Novos artigos de segunda #82
DOR E SOFRIMENTO NA POESIA DE MARIANA LUZ:
UMA BREVE LEITURA DE “MURMÚRIOS”
José Neres
Considerada uma das filhas mais ilustre da cidade de
Itapecuru-Mirim, Mariana Luz é uma daquelas celebridades que mereciam melhor acolhida
tanto por parte dos leitores, dos estudiosos da literatura como também dos
editores. Sua produção literária, embora não seja vasta do ponto de vista
quantitativo, apresenta enorme relevância poética e pode ser considerada uma
das mais significativas das letras maranhenses da metade do século XX.
Depois de um inexplicável período de olvido, sendo apenas
ocasionalmente citada em discursos e artigo esparsos, a autora de Murmúrios foi resgatada pela
pesquisadora Jucey Santana em um importante livro que reúne não apenas a
produção da poetisa maranhense, mas também boa parte da fortuna crítica a
respeito dessa escritora, recuperando também depoimentos sobre sua atuação como
educadora e outros detalhes até então pouco explorados. Em seu discurso de
posse, em 1998, Sálvio Dino, atual ocupante da cadeira 32, que foi fundada por
Mariana Luz, pouco se alongou sobre a escritora, mas não deixou de lembrar a
importância daquela intelectual que “nasceu e passou
toda a sua vida na cidade de Itapecuru, sempre integrada como professora
normalista à causa do ensino da juventude. Poetisa, escritora, teatróloga, teve
intensa colaboração na imprensa gonçalvina [e] que também deu valiosa
contribuição na luta que a mulher sempre enfrentou para conquistar o seu justo
lugar ao sol” (Dino, 2010, p. 198).
Mesmo constantemente esquecida
quando se trata de elencar os grandes poetas da literatura Maranhense, como
ocorreu, por exemplo, quando o crítico e historiador literário Assis Brasil
destacou os nomes mais representativos da poesia maranhense do século XX, em
alguns momentos, o talento de Mariana Luz foi ressaltado, lembrado e elogiado
por outros pesquisadores.
Clóvis Ramos, ao estudar a poesia de
expressão feminina no Maranhão, identifica no estro da autora de Murmúrios “uma
poesia triste, amargurada” (RAMOS, 1993, p. 22) filiada à estética simbolista.
A acadêmica Laura Amélia Damous destaca, além da atuação docente de Mariana Luz
em sua cidade natal, considerada uma “legenda querida e luminosa para todos os
itapecuruenses” (Dino, 2008, p 63), o fato de ela haver sido a segunda mulher
a ocupar (e também a fundar) uma cadeira na Academia Maranhense de Letras,
instituição para a qual foi eleita e tomou posse em 1949.
Em 1945, o crítico Crysósthomo de
Souza comentou ser a autora de Tronco
Velho “uma poetisa de apreciável estro (sendo que) suas produções
revestem-se de encantador lirismo, de uma suave musicalidade, em movimentos de
cores e luz” (apud Santana, 2014, p. 128). Consideração semelhante teceu o
escritor Nascimento Morais, que considerou Mariana Luz, como “uma das mais brilhantes
poetisas maranhenses” (apud Santana, 2014, p. 131). Lembrando os problemas
financeiros enfrentados pela escritora e sua saúde frágil, Felix Aires,
sucessor de Mariana Luz na AML, em seu discurso de posse recordou que a
escritora era também conhecida como “a poetisa das rosas; artista e pensadora,
a irmã das flores, como não poderia deixar de ser, pelo trato, pelo bom gosto e
afinidade, tinha predileção pelas mais variadas espécies de rosas (apud
Santana, 2014, p. 122).
Mesmo dotada de grande talento e
sendo reconhecida ainda em vida por seus versos e por sua atuação no âmbito da
educação, Mariana Luz não teve uma vida fácil e enfrentou ao longo de toda a
sua existência física provações ocasionadas pelos parcos recursos financeiros
que inviabilizaram, entre outras realizações, a publicação de seus textos
esparsos em forma de livro. essas dificuldades financeiras são lembradas em
muitos momentos por Jucey Santana em seu alentado estudo sobre a vida e a obra
de Mariana Luz. Segundo Santana (2014, p. 101), “na velhice, a poetisa enfrentou
muitas dificuldades pessoais e financeiras, em virtude da falta de vigor físico,
problemas de locomoção e visão deficiente, o que a incapacitava para o labor
diário”.
Além disso a escritora ainda passou
pelo dissabor de ter seu nome ridicularizado por detratores como o jornalista
Raimundo Cardoso, que passou a atacá-la pelos jornais, deixando de lado os dotes
artísticos da poetisa e destacando tanto suas origens humildes como sua raça e
aspectos físicos. Mas, mesmo com esses contratempos, a poesia de Mariana Luz
sobreviveu e seu livro Murmúrios,
mesmo com tiragem reduzida e edições com pouco apuro gráfico, tornou-se uma
referência quando se fala em boa poesia.
