sexta-feira, 29 de novembro de 2024

19. COELHO NETO

 Coelho Neto (1864-1934) foi um dos mais importantes ficcionistas da literatura brasileira. Conhecido por seu vocabulário empolado e por sua vasta produção, esse escritor foi por diversas vezes eleito o Príncipe dos Prosadores Brasileiros. Porém sua obra, com o tempo, acabou caindo no esquecimento.





COELHO NETO

José Neres 

( A Alice Moraes)


Ele foi o grande príncipe da prosa,
Dono de rica e invejável cultura,
O último heleno da literatura,
A palavra era seu ramo de rosa.

Tentaram cavar-lhe uma sepultura,
Quiseram colocar sua obra à prova,
E de esquecimento dá-lhe uma sova,
Mas seu gênio resiste à cova escura.

Foi homem de talento sem igual,
Conquistou a Capital Federal…
Vencer um turbilhão foi seu projeto.

Ele, mesmo enfrentando tanto veto,
Provou que a morte não é um final 
E deixou seu nome: Coelho Neto.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

LÍNGUA ESPANHOLA NAS ESCOLAS

 EU DEFENDO O ESTUDO DA LÍNGUA ESPANHOLA NAS ESCOLAS PÚBLICAS 

José Neres


Não sei se já é oficial ou se é apenas mais um desses boatos que infernizam nosso dia a dia, mas vejo com extrema preocupação a notícia de que irão retirar a Língua Espanhola das escolas públicas do Maranhão.

Primeiro, não conheço algum estudo sério acerca da educação que comprove que retirar uma disciplina que pode levar o estudante a vislumbrar novos horizontes linguísticos e culturais seja bom para o alunado. A bem da verdade devo confessar que não tenho visto/lido estudos sérios sobre a educação em nosso Estado ou em nosso país.

Já cometeram o primeiro equívoco ao converter a disciplina Língua Espanhola em Cultura Hispânica/Espanhola e, por um motivo desconhecido e sem a menor base científica, retirarem do conteúdo programático os elementos linguísticos que compõem a essência da Língua Espanhola, já que o elemento básico da transmissão cultural de um povo perpassa pelo conhecimento da língua.

Já cometeram o equívoco de lotear esse componente curricular para professores que não tiveram formação acadêmica para trabalhar a disciplina. Será que em Educação vale tudo? Será que em Educação professores, alunos e toda a comunidade podem servir como instrumentos para experiências que visivelmente não darão certo?

Mas parece que não se contentaram com os equívocos anteriores e resolveram que eliminar tais falhas daria muito trabalho. Então é muito mais fácil eliminar a aparente fonte primária do problema: “Elimine-se a disciplina como um todo!”

Mas, em um caso desse porte, esses pensadores da educação não estão tirando da estrutura oficial apenas um componente curricular. Estão, sim, eliminando o sonho de uma gigantesca quantidade de pessoas.

Para que, então, milhares de professores sentaram anos e mais anos em um banco de uma universidade/faculdade a fim obterem uma formação sólida que lhes permitisse exercer sua profissão com toda a dignidade necessária para fazer cada aluno aprender da melhor forma possível? Onde ficam os sonhos de tantos graduando e graduados que sonham em exercer a profissão para a qual tanto estudaram?

Já sei! O sistema administrativo não se preocupa com os sonhos e problemas individuais… o mais importante é o bem coletivo… surge então outra dúvida: a coletividade foi ouvida? Foi feita uma pesquisa? E se tal pesquisa foi feita, quais os critérios e métricas foram utilizados? Ah, pode ser algo apenas interno… tudo bem, mas, então, por onde anda a transparência que é tão alardeada quando os interesses imperam?

E se o discente tiver o sonho de aprender a Língua Espanhola na escola, onde fica então o tão propalado projeto de vida? Onde fica a busca do protagonismo? 

