Novos artigos de segunda #63
MEUS ESTIMADOS ALUNOS
José Neres
Foi exatamente no dia 1⁰ de abril de 1991 que iniciei, oficialmente, minha jornada docente. Eu era um jovem de apenas 21 anos recentemente completado, e meus primeiros alunos tinham uma média de 14 a 15 anos.
Antes, eu já trabalhava na Cruz Vermelha ministrando cursos de Língua Portuguesa, e lá o alunado passava dos trinta ou quarenta. Mas, voltemos para a data oficial do início das atividades docentes. Fiz a entrevista no então Colégio Brasil e no mesmo dia fui efetivado como professor de língua portuguesa do antigo Primeiro Grau.
Foi um momento maravilhoso. Trabalhava pela tarde em um local e pela noite no outro e aprendia muito com meus alunos, tanto com os adultos da CV, quanto com os adolescentes do Colégio Brasil. Foi aquele o período em que mais estudei. Não tinha a menor intenção de me decepcionar com o magistério, nem de decepcionar aqueles jovens ou aquela instituição pela qual sempre tive grande carinho.
Os colegas eram maravilhosos, a direção e a coordenação trabalhavam com afinco para que os professores pudessem lecionar e para que os discentes tivessem a oportunidade de aprender.
Depois vieram outros locais de trabalho: Colégio José Maria do Amaral, MENG, Dom Bosco, os inúmeros cursos pré-vestibulares, as faculdades particulares (Fama, Santa Fé, Pitágoras, IESF), os cursos de pós e a UFMA, onde estive como professor substituto e também nos programas de interiorização.
Ao longo dessas três décadas e meia de atividade, conheci inúmeros alunos extraordinários. Não citarei nomes, para não ser injusto, nem para alimentar ainda mais meus lapsos de memória. Mas sempre que pude acompanhei a trajetória deles e, sempre, sempre, sempre, torci pelo sucesso de todos.
Claro que nesse meio tempo muitos de meus antigos alunos saíram de meu campo de visão, alguns foram para outras cidades ou países. Outros, porém, passaram a, voluntária ou involuntariamente, fazer parte de meus círculos de amizade. E são sempre muito bem-vindos. São pessoas muito importantes para mim. Continuo torcendo por todos com a mesma intensidade de quando estavam em sala de aula.
Ainda sem declinar nomes, um desses “meninos” sempre passa. pela porta de casa, dá uma leve buzinada e já me apresentou até para a família. Outros me convidaram para padrinho de casamento, para suas cerimônias de formatura no curso superior e outros eventos que marcaram suas vidas, para ministrar palestras ou para um simples bate-papo.
Hoje tenho ex-alunos que são, médicos, advogados, deputados, ministros, promotores, juízes, professores, oficiais, dentistas, psicólogos, administradores, secretários, músicos, atletas… mas também há aqueles que não prosseguiram os estudos e que levam uma vida sem glamourização. Admiro a todos. Todos me ajudaram a me construir como ser humano e como profissional. Agradeço a todos. Torço por todos!
Interessante que meus primeiros alunos já chegaram ou estão chegando à casa dos cinquenta anos. Quando nos encontramos, sempre há muita alegria envolvida. Daqui a pouco entraremos quase juntos no terreno oficial da velhice.
Semana passada, por exemplo, encontrei nas redes sociais um dos alunos mais inteligentes que tive. Vez ou outra, faço caminhadas ao lado de uma fantástica ex-aluna. Tenho sempre orgulho de dizer que alguns atuais colegas foram meus alunos. O tempo sempre me brinda com essas doses de alegria.
Mas nem sempre as notícias são boas. Faz poucos dias, fiquei sabendo da prisão de um antigo e estimado aluno. Soube também do falecimento de uma excelente aluna que tive. Um deles recebeu a notícia de HIV positivo no dia de sua colação de grau. Uma delas perdeu marido e filho no mesmo dia em acidentes diferentes. Outra perdeu a memória. Encontrei uma como apenada em um presídio durante um evento. Uma faleceu com o filho recém-nascido ao colo. No período da Pandemia, fui informado do falecimento de vários. Um cometeu o suicídio em pleno local de trabalho…
Essas tragédias também fazem parte da vida e nos trazem diversas lições. Resta-nos aprender com elas. As partidas, as despedidas, as boas e as más notícias fazem parte do uniforme dos professores. Um uniforme bastante digno e pesado, diga-se de passagem.
Começa um novo ano letivo e brevemente outros alunos estarão em sala de aula, e eu, como sempre fiz, continuarei pedindo que todos os deuses protejam cada um deles. Se tudo der certo, não tenho a menor responsabilidade por isso. Se algo sair errado, não será por falta de conselho ou de torcida.
Minha juventude já ficou para trás, mas ainda hoje desejo sucesso a todos os que ainda estejam em sua jornada terrena e uma boa acolhida a quem já partiu deste mundo e hoje se encontram em uma dimensão onde, talvez, nos encontraremos no momento certo e oportuno.


