domingo, 5 de abril de 2026

NOSSAS VERDADES PARTICULARES

 Novos artigos de segunda #76


Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 

NOSSAS VERDADES PARTICULARES

José Neres 


Com os nervos à flor da pele, munidos de um arsenal de informações frágeis, fragmentadas e sem consistência teórica, geralmente adquiridas em vídeos de 15 a 30 segundos, todos os dias partimos para batalhas verbais que têm como objetivo precípuo mostrar que somos donos absolutos de todas as verdades do universo.

Não temos tempo, disposição e paciência para ouvir os argumentos alheios. E todos aqueles que ousam pensar diferente daquilo que pensamos entram em nossa mira, como se fossem pessoas perigosas que precisam ser abatidas ou, no mínimo, anuladas.

O direito ao contraditório é algo que só faz sentido quando nós mesmos nos sentimos vítimas. Os demais só têm o direito de permanecerem calados. Mesmo assim estarão sempre errados. Não importa o que digam. Se não coadunarem com nossas ideias, estarão erradas. E se, depois de muitas pressões, aceitarem nossos pensamentos, continuarão erradas, pois não têm o domínio de um vocabulário específico que apenas nós dominamos. Somos os donos de todas as verdades.

Não sentimos necessidade de parar para tentar compreender os pensamentos de nossos inimigos. Mas eles têm a obrigação de nos ouvir. E calados, de preferência. Eles têm muito a aprender com a nossa sabedoria, pois o conhecimento deles não passa de lixo e de escrotidão.

*** 

Uma fala como a descrita acima parece absurda. Porém ela condiz com o que vem acontecendo nos tempos atuais. 

Quando temos alguma ideia, devemos preocupar-nos não apenas com o que vamos dizer, mas também como vamos nos expressar e com quem estamos nos comunicando. Uma palavra fora de lugar ou mesmo uma entonação inadequada pode dar origem a um conflito de grandes dimensões. Exemplos disso não faltam. Basta atentar para nosso entorno.

Por um lado, isso pode ser bom, pois obriga o emissor a pensar antes de escrever ou de falar. Mas, por outro lado, esse incessante policiamento ideológico acaba censurando pensamentos que ainda nem foram elaborados e devidamente processados e tira o direito de alguém falhar, ser comunicado dessa falha e, após uma reflexão, corrigir ou não seu discurso.

No entanto, quando alguém (ou determinado grupo) se intitula Dono da Verdade, a fala do outro acaba sendo invalidada por interdições que vão além das palavras e ganham outras dimensões, que geralmente fogem ao controle até mesmo do censor.

Tais frases, palavras e atitudes podem passar a serem interpretadas não apenas por aquilo que elas comunicam, mas também por aquilo que poderiam comunicar, caso fossem inseridas em um outro contexto. Além disso, esses textos acabam contaminados pela leitura enviesada de quem os disseminou após uma análise pautada, quase sempre, em um “achismo” impregnado de tendências ideológicas e da intenção de culpar ou inocentar alguém por seu discurso.

Ou seja, quem se acha dono da verdade pode estar adquirindo o perigoso e impensável poder de transformar palavras ditas em fatos; pensamentos em crimes; crimes em dúvidas; e possibilidade de fala em medo. Isso éuito perigoso!

A liberdade de expressão sempre foi uma liberdade vigiada. A natureza dos discursos sempre foi ideológica. E as palavras sempre tiveram a possibilidade de serem deturpadas ao longo das múltiplas transmissões. Possivelmente, nem mesmo seja novidade, cada pessoa ou grupo alimentar suas verdades particulares, para depois colher os frutos dessa semeadura.

Mas isso assusta… e como assusta… Não apenas assusta, mas também persegue, silencia, anula e cala quem pensa diferente. 

5 comentários:

  1. Assusta muito, e confunde.

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  2. Observação valiosa, confrade, mestre e amigo, JOSÉ NERES. O individualismo atual supera tudo. A síndrome de "Deus: continua a existir de forma brutal. Não só mais em pessoas como INRI Cristo que se apresenta como a encarnação de Jesus, mas como um sintoma profundo de uma sociedade que desaprendeu a pensar e reagir coletivamente. Sem dúvida, vivemos uma das épocas mais duras da modernidade líquida que Zygmunt Bauman discutia: a transformação de dramas públicos em batalhas privadas, como se solidão, desigualdade, medo, fracasso e insegurança pudessem ser resolvidos apenas com esforço pessoal, autoestima ou autoproteção. O resultado disso é uma cultura em que o sujeito se fecha na própria sobrevivência, se convence de que bastam suas conclusões pessoais e não aceitam mais outro argumento que não o seu; abandonando qualquer compromisso com responsabilidade social. Bauman já advertia que uma sociedade assim produz pessoas mais ansiosas, mais frágeis e mais descartáveis, porque retira do espaço comum a possibilidade de amparo, luta e sentido. Parabéns, portanto, mestre, por me fazer pensar nisso, neste Domingo de Páscoa.

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    1. Obrigado pelo lúcido e necessário comentário, meu amigo.

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  3. Obrigada. Seu artigo trouxe uma importante reflexão. Ainda precisamos evoluir muito. Podíamos começar tendo menos leis, a maioria delas não serve para nada, exceto, para gerar confusão.

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