PRIMEIRO DE MAIO
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| Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial |
APENAS MAIS UM DIA
José Neres
O dia não foi dos melhores.
Bem cedo, ao acordar, sentiu uma terrível câimbra que quase não o deixava levantar-se da velha, mas bem asseada cama.
Ainda no vaso sanitário, percebeu que o papel higiênico havia acabado e, pior ainda, por falta de pagamento, o fornecimento de água havia sido cortado.
Tomou um café fraquíssimo, sem açúcar, com um pedaço de pão seco. Na volta traria dinheiro para um café decente.
Como não tinha dinheiro para a passagem de ônibus, encarou oito quilômetros e meio a pé, para fazer um “bico” para o qual havia sido indicado e que lhe renderia uns trocados para pelo menos sobreviver até a próxima semana.
Foi um dia exaustivo de trabalho, com direito apenas a uns copos d’água e a poeira na cara.
Terminada a tarefa, a dona da casa veio, com um sorriso cínico, avisar que só poderia fazer o pagamento no dia seguinte. Engoliu seco e começou a imaginar o longo caminho de volta, a pé. E com mais fome ainda na bagagem.
Cerca de duas esquinas antes de sua casa, sentiu que a bolotinha que segurava as tiras da chinela acabava de soltar. Foi salvo por um prego que avistou metros à frente e por uma pedra de médio porte que serviu como um martelo improvisado.
Àquela hora, a mulher já deveria ter saído para o trabalho noturno em uma loja de conveniência, onde ganhava quase nada, mas, pelo menos, graças à bondade da patroa, recebia um lanche perto da meia-noite. Geralmente, comia a metade e levava o restante para o filho.
O menino também já devia ter chegado em casa. No colégio dele quase nunca tinha aula, mas pelo era servida de segunda a sexta uma merenda, quase sempre um suco ralo com alguns biscoitos.
A sensação de vertigem era grande. Mas já estava a alguns passos de casa. De repente, lembrou-se de um ovo que restara do dia anterior. Aquele ovo e um pouco de farinha eram os únicos alimentos que provavelmente existiam naquele casebre miserável.
Finalmente chegou. Apenas o filho estava em casa. Oito anos. Brevemente já estaria ajudando no sustento do lar. Talvez vendendo coisas na rua, ou ajudando o pai no trabalho pesado. Era importante trazer um pouco de dinheiro para casa.
Mal chegou, e o filho foi logo avisando que não teve lanche naquele dia. Havia faltado água na escola e todo mundo foi mandado para casa mais cedo. Estava com fome. Com muita fome.
Percebeu que o sonho do ovo com farinha ia ficando mais distante. O menino era prioridade.
Sorte que ainda tinha gás. Pegou a frigideira, colocou nela um restinho de óleo, ligou o fogo e começou a preparar o ovo. Acrescentou a pouca farinha que tinha, colocou um pouquinho de sal, colocou tudo em um prato raso e levou a comida para o filho.
A fome e o cansaço eram imensos. Acabou cochilando sentado na cadeira da cozinha. Despertou com um barulho estranho. Era o filho jogando a farofa no saco de lixo.
- Comida ruim da peste!
Foram o cansaço, um restinho de dignidade e a memória que impediram que ele se jogasse de corpo, alma e fome naquele saco de lixo. Lembrou-se que era ali onde provavelmente a esposa havia jogado as folhas de caderno que substituíam o papel higiênico naqueles momentos de crise.
Mesmo sem poder banhar-se, com o corpo suado e dolorido, jogou-se na cama.
Amanhã... quem sabe?
