sexta-feira, 17 de abril de 2026

TRÊS SONETOS DE HORROR

 
Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 



PORTÕES ABERTOS
José Neres

Em homenagem ao amigo Dino Cavalcante, amante de imagens góticas 

I

Próximo à igreja, dois portões abertos
Sorriam às pessoas que ali passavam.
De limo eles estavam tão cobertos…
Sozinhos? É o que muitos pensavam…

De dentro, vários gemidos incertos 
Uns horríveis sofrimentos lembravam 
E mil gritos de vazios desertos
Pelos silêncios da noite ecoavam.

Mal os fluxos do dia eram cobertos,
Os internos dali se levantavam.
Volviam à condição de despertos.

Dali, os olhos dos mortos espiavam
Os dois portões do cemitério abertos
Resguardando passos que nunca davam.

II

Certa noite, diante dos portões 
Passou Mara, filha de Juvenal,
Professor que dera muitas lições 
E que pereceu após passar mal.

Sofrimentos e tantas decepções 
Anteciparam seu triste final.
Mara só lhe trouxe desilusões 
Isso era conhecimento geral.

Estavam apagados os lampiões 
Era noite de escuridão total
Então rouca voz surgiu dos grotões:

“Mara, ingrata filha, então, afinal 
Tu deixaste teus fétidos porões 
Nesta tão bela noite sem igual?”

III

Dos pés até a cabeça estremeceu
O corpo daquela mocinha ingrata,
A voz do pai logo reconheceu
Logo surgiu uma luz cor de prata.

Frio fogo cada portão derreteu
Passou voando uma grande barata
Feio morcego em seu ombro desceu
Luz em seus olhos girou em cascata.

“E quede Mara?” “Desapareceu”
“Faz anos que dela ninguém mais trata”
“Não suportou quando seu pai morreu”.

Quando alguma notícia ali se cata,
Para se saber o que aconteceu,
Só se vê uma igreja no meio da mata.

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


5 comentários:

  1. Excelente mestre e amigo.

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  2. “E quede Mara?” “Desapareceu”. “E quede Mara?” “Desapareceu”. Aqui uma prova incontestável de arcaísmo. É uma contração da expressão mais antiga "que é de" ou "que é feito de".
    Um resgate nobre para os amantes da língua. Especialmente das línguas regionais, como a maranhense. Usei muito esses termos. E ainda os uso. Obrigado por resgatar o nosso imorrível "quede", que ouvia sempre da minha avó, nascida em Rosário-Ma.👏👏🩷

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    1. Gosto dessas palavras e expressões arcaicas. Elas têm uma sonoridade especial

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  3. Muito bons, Mestre! Imaginei declamados ao redor de uma fogueira em noite de lua cheia! Mas também pode ser uma sala de aula do ensino médio! Abraço!

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