E se o aluno quiser marcar a opção de Língua Espanhola na hora das provas do Enem e dos vestibulares da vida? Será justo já entrar em um concorrido jogo que define parte de nosso futuro com mais um peso da desigualdade nas costas?

Acredito que já tenha passado da hora de levar a educação a sério. Em um país praticamente cercado por falantes de Língua Espanhola, tirar o direito de alguém ter opção de estudar outro idioma é uma maldade sem limite. É uma violência silenciosa que busca silenciar ainda mais quem nunca teve tantas oportunidades…

Espero que seja apenas um boato… Espero que alguém não tenha dito a infeliz ideia de acreditar que, tirando oportunidades, a formação das pessoas dará um salto de qualidade… Espero que seja apenas boatos… Não quero acreditar que alguém seja capaz de tanta maldade e, ao mesmo tempo, defender a ideia de que esteja lutando pela educação.


#FicaLinguaEspanhola

domingo, 24 de novembro de 2024

VIANA

 




VIANA
José Neres 
(Para Lourival Serejo)

Entre os lagos e o Largo da Matriz
Sobem e descem ladeiras de pedra.
Ali, na história, um segredo medra,
Mistério que o povo ecoando diz.

Ali, o subir e descer das águas
Alterou a geografia das ruas
Deixando-as tantas vezes quase nuas
Com vidas afogadas em mil mágoas.

Em cada esquina uma casa, uma história,
Em cada rosto cansado, uma glória.
Foi ali que ontem e em tempos atuais 

Viveram grandes intelectuais:
Dilu, Edith, Celso, Anica, Mohana,
Dilu e Os Lopes - orgulhos de Viana.

domingo, 17 de novembro de 2024

UM CORDEL PARA ARLETE

Faz um bom tempo que conheço a professora e escritora Arlete Nogueira da Cruz e tenho muita admiração por ela como pessoa e como intelectual.

Segue abaixo uma tentativa de texto que fiz em homenagem a essa grande dama de nossa literatura.

O autor do texto, com Nauro Machado e Arlete Nogueira da Cruz. Fonte: Arquivo pessoal do autor


ARLETE - DAMA DA LITERATURA 

José Neres


Vou puxar o meu banquinho,
Temperar minha garganta,
Vestir meu terno de linho,
Deixar pra depois a janta,
Pedir com todo carinho
Um favor a minha Santa.

Pois preciso de talento,
De muito talento essa hora,
Para falar a contento
De uma nobre senhora
De um olhar sempre atento
Ontem, amanhã e agora.

Como eu não sou um poeta
Cada verso meu é um parto
Minha rima é sempre incerta
Cada estrofe, um sobressalto
Mas uma coisa é bem certa:
Nossa língua não maltrato.

Essa senhora merece 
Toda consideração,
Pois de ninguém ela esquece
Dá a todos muita atenção.
Sua presença enobrece 
Qualquer festa, ato ou salão.

O nome dela é Arlete
Nogueira da Cruz Machado,
Nome que o povo repete
Quase sempre admirado
E de quem a nós compete
Lembrar presente e passado.

Foi numa estação de trem
Que ela ao mundo chegou.
Em Cantanhede também 
Ela jovem estudou,
Nas igrejas disse amém,
Nas ruas,ela brincou.

Sua mãe - dona Enói - tinha
Muita poesia na veia.
Ela nunca se continha
E tecia uma grande teia
De versos que leu sozinha
Em noites de lua cheia.

Raimundo Nogueira Cruz,
Seu bom pai muito estimado,
Era homem que fazia jus
A seu honesto ordenado
De agente cheio de luz
Com estrada a seu cuidado.

Estudou Filosofia 
Em um centro federal
Estudava a noite e dia
Os autores em geral
De tudo ela conhecia
Tinha talento anormal.

Foi uma professora 
Muito bem conceituada,
Jamais ela foi opressora,
Sempre foi tão dedicada,
Que houve turma transgressora
Por ela sempre encantada.

