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O PREÇO DA CARIDADE
José Neres
Quarta-feira. 14:32h.
Quarto amplo. Ar-condicionado em 18⁰. Silêncio quase total.
Maurino desperta com o som do anúncio do recebimento de alguma mensagem. Uma hora dessas? Quem será? Todos os amigos e parentes sabem que ele só está disponível depois das dezoito horas.
Deve ser algo urgente.
Antes de ler a mensagem, vai ao banheiro urinar. A farra do dia anterior foi pesada. Não se lembra se eram cinco, seis ou sete mulheres. Todas muito animadas. Essa era uma das vantagens de nascer rico.
Preciso lembrar de colocar o celular no silencioso.
Mas havia aproveitados tanto a noite que isso era de menos. A última vez que havia se divertido tanto foi quando compadeceu a uma das festas organizadas por aquele banqueiro que agora era manchete nos noticiários.
Olhou-se no espelho. Até que não estava mal para quem chegava aos quarenta e dormia tão pouco. Seu físico esbelto, sua barba volumosa, seus longos cabelos e seu jeito de cantor sertanejo atraía bastante a mulherada.
Bocejou longamente.
Pegou o celular para ler a mensagem que o tirara de seu sono reparador. Ainda sonolento, demorou a reconhecer a autora dá mensagem.
Primo, desculpe o incômodo. Mas estou precisando de uma ajuda sua. Não sei você se lembra, mas me separei ano passado e você me disse que, se eu precisasse de algo, poderia pedir. E agora estou pedindo. Desde ontem que eu e minha filha não nos alimentamos direito. Não quero dinheiro, prefiro que você me doe uma cesta de alimento.
Tenho certeza de que você ainda se lembra onde moro. Nem a chave eu troquei.
Sua Francy.
[Foto] uma mulher ainda bonita, com aspecto cansada, de vestido justo, ao lado de uma mocinha de uns quinze ou dezesseis anos em uniforme escolar. Ambas sorriem.
Mas quem diabos seria Francy? Prima? Chave? Jogou água no rosto e de repente, voltou a olhar bem para a foto e tudo clareou. Óbvio. Francy, sua prima pobre e gostosona com quem ele teve um casinho faz uns três anos.
Mas o que era aquilo? Aquela era a filha dela? Nossa como cresceu! Ficou bonitona. Interessante!!!
Francy era uma prima distante. Sempre discreta, nunca lhe pediu nada e se contentava com rápidas passagens por motéis baratos. Um pobre amor de passoa! Merecia a ajuda.
Nunca gostou de ler nem de escrever. Preferia áudios. Mandou um. Do que mais você precisa? Onde entrego?
Minutos depois veio a resposta em forma de outro áudio. Apenas o básico mesmo. Era apenas uma emergência. Estava mais preocupada com Lena (a filha) do que consigo própria. Desde que Cavalcante (o ex-marido) fora embora, tudo estava muito difícil. Ela já estava trabalhando e em breve teria um salário para se manter juntamente com a filha. A menina ficava em casa sozinha pela tarde e poderia receber as mercadorias.
Droga. Nem lembrava desse tal de Cavalcante! Acho que ele trabalha com IA ou coisa parecida. Mas que áudio longo. Acelerou. Acelerou. Acelerou.
Passou a mão pelos longos cabelos que começam a branquear. Aquela última frase: a menina fica sozinha em casa pela tarde era bem interessante.
Tomou um banho. Não fazia diferença alguma para ele dar ou não o que Francy pedia. Ela era simplória demais para se zangar com uma negativa. E era gostosa demais para ser ignorada. E aí da por cima tinha a menina Lena.. Bem interessante!
Resolvido. Ia passar no supermercado do Shopping. Detestava fazer compras. Mas tudo por uma boa causa. Dá para fazer tudo em menos de duas horas.
Maurino vestiu sua calça mais apertada e partiu.
Arroz
Feijão
Macarrão
Carne
Frango
Enlatados
Frios
Frutas
Verduras etc.
Tudo de boa qualidade.
Por onde passava, chamava a atenção. Vez ou outra olhava para o relógio. Tem que dar tempo! Quase chegando ao caixa, soltou um palavrão para si mesmo.
Quase que esquecia o mais importante.
Aliviado viu que no próximo ao caixa havia o que procurava.
Acho que três pacotes de preservativo serão suficientes.
Ainda dá tempo. Agora era acelerar. Acelerar e acelerar. A tarde está longe de acabar. Toda caridade tem um preço...

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