segunda-feira, 30 de março de 2026

UMA PALESTRA NA CCJM

 Novos artigo de Segunda # 75


MONTELLO: UM HOMEM VESTIDO DE PALAVRAS

 José Neres


         Voltemos mentalmente para fevereiro de 1985, quando Josué Montello colocou o ponto final em suas Confissões de um romancista, ensaio literário que agora, mais de quatro décadas depois, deixa de existir apenas como estudo introdutório do primeiro dos três volumes da coletânea Romances e Novelas, publicada no ano seguinte, em 1986, pela Editora Nova Aguilar, em coleção cada dia mais rara que contém 15 romances e 4 livros com novelas escritas e publicadas por Montello até aquele momento.

         Naquela volumosa e cada vez mais desejada coleção, que conta com quase quatro mil páginas, englobando estudos críticos, cronologia, bibliografia ativa e passiva, além de um texto introdutório que elucida boa parte das motivações montellianas na arte da criação textual, há também um interessante ensaio inicial. Esse ensaio tem como título Confissões de um Romancista. E é assinado pelo próprio Josué Montello.

         Façamos agora, senhoras e senhores, um breve exercício mental. Voltemos quatro décadas no tempo, quando aquele texto foi publicado, exatamente em 1986. Naquela época internet, o mundo e a vida cotidiana já eram acelerados, mas não tanto quanto agora. Ainda não vivíamos no império tacocrônico e tacocrático tão estudado e discutido pelo professor Mário Sérgio Cortella e por outros pensadores contemporâneos.

         Naquele aparentemente distante ano, as pessoas passaram horas com a cabeça erguida à espera da passagem do Comenta Harlley. Talvez por estarem com a cabeça nas nuvens, nem mesmo se lembraram que aquele ano foi considerado pela Unesco (Organização das nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como o Ano Internacional da Paz. Da mesma forma, mesmo com os olhares fixos no céu, não nos lembremos da fatídica explosão do ônibus espacial Challenger, menos de um minuto e meio após sua decolagem. Talvez nem mesmo nos lembremos que, naquele mesmo ano, na Ucrânia, o acidente nuclear de Chernobil tomava conta das manchetes dos jornais e das revistas.

         Porém, talvez algumas pessoas ainda tenham em sua memória a vitória da seleção Argentina sobre o time da então Alemanha Ocidental, por 3 a 2, na final da Copa do Mundo, e da greve geral contra o Plano Cruzado, que havia sido anunciado no segundo mês daquele ano e aprovado em abril. No meio de tantos momentos icônicos, poucas pessoas também talvez se lembrem que enquanto os três volumes da obra de Montello eram “rodados” nas gráficas da editora, cerca de 1800 pessoas perdiam a vida por causa da exposição de dióxido de carbono na África, mais exatamente em Camarões, um de nossos países irmãos.

         Naquele mesmo ano, perdíamos nomes como o grande músico Nelson Cavaquinho e o galã cinematográfico Cary Grant, ator imortalizado por filmes como Ladrão de casaca (1955) e Alice no País das Maravilhas (1933). No mesmo ano, chegavam às telas dos cinemas filmes como Highlander (com Cristhofer Lambert e Sean Connery), Curtindo a Vida Adoidado (com Mattew Breoderick), Top Gun: Ases Indomáveis (com Tom Cruise), Platoon (Com Charlie Sheen e Willem Dafoe), Crocodilo Dundee (com Paul Hogan) e Eu sei que vou te amar (de Arnaldo Jabor, com Fernanda Montenegro e Thales Pan Chacon).

         Na literatura, escritores como Juan Rulfo (Pedro Páramo), Jorge Luis Borges (Ficções), Origenes Lessa (Rua do Sol), Alexandre O’Neil (Abandono Vigiado), Simone de Beauvoir (O Segundo Sexo) e Josué Guimarães (Dona Anja) saíam do mundo terreno e deixavam suas obras para a posteridade.

         Ao mesmo tempo, as rádios brasileiras eram embaladas por canções como Perigo (Zizi Possi), Tempo Perdido e Eduardo e Mônica (Legião Urbana), Quando Gira o Mundo (Fábio Junior), Demais (Verônica Sabino), Vida Louca Vida (Lobão) e Só a Lua (Absyntho), Retratos e Canções (Sandra de Sá), Melô do Marinheiro (Paralamas do Sucesso) e Do Leme ao Pontal (Tim Maia), entre outras.

         É, senhores e senhoras, o mundo vibrava em outro ritmo. Não sei se melhor ou pior do que o ritmo de hoje.

         Mas o que tem a ver Josué Montello com todo esse contexto histórico? Tudo, claro!

