segunda-feira, 20 de abril de 2026

O COTIDIANO DESENREDO

 Novos artigos de segunda #79

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


NOSSO COTIDIANO DESENREDO POLÍTICO

José Neres 


No início deste ano, eu e os alunos do terceiro ano do Ensino Médio fizemos uma leitura conjunta do conto “Desenredo”, de João Guimarães Rosa.

No primeiro momento, eles leram o texto silenciosamente e anotaram os trechos nos quais tiveram alguma dificuldade. A seguir, após uma breve conversa sobre o autor e seu estilo, passamos para uma leitura em voz alta, parágrafo a parágrafo, identificando as personagens e compreendendo a trama da narrativa.

Praticamente todos os alunos consideraram que o texto era complexo e que a história não tinha sentido lógico, afinal, a história de Jó Joaquim e sua amada com triplo ou quádruplo nome dificilmente teria reflexo no mundo real.

Houve quem defendesse o chamado crime em defesa da honra, mas também houve quem aplaudisse o silencioso e resignado sofrimento amoroso do protagonista. No geral, o texto foi visto como complexo, mas bem escrito e inovador.

Contudo, a ideia da negação das evidências e da reconstrução de uma nova e higienizada biografia para quem havia enganado seus parceiros de modo deliberado causou certo desconforto no alunado. Alguém chegou a argumentar: “Isso não faz sentido. Ninguém seria capaz de esquecer tantas mentiras e traições e ainda defender quem traiu e mentiu!”

Mas…

Não é isso o que ocorre cotidianamente em nosso campo político? Biografias não são retocadas? Mentiras não são apagadas? Traições não são esquecidas? Pessoas não discutem e brigam para defenderem seus políticos preferidos? 

Mais do que uma fabulação amorosa, o conto “Desenredo” traz também uma oportunidade de reflexão sobre nossas paixões em todos os sentidos. De alguma forma, apagamos aquilo que não nos interessa e ressaltamos qualidades que às vezes somente nós somos capazes de ver em criaturas tão dissimuladas, cruéis e imperfeitas.

Um novo período eleitoral já está em pleno andamento e, mais do que nunca, as maquiagens biográficas estarão em evidência. Inúmeros Jós Joaquins desfilarão com o nome de seus candidatos no peito e jurarão que eles sempre foram honestos e fiéis ao povo e a suas propostas e promessas de campanha.

Mais…

Após a campanha, após as eleições e contagens oficiais dos votos, após a diplomação dos (re)eleitos, após a derrota dos adversários, tudo será lavrado em ata e uma nova verdade começará a vigorar. Não importa o que aconteceu antes, não importam as denúncias de corrupção, fraudes, desvios de verbas e tudo mais… Os eleitores apaixonados continuarão apaixonados e só conseguirão enxergar aquilo que lhes interessa. Cada grande erro de seus ídolos será visto apenas como um ligeiro deslize, algo sem importância e que deve ser relevado, mesmo que condenem violentamente uma ação semelhante ou até menos grave, mas que tenha sido executada por seus adversários políticos.

***

Não sei se os alunos compreenderam que os textos ficcionais podem ser lidos sob a perspectiva social e que a literatura possibilita diversas possibilidades de leitura e de interpretação.

Mas o importante é que eles entraram em contato com um texto de um dos mais talentosos escritores da língua portuguesa. Espero que eles tenham percebido que ler e estudar são duas das mais eficientes formas de rebeldia.

Tomara que alguém se torne um rebelde do bem e continue lendo e estudando.


3 comentários:

  1. Concordo, ler e estudar são duas formas especiais de rebeldia, com chance de conseguir diferenciar o bem e o mal. Belíssimo texto, parabéns Prof. Neres, pela escolha do livro. Avante

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  2. Hilmar Hortegal ☝️☝️☝️☝️☝️

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O COTIDIANO DESENREDO

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