Novos artigos de segunda #70
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| Fonte da imagem: Arquivo do autor |
UM MERGULHO NAS RELAÇÕES AMOROSAS
José Neres
(Para Laura Neres, que me emprestou o livro)
Li, ontem, em uma excelente
tradução de Fabiana Colasanti, o romance A House at the Bottom of a Lake –
Uma casa no fundo de um Lago (Intrínseca, 2018, 160 páginas), de Josh
Malerman, autor do bastante conhecido Caixa de Pássaros (Bird Box),
que serviu de base para uma adaptação para o cinema com título homônimo.
Trata-se de um livro de uma
leitura rápida e instigante, uma mescla bem equilibrada de breves cenas do cotidiano
com fantasias literárias que remetem o leitor a diversos questionamentos subjetivos.
Como se trata de um livro repleto de metáforas e de cenas que oscilam entre as
singelezas românticas, suspense e mistérios sem a necessidade de explicações, o
romance apresenta diversos tons narrativos e acaba agradando a diversos
públicos.
Um casal de adolescentes, ambos
com 17 anos – James e Amelia – entabulam um início de namoro e marcam um
primeiro encontro que sai do convencional. Os dois decidem fazer um passeio de barco em
um lago e, logo depois, adentram a um segundo lago. Tudo parecia tranquilo até
que eles descobrem uma passagem para um terceiro e misterioso lago, onde se
desenvolve a parte central da história.
É nesse terceiro lago que o casal
encontra uma casa submersa e decide explorá-la. No início, em um sistema de revezamento,
James e Amelia fazem algumas descobertas aparentemente sem muita relevância. Ao
mesmo tempo, de forma simbiótica, os dois jovens começam a explorar os próprios
corpos. É um livro sobre os mistérios das descobertas e sobre as possibilidades
que se apresentam diante do desconhecido e sobre até onde se pode avançar
quando estamos em um ambiente que pode apresentar surpresas.
Aos poucos, a Casa deixa de ser
apenas um ambiente para se transformar em um ponto de confluência entre os
desejos mais íntimos expressos pelo casal e a necessidade de explorar o
desconhecido. Os protagonistas não demonstram muito espanto diante das
descobertas e dos aparentes fenômenos sobrenaturais que permeiam cada descida
deles até a Casa, mas, ao mesmo tempo demonstram certo desconforto diante da
lembrança de interdições sociais e religiosas que lhes forma impostas. E isso é
bem representado na referência ao Éden à alusão à maçã com a consequente
expulsão do paraíso.
Nas entrelinhas do texto, o
leitor de depara como um novo e inocente casal que ousa desafiar as convenções
e explorar os indevassáveis mistérios. Não e à toa que esse arquétipo de Adão e
Eva acaba também passando por uma nova e metafórica expulsão do Paraíso. O Jogo
de claro e escuro revela muito mais do que um mero defeito na lanterna ou a
vontade de a Casa ficar imersa nas trevas ou cheia de luzes. Revela a constante
oscilação do ser humano entre o que considera certo ou errado, possível ou
impossível, permitido ou não.
James e Amelia se sentem vigiados
o tempo todo por indecifráveis olhos e por sons que se assemelham a sussurros e
gargalhadas. Ficam entre o conforto da suavidade das águas e o calor que emana
da sauna. Ou seja, ficam divididos entre o prazer das descobertas e as culpas
advindas dessas mesmas descobertas. Entre o Paraíso e o hipotético Inferno a
que poderiam ser condenados, caso fossem além dos limites estabelecidos por
algo ou alguém que jamais aparecerá fisicamente, mas que está vivo em seus
questionamentos
Na impossibilidade de retornar ao
Paraíso, o casal percebe que a convivência se tornou algo difícil, pois os dois
estão para sempre marcados por um passado que não pode ser compartilhado com as
demais pessoas. O sentimento de culpa parece acompanhar cada um deles. Porém, a
percepção do momento de separação e de retorno para o próprio EU é diferente
para ele e para ela, o que reforça o tom de mistério da narrativa. O desejo
derreteu como uma figura de cera diante de uma fonte de calor ou não passou de
um momento?
Não é à toa que desde o título do
livro – Uma casa no fundo de um lago – tudo se torna indefinido. Não se trata DA
casa específica nem DO lago em si, mas sim de UMA casa e de UM lago situados
distante de olhos alheios e protegidos pelas profundezas das indefinições e das
dúvidas que farão parte da história de cada um deles. Ao final, ela nutre o
desejo de separação, mas busca reencontrar a Casa onde foi feliz. Ele, por
outro lado, deseja continuar a relação amorosa, mas não consegue ver o que ela
enxerga.
De qualquer forma, o livro remete
ao fôlego e aos equipamentos humanos necessários para que alguém possa
mergulhar nas misteriosas profundezas de uma relação.
Mas é importante notar que o livro traz margens para diversas interpretações.

Muito boa analogia, eu me vi em uma certa época da minha vida no seu texto. Desvendando minha casa pessoal misturada a vários sentimentos.
ResponderExcluirInteressante leitura sobre uma narrativa cheia viéses, que aborda a inocência das descorbertas (mais) íntimas quanto os paradigmas sócio-religiosos que sempre descerram a pesada cortina do pecado para desestimular tais descobertas.
ResponderExcluirParabéns, professor!