Ele foi um homem que viveu intensamente todas as épocas por que passou. Ele estava atento a todos acontecimentos e muitos deles foram aproveitados como temática principal ou como pano de fundo para a produção de sua obra. Montello tinha o hábito salutar de anotar em diários suas impressões sobre os acontecimentos vividos por ele, como muito bem já escreveram os pesquisadores Mauro Cézar Vieira e Saulo Barreto em suas respectivas dissertações de mestrado.

Talvez mesmo sem perceber, Josué Montello prestou um relevante serviço a quem possivelmente ainda nem havia nascido quando suas Confissões de um Romancista chegaram às mãos dos leitores há quarenta anos. Os períodos iniciais do livro são simples, diretos, descritivos e incontestes:

Nasci a 21 de agosto de 1917, em São Luís, numa casa que ainda hoje existe, na esquina da Rua dos Afogados com a Rua do Pespontão. Casa simples de duas janelas e uma porta, rente à calçada.

         Pronto. Já no início deste primeiro parágrafo o leitor já se depara com o estilo elegante de Josué Montello. O mesmo cuidado estético que ele tinha na construção de suas personagens ele também utilizou para falar de si próprio, de seus livros e de diversas passagens marcantes de sua vida até então. Ela não nega que a inspiração para o ensaio veio da leitura de Como e por que sou romancista, biografia literária escrita por José de Alencar e que vem encantando diversas gerações de pessoas apaixonadas pela literatura ao longo de várias décadas.

         Aos poucos, o leitor passa a perceber como uma enfermidade e a presença constante da ideia de morte moldaram não apenas um grande leitor, mas também um futuro escritor preocupado com o que narrar e como narrar. A leitura de autores como Samuel Butler, Miguel de Cervantes, Eça de Queirós, Maranhão Sobrinho, João Ribeiro, Rachel de Queiroz, Amando Fontes, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, James Joyce, Willian Faulkner, Guimarães Rosa, Michael Gold, Lúcio Cardoso, Stendhal, Balzac, Anatole France, Shakespeare e Göethe, entre tantos outros acabou servindo para solidificar um estilo que sempre esteve em construção, pois o autor jamais estava satisfeito com o próprio texto e buscava sempre aperfeiçoá-lo.

         Montello mesmo declarou em suas Confissões que ele “não lia apenas – sobretudo aprendia”, que ele bem cedo ficou sabendo que “a literatura é uma aprendizagem permanente” e que é preciso mergulhar nos clássicos, “não para imitá-los, mas para aprender com eles”. Porém, mesmo talvez sem perceber, muito cedo Montello deixou (sem jamais deixar de verdade) a condição de aprendiz, para tornar-se um mestre. Um mestre na arte de tecer narrativas com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Um mestre na arte de criar mundo paralelos nos quais os leitores podem conviver com personagens que mesclam ficção, história e aparentes realidades.

         Contudo esse livro talvez nem existisse, caso não fosse um breve episódio narrado a seguir. O ensaio teórico que abriria o primeiro volume dos Romances e Novelas de Josué Montello ficou a cargo do crítico e escritor maranhense Franklin de Oliveira, que há alguns anos já estudava a obra montelliana e que ficou de ajustar alguns textos já publicados para entregar à editora. Mas, por algum motivo, esse texto introdutório não foi entregue a tempo, o que acabou obrigando o próprio Montello a escrever sobre sua própria obra. No final, o público leitor acabou ganhando duas vezes: primeiro, por poder entrar em contato com as confissões narradas pelo próprio ficcionista; segundo, porque, anos depois, mais exatamente em 2017, o ensaio de Franklin de Oliveira veio público graças aos esforços da professora, escritora e ensaísta Arlete Nogueira da Cruz, que editou o livro A Obra Romanesca de Josué Montello, que ajuda a complementar a compreensão dos livros do autor de Os Tambores de São Luís.

         O livro que agora, graças aos esforços da equipe da Casa de Cultura Josué Montello, se desvincula fisicamente do primeiro volume da Coleção Biblioteca Luso-Brasileira e passa a ter uma vida independente, é uma obra essencial e extremamente necessária para todos os admiradores e estudiosos da produção intelectual montelliana. Em cada página o leitor encontrará alguma surpresa, alguma confissão que só poderia sair da lavra de quem dominava a arte de contar uma história criando laços e apertando nós, sem que nós percebamos que, de alguma forma estamos enlaçados nesses nós.

         Muito mais do que simples ou indiscretas confissões, o livro está repleto da humana sensação da possível falibilidade de alguém que almejava a perfeição na escrita. De alguém que reconhece suas angústias e que reconhece que as palavras eram suas vestes mais ajustadas e perfeitas. E que, aos despir-se dos vernáculos tornou-se ainda mais humano, mas mortal e mais imortal ao mesmo tempo.




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