Sobre Walter Benjamin 
Defendeu dissertação 
Na PUC do Rio e assim
Obteve mestrado então 
Com todo louvor, enfim,
Voltou a seu Maranhão.

Sempre foi tão estudiosa,
Sempre foi tão exemplar
Que mesmo sendo graciosa
Evitava namorar.
Recebia tanta rosa,
Mas sem se impressionar.

Um dia, ela conheceu 
Belo príncipe encantado…
Coração amoleceu…
E foi marcado o noivado
O casamento ocorreu…
Foi festa pra todo lado!

O marido era poeta.
Era por todos respeitado.
Dono de obra correta,
Entendia do riscado
Dizia de forma aberta:
“Sou Nauro Diniz Machado”

Um belo casal formava,
Viviam de namorico
Quando a lua se deitava,
O sol ficava mais rico
Logo, logo ali chegava
O pequeno Frederico.

Logo o menino cresceu
Bom artista se tornou
Para o cinema verteu
Muitas obras que assinou
Da mãe, litania leu,
Do pai, poemas filmou.

Litania, por sinal,
É um poema maior.
Uma velha passa mal
A cidade vira pó.
Tudo parece normal
De nada o mundo tem dó.

A obra de Arlete é bem vasta
Tem começo e bom final
Não é prosa que se arrasta 
De um modo tão banal
Para sabê-la ler basta
O “Trabalho Manual”.

Esse livro é composto 
De três obras em prosa:
“As cartas” - livro com gosto
De uma mastigada rosa,
Tem um mundo de desgosto,
Também vida gloriosa.

Já no “Compasso Binário”,
Um romance magistral,
O tema nada ordinário 
É um abuso sexual
Que teve como cenário 
Esta nossa capital.

Nosso mundo interior
Tem a estrutura abalada
Quando “A parede” o leitor
Pega na mão espalmada 
E percebe tanto primor
Numa história bem narrada.

Esse livro encantou 
Nosso Josué Montello 
Que logo se encarregou
De mandá-lo para o prelo.
Bem assim Cínzia ganhou
A vida sem paralelo.

Também para a criançada
Dona Arlete escreveu.
Essa obra foi lançada
E muita gente já a leu.
Nova edição é esperada,
Já que não empresto o meu.

Eram “contos inocentes”
Buscando novos ouvidos.
Eram histórias dolentes
De tempos tão bem vividos.
Eram segredos urgentes
De nossos povos sofridos.

Mas há um livro esquecido
Sobre a poesia atual
Do Maranhão oprimido 
Que só sorria em jornal.
Livro que anda sumido,
Mas aqui isso é normal.

Memórias brotam do sal
E do sol brotam também…
É esse livro magistral 
Que tanto artigo contém 
Sobre um tempo sem igual
Que já foi e não mais vem.

E que dizer d’O Quintal
Pleno de recordações?
Uma obra sentimental 
Recheada de emoções 
Em cada verso um sinal
Vários mundos, mil lições.

Arlete é tão generosa,
Pessoa quase perfeita
Seu nome não é de rosa
Mas começa a virar seita
De forma tão glamourosa
Me citou em sua “Colheita”.

Esse livro nos condensa
Toda a obra de uma vida,
Foi uma batalha imensa
Jamais antes resolvida.
É livro para quem pensa
Que a alma pode ser ferida.

Da crítica tem o dom,
Embora seja discreta.
Reconhece pelo som
A verve de um bom poeta.
Nada diz fora do tom,
Mas ao falar sempre acerta.

A palestra com mil Nomes 
E nuvens livro virou
Lá, de Assis a Gomes
Dona Arlete analisou.
Peço que esse livro tomes
Pra saber o que passou.

No caminho tinha um Rio
Rio de prosa e poesia
Um Rio cheio e vazio
Rio de dor e alegria
Rio de leito macio
Rio que não esvazia.

Além de muito escrever,
De publicar sua obra,
Arlete soube viver
Tudo o que a vida nos cobra.
Cumpre com cada dever,
Não comunga com manobra.

