tudo der certo, não tenho a menor responsabilidade por isso. Se algo sair errado, não será por falta de conselho ou de torcida. 

Minha juventude já ficou para trás, mas ainda hoje desejo sucesso a todos os que ainda estejam em sua jornada terrena e uma boa acolhida a quem já partiu deste mundo e hoje se encontram em uma dimensão onde, talvez, nos encontraremos no momento certo e oportuno.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

DIA DO LEITOR?

Fonte da imagem: arquivo do autor 


 LEITOR E LEITURAS

José Neres 

I

Ontem - 07.01 - foi comemorado o Dia do Leitor. Como leio todos os dias, ignorei solenemente a data. Dia do leitor, para mim, é todo dia, sem final de semana ou feriado. 

II

Por falar em leitor, todas as vezes que posto em minha redes sociais uma indicação de leitura, o número de acesso cai. As pessoas não costumam compartilhar postagens sobre livros e leituras, principalmente de autores de sua região. Acredito que muitos dos meus seguidores não gostam de livros. Será?

III

Ontem fiz a leitura do livro "Escritos sobre a nova arte de ensinar de Wolfgang Ratke (1571-1635): textos escolhidos", com apresentação, tradução e notas de meu querido sempre-professor Sandino Hoff. Não tenho ex-professores. Todos continuam me oferecendo boas lições, seja pelos textos que leio com frequência, seja pelos ensinamentos que faziam parte de meu dia a dia. Ah! O livro é extraordinário!

IV

Depois de quase meio século de leituras, finalmente decidi ler o livro e assistir ao filme "E o vento Levou" (Gone with the wind), de Margareth Mitchell. Como sempre faço, primeiro lerei o livro (já comecei) e depois verei o filme. 

V

Para mim, leitura é uma forma de vencer preconceitos. Acho, então, estranho quando encontro alguém que diz: "Não leio Fulano", "Tenho ódio de poesia", "Tema tal eu não leio", "Só leio livro sobre assunto X"... Tudo bem, cada um com seus gostos, mas acho esquisito alguém usar a leitura como fonte de preconceito.

VI

Sempre vivi cercado de livros. Geralmente leio mais de um livro ao mesmo tempo. Prefiro livro físico a digital. Gosto de livros antigos. Muitas pessoas me perguntam quantos livro já li. Não tenho a menor ideia. Quando vou ler uma obra, não estou interessado em saber a etnia do ator, seu gênero, sexualidade, classe social ou posicionamento político. Quero saber é se o texto é bom. (A repetição da palavra livro é proposital).

VII

Nas escolas, tenho visto alunos com celular, tablet, tabuleiro de dama/xadrez, baralho, uno, dados, dominó, estilete, canivete... Mas está cada vez mais raro encontrar aluno com os olhos brilhando diante de um livro aberto. A tendência é piorar...


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

SOBRE A DUQUESA

 Novos artigos de segunda #62

Fonte: Arquivo do autor 


ANOTAÇÕES SOBRE A DUQUESA 

José Neres 


Ontem, fiz uma postagem em uma rede social anunciando que iniciava a leitura do romance “A Duquesa vale uma missa”, de José Sarney. No final do texto, anunciei que brevemente faria alguns comentários sobre o livro. 

Li o texto em pequenos fôlegos nos intervalos entre os afazeres de um professor sempre ocupado com o ofício. Como é um livro relativamente curto e que proporciona uma leitura rápida e agradável, terminei-o hoje no finalzinho da noite.

Particularmente, gostei da narrativa. De modo bem superficial, poderíamos dizer que o mote do livro é a narração em primeira pessoa de um homem chamado Leonardo que, desde a adolescência se viu apaixonado pela mulher pintada em uma misteriosa tela que está guardada na biblioteca de seu pai.

Com o falecimento do genitor, começa a divisão da herança. No meio dos espólios está aquele quadro tão belo e enigmático. Será que Leonardo conseguirá se apossar do quadro? Como será dividida a herança? Será que a sensual bancária chamada Tecla (uma sutil brincadeira com a palavra tela) teve realmente um caso com o chefe da família? Qual será a história daquela bela mulher que está presa naquela pintura há séculos?

As muitas doses de mistério que atravessam a narrativa são propositais. Assim também como propositais são as inúmeras lições de História da Arte de Direito da Família, de técnicas de pesquisa e de relações humanas que atravessam as páginas do livro.

Mas não se trata de um livro de erudição forçada e insossa. O autor soube mesclar com maestria os momentos de mistério, de suspense, de erotismo e de mergulhos na mente atormentada do protagonista. 

A escolha pela primeira pessoa dá um sabor especial à história. O narrador é um ser instável, voluntarioso, cheio de obsessões e que tenta levar o leitor a acreditar em seu mundo cheio de devaneios. Ele quer nos convencer que sua fantasia está ancorada em uma realidade inconteste e não aceita ser questionado. Imerso em um mundo particular, Leonardo - também chamado de Leo ao longo da história -representa a simbologia do homem que não se desvencilhou da adolescência e sua consulta com a psicóloga mais o adoece do que o prepara para a vida - momento ímpar do livro!

A Duquesa vale uma missa” é um livro de leitura agradável e que, embora não apresente a densidade narrativa e a minuciosa construção estética de “Saraminda” e nem os elementos praticamente épicos de “O dono do mar”, demonstra o talento ficcional de seu autor e deixa no ar alguns questionamentos acerca dos limites entre a sanidade e a loucura.

Se você gosta de arte, mistério, sensualidade e aventura, esteja certo de que a Duquesa realmente vale uma boa leitura.

MEUS ESTIMADOS ALUNOS

 Novos artigos de segunda #63 Fonte da imagem: arquivo do autor    MEUS ESTIMADOS ALUNOS José Neres  Foi exatamente no dia 1⁰ de abril de 19...