terça-feira, 17 de março de 2026

PROPOSTA INDECENTE

 Novos artigos de segunda #73


Imagem editada por Mhario Lincoln 


PROPOSTA INDECENTE

José Neres 


Sábado. 6:59 da manhã. O telefone toca. Atendo.

“Bom dia, professor!”

“Bom dia!”

“Desculpe-me pelo horário. “Provavelmente, o senhor não se lembra de mim, mas sou FULANA DE TAL e fui sua aluna há alguns anos na (Diz o nome da Instituição)”.

“Sim, lembro”.

“Obrigada. É o seguinte. Atualmente estou trabalhando (diz o nome do município) e estou responsável por um grande projeto de literatura para nossos alunos e gostaria de saber se o senhor pode ministrar uma palestra de uns quinze a vinte minutos sobre os autores maranhenses”.

“E quando será esse evento?”

“Na quinta-feira que vem. Sua palestra seria às cinco e meia da tarde. Coisa rápida, pois os meninos não gostam muito de palestra e ficam logo agitados. E como é uma escola pública, não temos como pagar transporte e hospedagem para o senhor, mas é pertinho e dá para o senhor chegar em casa de volta antes das dez da noite, se terminar antes das seis. Outro detalhe, não temos como pagar cachê, pois todo o dinheiro que arrecadamos só dará para o pagamento da banda que vai tocar das sete às nove, para o transporte dos músicos e para o lanche que vai ser distribuído. Mas o senhor não precisa ficar, para não sair muito tarde”.

“Hum-hum”.

“Então, o senhor pode vir?”

“Oh! Gostaria muito, querida, mas nas quintas-feiras trabalho o dia inteiro e não terei como ir. E na sexta-feira, bem cedo, estou em sala de aula.”

“Poxa, professor, que pena! Estava contando com o senhor. Tomara que da próxima vez dê certo. O senhor teria como indicar alguém?”

“É difícil indicar alguém assim em um prazo tão curto.”

Ouço um suspiro de decepção.

“Obrigada. Tchau. Desculpe pelo incômodo!”

“Até logo!”


Enquanto me arrumo para sair, fico pensando naquela conversa. Lembrei do excelente livro de João Ubaldo Ribeiro - O conselheiro come - sobre como o trabalho intelectual é visto pela sociedade.

Poxa! Perdi a chance de participar do evento. Eu só teria que faltar ao serviço, dirigir durante cerca de duas horas e meia. Falar durante alguns minutos. Provavelmente para jovens sem o menor interesse em me ouvir. Depois, fazer um lanche às  pressas. Voltar para casa enfrentando uma estrada em situação calamitosa. Perdi uma bela oportunidade de gastar tempo, fôlego, paciência, combustível e muito mais. 

Fica para a próxima!

Olhei para o relógio. Hora de sair. Era sábado. Mas o trabalho me esperava.

*****

PS: Claro que esse diálogo não aconteceu. Mas ele é uma colagem de algumas propostas indecentes que recebi durante minhas atividades docentes. Pior que aceitei algumas delas!

6 comentários:

  1. Realmente é uma proposta indecente. Estou rindo até agora. As pessoas esperam sempre algo gratuito, principalmente de se for educativo. Um professor pode trabalhar pela manhã, à tarde, à noite, estar sempre à disposição, transformar-se e adaptar-se às necessidades de outros. A lei só paga grandes shows que as multidões adoram. Obrigada pela reflexão, querido escritor José Neres.

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    1. Por incrível que pareça, situações como essa fazem parte do cotidiano.
      Obrigado pelo comentário!

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  2. Muito triste, o desvalor que tem a educação. Nada contra ter cachê pra músicos, mas dizer na cara que o trabalho do professor não vale nada, é demais.

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    1. Infelizmente, ouvimos isso quase todos os dias , das mais diversas maneiras!

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  3. Infelizmente situações assim são muito corriqueiras. E muitas vezes nos submetemos a elas.

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  4. Pois é, professor. Isso acontece o tempo todo com professores, desenhistas, atores, com quem quer que lide com essa coisa tão desvalorizada que é a cultura.

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