Sua obra já foi estudada
Até em vestibulares,
Teve tese dedicada
Para ela em vários lugares.
Sua leitura é indicada
Pra escolas e vários lares.

Depois que Nauro partiu 
Para a sua eternidade,
Outra missão ela assumiu:
Levar pra posteridade
Tudo o que ele produziu 
E hoje é grande novidade.

Desde então já publicou
Muitos livros do marido
Também sempre divulgou
Para o leitor tão querido
Tudo o que já encontrou
Sobre o bom Nauro perdido.

Caso queiras mais saber,
Sobre a vida dessa dama
E seu jeito de escrever,
Não carece tanto drama,
Recomendo logo ler:
Aquele livro te chama.

De dona Arlete eu sou fã,
Eu tenho até carteirinha.
Hoje mesmo, de manhã,
Rezando, só, na igrejinha
Pedi a Deus com todo afã:
“Proteja nossa amiguinha!”

Eu tinha muito a dizer,
Mas meu tempo chega ao fim.
Só me resta agradecer 
Por ter paciência assim
De ouvir este pobre ser
Todo cheio de conversinha.

Para essa mulher tão calma
E de tão bom coração 
Com toda a nobreza da alma,
Peço-lhes muita atenção 
E cinco salvas de palma
Vamos lá, caro irmão!

Muitas palmas ela merece.
De tudo é merecedora.
Sua voz é uma prece,
Na vida, é vencedora.
Todo o mundo ela conhece,
Tem nobre alma sonhadora.

Agora saio de fininho.
Já terminei meu trabalho.
Daqui levo meu banquinho,
O caminho não atrapalho.
Meu verso é bem fraquinho,
Mas é meu, embora falho
.


São Luís, 17 de novembro de 2024.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE

Novos artigos de segunda #10

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE

José Neres 

Quase que eu não conseguia escrever o texto de hoje. Depois de um dia cansativo, com aulas, palestras, e muitas outras atividades, o tempo foi escasseando, esvaindo-se pela ampulheta diária e me restou apenas um pouquinho de areia antes de virar esse mecanismo chamado corpo para aproveitar um novo dia que se aproxima (pelo menos espero)...

Como disse antes, quase que eu não conseguia escrever hoje. Mas Fátima saiu das sombras da memória e me fez lembrar que tudo passa. Tudo sempre passará… Foi ela que, sem querer, me ensinou que a primeira vez nós nunca esquecemos.

Mas você deve estar se perguntando: quem é Fátima? Que negócio é esse de primeira vez?... Fátima, ou Maria de Fátima, já não é - e faz muito tempo que já foi… que já se foi. Passou por minha vida, deixou suas marcas e partiu. Partiu sem que nem mesmo seu sobrenome eu soubesse.

Volto no tempo e revisito Maria de Fátima - possivelmente a menina mais bonita da escola. Devia ter uns treze anos. Justamente a minha idade na época. Estudávamos no mesmo colégio, mas não na mesma sala. Era muito bonita e trazia sempre um encantador sorriso como forma de recepcionar as pessoas.

Fátima, apesar da pouca idade, sabia conversar e tratar as pessoas com a cordialidade necessária para conquistar a confiança. Era bela, meiga e doce. Um dia, ela chegou a me oferecer um desses sorrisos e me chamar pelo nome. Logo eu, o garoto mais tímido, mais feio e mais sem graça da escola!!!...

Nesse mesmo dia - dizendo melhor - nessa mesma tarde -, Fátima também ofereceu a mim a primeira grande experiência que um garoto poderia ter ao entrar em contato com uma moça bonita. E que experiência!

Estávamos à porta da escola. Era final de tarde. Um calor abafado pronunciava uma noite fria. Foi quando ela passou e me dirigiu a palavra. Deu-me um sorriso, cumprimentou meu colega João Batista e se dirigiu a nossa professora.

