Novos artigos de segunda #71
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MEU AMIGO INSEPARÁVEL
José Neres
Creio que eu estava com sete para oito anos quando fomos apresentados. Ele era bem mais velho do que eu e demonstrava ter muita experiência de vida. Lembro-me que fiquei encantado com sua sabedoria. Tudo o que eu lhe perguntava, ele me respondia. Às vezes demorava um pouco, mas sempre respondia.
Nos horários vagos, ele costumava me contar um monte de histórias bonitas. Príncipes, reis, heróis, seres encantados, aventuras, romances… Ele tinha um incrível arsenal de histórias. E isso me encantou desde nosso primeiro contato.
O tempo foi passando e um dia ele me disse que eu precisava dividir minha atenção com outros assuntos. Nem tudo na vida são aventuras. E um dia eu necessitaria ganhar a vida com o suor de meu rosto.
Paciente, ele me mostrou diversos caminhos que eu poderia seguir. Mesmo com minhas constantes hesitações, dúvidas e mudança de rotas, ele estava sempre ali, orientando-me sem impor suas vontades.
“O destino é seu. Você que sabe para onde quer ir e onde vai chegar. Meu dever de amigo é sempre apoiar você e oferecer um pouco do que aprendi durante minha longa existência”, disse-me um dia em que eu estava indeciso entre os números e as letras; entre os cálculos e a sensibilidade literária; entre a poesia das fórmulas e as fórmulas da poesia.
Decidi. Depois mudei de ideia. Voltei a estudar para mudar meus rumos.
Cada vez que eu me sentava para tentar aprender algo, meu amigo ficava ali, ao meu lado, fazendo o possível para que eu alcançasse meus objetivos. Passamos inúmeros momentos juntos. Todos felizes.
Passei no Vestibular para Letras e, no dia da matrícula, ele foi comigo para a Universidade. Todo orgulhoso do amigo que estava iniciando um novo trajeto em sua vida. Estranhamente, ele não pôde ir à minha formatura. Mas me deu todo apoio quando decidi cursar Comunicação Social. Na primeira semana não houve aula e ficamos vagando pelos corredores do prédio. Um dia lhe perguntei: “Você me aconselha fazer História?” “Aconselho e apoio”. Fiz.
Vieram outros cursos e ele sempre ao meu lado… Muitas pessoas tentaram nos separar. Mas não conseguiram. Por nossa amizade, decidi perder muitas festas, bons momentos na praia, alguns namoros e até algumas pseudo-amizades.
Quando tinha alguma dúvida, procurava-o e ele estava sempre disponível para um papo sobre qualquer assunto.
Lutei, trabalhei, viajei, voltei, envelheci… E ele sempre ao meu lado, atencioso e fiel.
Agora mesmo, ele está aqui ao meu lado. Olhando para mim e rindo. Sorrio de volta. Ele tem o dom de não envelhecer. Inclusive já me avisou que brevemente nos separaremos. Não por nossa vontade, claro, mas pelo simples fato de que “tudo passa, tudo sempre passará”.
É tarde. Hora de dormir. Já levei uma bronca: “Esse texto era para ter sido escrito na segunda-feira. Preste atenção!” Que bronca!
Hora de dormir. Hora de colocar meu velho amigo para dormir. Levo-o para a estante e lá ele se reúne com seus outros amigos e repousa tranquilamente.
Amanhã estaremos juntos de novo.
Ouço um boa-noite e apago a luz.
Obrigado pela companhia de sempre!
Obrigado por tudo!

Que bela descrição. Desde o início sabíamos de quem falava, no entanto a sua narração manteve o interesse aguçando a nossa curiosidade sobre o amigo tão querido. Obrigada, José Neres.
ResponderExcluirQue linda homenagem a seu grande amigo. O texto leve do jeito que ele merece. Joizacawpy
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