Seu sorriso era encantador! Sua beleza era singular. A escola estava situada à beira de uma rodovia estadual e o dia corria normalmente. Tudo normal. Nunca imaginava que aquele final de tarde marcaria minha primeira vez na vida. Minha primeira experiência marcante. A mais definitiva…

Não ouvi o que Fátima disse à professora, mas ambas sorriram alto, bem alto, gargalharam saborosamente. Carinhosa, a professora chamou meu nome e o de João. Pediu um breve favor: deveríamos ir correndo à escola pegar uma pasta que ela havia esquecido na sala. Era preciso ir rápido. A escola estava para fechar.

A juventude nos dá velocidade nas pernas e bom fôlego nos pulmões. Gastamos menos de quatro minutos para realizar a tarefa. Tempo suficiente para que minha vida mudasse. Antes de eu sair correndo, registrei o majestoso sorriso de Fátima em minhas retinas. 

Mas, ao voltarmos, ela já não estava ali. Ou, melhor, ela estava ali eternamente fixada em uma poça de sangue. Eternamente fixada nos gritos dos demais alunos e alunas que, em lágrimas, tentavam proteger seu corpo dos olhares curiosos.

Um caminhão parado a alguns metros dali era a prova que faltava. Um motorista com as mãos na cabeça chorava em desespero diante do que restou de Fátima depois daquele acidente, depois do choque daquele caminhão abarrotado de tijolos contra aquele jovem corpo agora sem vida.

Fátima, sem querer, acabou me ensinando que nossa primeira vez diante da morte não se esquece.



quinta-feira, 7 de novembro de 2024

18 - CARLOS CUNHA

 A homenagem de hoje é para o professor, crítico literário, poeta, prosador e acadêmico Carlos Cunha, que muito contribuiu para o engrandecimento de nossas letras


Fonte da imagem: internet 

CARLOS CUNHA
José Neres 
(Para Wanda Cristina Cunha)

Ele acendeu as lâmpadas do sol,
Para iluminar apagada história 
Perdida em um moinho de memória,
Sem canto de Sabiá ou Rouxinol.

Ele das artes não quis ser farol,
Mas tantos caminhos iluminou,
Mas a tantas histórias transformou
Com suas aulas, com versos de escol!

Ele a arte da crítica dominava,
Várias obras dos jovens resenhava
E escrevia com intensa paixão.

No fim, lutando contra ingratidão 
E, chamando o tempo por testemunha,
Gravou um nome no ar: Luís Carlos Cunha

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

MAS... QUEM É LAURA ROSA?

 Novos artigos de segunda #09



MAS… QUEM É LAURA ROSA?

(José Neres)

Ontem, dia 03 de novembro, a convite dos organizadores da 17ª Feira do Livro de São Luís, tive o prazer de mediar uma mesa de conversa literária formada pela professora doutora Diomar das Graças Motta e pelo poeta Wybson Carvalho. O assunto era a vida e obra da escritora e educadora maranhense Laura Rosa, uma das homenageadas desta edição da Feira.

Hoje, é muito difícil alguém iniciar um estudo sobre a produção intelectual de Laura Rosa sem pelo menos citar os trabalhos da professora Diomar Motta, que é a principal responsável pela divulgação da obra da autora de As Promessas. Em sua fala, de modo bastante didático, a professora falou sobre a gênese de suas pesquisas e das dificuldades encontradas para localizar textos e documentos que ilustrassem suas descobertas.

Como incansável pesquisadora, a professora Diomar Motta também anunciou o lançamento de um livro contendo trinta e uma crônicas da Laura Rosa - textos garimpados em jornais e revistas com as quais a nossa Violeta do Campo colaborou desde tenra idade. Claro que essa notícia foi bem recebida e merece aplausos. 

Já o poeta caxiense Wybson Carvalho se dedicou a comentar sobre suas experiências juvenis, quando visitava a professora Laura Rosa na casa onde ela residia em Caxias e falou nos ensinamentos que recebeu durante esses contatos. Foi um momento carregado de emoção e de reminiscências, pois a memória afetiva é algo sempre importante na construção daquilo que somos.

O palestrante deixou bem claro que na época era ainda muito jovem para perceber a importância daquela mulher tão respeitada pelas pessoas da cidade. Contudo, parece que essa experiência deixou marcas profundas na vida desse poeta. E essas marcas produziram bons frutos.

Porém, fora do espaço destinado às palestras, uma outra situação chamava atenção: algumas pessoas faziam a seguinte indagação: “Que é Laura Rosa?”, “O que ela faz para merecer tal homenagem?”, “O que ela escreveu?”

Confesso que essas questões me incomodavam (e ainda me incomodam), mas o encontro serviu para comprovar que não estou solitário nesse fosso de incômodos. Os dois convidados da tarde também demonstraram que muitas vezes também são alvos de perguntas semelhantes.

Em breves palavras, podemos dizer que Laura Rosa nasceu há 140 anos, em 1⁰ de outubro de 1884, na capital maranhense, e faleceu na cidade de Caxias, em 14 de novembro de 1976, aos 92 anos. Foi professora, conferencista, poetisa, contista, cronista e inspetora de ensino. Publicou textos em jornais desde sua adolescência e é autora do livro As Crianças - uma pesquisa sobre educação no Maranhão, no Brasil e em alguns outros países; As Promessas, livro de contos que recentemente foi reeditado e que está disponível na internet, além do livro intitulado Castelos no Ar, que infelizmente até o presente momento não foi localizado. 

Laura Rosa foi também a primeira mulher a tomar posse na Academia Maranhense de Letras e fundadora da Cadeira 26 daquela Instituição. Mesmo mantendo intensa atividade intelectual em revistas e jornais, a obra dessa escritora acabou caindo no esquecimento e somente nas últimas décadas vem sendo resgatada e divulgada.

Não defendo a ideia de que Laura Rosa tenha ficado esquecida por ser mulher e por ser afrodescendente. Há tantos homens e mulheres brancos, mestiços, negros, indígenas… que também foram invisibilizados pelo tempo. Acredito que a principal causa do ostracismo desses escritores e dessas escritoras é que eles e elas ousaram escrever em uma sociedade que não valoriza seus autores. Isso parece ser imperdoável. Como assim ? Como alguém ousa desafiar a lógica e publicar livros que raramente serão lidos?

Ah, quando cheguei à Feira, para mediar as palestras, estranhei: “Nossa! Nenhuma das vagas está ocupada pelos carros!” Avancei uns metros e vi inúmeros veículos disputando vagas sobre as calçadas e uma multidão aos gritos. Era a transmissão do primeiro jogo da final de um campeonato. Ah, sim! Faz sentido! Dois times em campo sempre atraem mais público do que uma Violeta do Campo.

Difícil vencer essa batalha!

CLIQUE AQUI e leia outro texto sobre Laura Rosa 


sábado, 2 de novembro de 2024

17 - DAGMAR DESTÊRRO

 Nossa homenageada de hoje é a professora, prosadora e poetisa Dagmar Destêrro, (1925-2004), dona de uma vasta obra e que merece ser revisitada.



DAGMAR DESTÊRRO

José Neres 

(Para Joaquim de Oliveira Gomes)


Tinha olhos que espelhavam o céu 
Com limpidez de encantada manhã 
Pintou versos dispersos a pincel 
Em doce alegria sempre louçã.

A Vida desfilava num tropel,
Em conflito com a Morte - a irmã 
Com quem divide quarto de hotel
Com quem aprende a ser tecelã.

No desterro dessa vida de fel
Na qual só uma será campeã 
Sua obra guarda o gosto do mel…

De mel puro em torta de avelã 
Hoje, cada livro seu é um troféu 
A abençoar nosso eterno amanhã.

25 - FERREIRA GULLAR

 Fim de ano e também fim de projeto. Ao longo de vários meses, homenageamos duas dezenas e meia de escritores maranhenses.  Tudo começou qua...