A edição utilizada para este estudo
é a de 1990, publicada pelo Serviços de Imprensa e Obras Gráficas do Estado do
Maranhão – SIOGE, e que conta com apenas duas dúzias de poemas distribuídos em
35 páginas. Embora no livro haja uma indicação de que a obra é composta por
sonetos, é importante lembrar que nem todos os poemas ali enfeixados podem
receber tal classificação. Uma edição com mais poemas pode ser encontrada no
anteriormente citado estudo elaborado por Jucey Santana, que traz diversos
outros textos de Mariana Luz, inclusive crônicas e outros gêneros literários.
Apesar da diversificação temáticas dos
poemas de Murmúrios, dois temas se
destacam: a Dor e o Sofrimento, que em muitos momentos formam elementos
complementares um do outro. Esses aspectos da produção poética de Mariana Luz
já foram detectados por outros pesquisadores como Santana (2014), para quem
“sofrimento, solidão e tristeza são temas muito explorado pela autora”, e Ramos
(1993), que lembra serem “raras as poesias de Mariana Luz onde o sorriso
desabrocha”. Dominando a forma e o uso das rimas, nos versos dessa escritora
existe uma espécie de “busca da arte pura”. conforme afirmou o
professor José de Jesus Moraes Rego (1990).
Lexemas como dor/ dolorida/ dolorosa
e outras que gravitam em torno do campo semântico de tristeza e angústia são
recorrentes ao longo de todo o livro. de certa forma, a escritora acaba
deixando claro para seus leitores que o ato de viver perpassa pela experiência
dos momentos difíceis. Em um dos primeiros poemas do livro, o eu lírico chega a
advertir para o fato de que quem viveu sempre cercado de bons momentos “sem
nunca pisar a via dolorosa”:
Não
viveu, vegetou, pois só em sonhos
É
que se gozam dias tão risonhos,
Sem
sentir uma dor, um mal pungente. (Luz, 1990, p. 15)
Mesmo sendo possível verificar ao
longo dos poemas um diálogo intertextual com Arthur Schopenhauer, ao insinuar
em seus versos que, assim como defendia o filósofo alemão, “embora toda a
infelicidade individual apareça com exceção, a infelicidade em geral constitui
a regra” (Schopenhauer, 1997, p. 227), a escritora itapecuruense negava ser
pessimista e chegou mesmo a retrucar ao poeta Leslie Tavares, que possivelmente
deve ter comentando sobre a ênfase dada por Mariana Luz à tristeza em seus
poemas. Ela responde com veemência que:
Julgaste
descobrir na minha pobre rima
Um
sofrimento atroz que me alanceia a alma, (...)
Mas
eu não sofro, crê, e do martírio a palma
Não
me cabe, pois sinto a chama que reanima... (Luz, 1990, p. 28).
Dessa forma, ela recusa a pecha de
ser alguém voltado para temas sombrios e negativos. Diante da insistência que
Leslie Tavares tem em demonstrar que a obra de Mariana Luz seja pessimista e
que isso possa ser um reflexo do eu da escritora, ela volta a negar dizendo:
Como
me julgas mal? Eu vejo encantos
Em
tudo o que me cerca, e os agros prantos
Não
me turbam da vida a calma infinda. (Luz, 1990, p. 29)
Claro que, como afirmou, Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”,
ou seja, nem sempre registra no papel o que verdadeiramente está sentindo,
podendo seus versos irem em sentido diametralmente oposto a seus sentimentos
mais imediatos. Então utilizando-se como parâmetro apenas os poemas, sem a
intensão de analisar psicologicamente a autora, é possível notar que seus temas
preferidos estão centrados em uma carga de pessimismo diante da vida. Mesmo em
um poema intitulado Risos (p. 25), a
tonalidade dos versos descamba para um ar de tristeza e desesperança.
De certa forma, assim como Camões questionou o chamado desconcerto
do Mundo, Manuel Bandeira passou uma “vida inteira que podia ter sido e que não
foi”, e Carlos Drummond de Andrade destacou seu modo gauche de ver o mundo, a escritora maranhense também demonstrou seu
descontentamento com o aparente desequilíbrio entre o que ocorre de bom e de
ruim para as pessoas. Em dois poemas que trazem imagens bem próximas, ela
lamenta que “Se para uns a vida é eterno gozo / Porque a outros ferir tão
duramente?” (LUZ, 1990, p. 12). Em outro poema, usando termos bem próximos, ela
“dialoga” com Raimundo Correia ao demonstrar que existe um sutil jogo de
essência e de aparências, máscaras que escondem um Mal Secreto que atormenta muitas pessoas, pois:
E
o mundo passa alegre e rumoroso,
E
para uns a vida é eterno gozo,
Eterno
paraíso.
Sem
ver que há dores, sofrimentos fundos,
Nascidos
nos mistérios mais profundos
...
ocultos num sorriso. (Luz, 1990, p. 16)
Essas dores e esses sofrimentos diversas vezes retratados nos
versos de ML às vezes encontram eco na figura da Morte, que constantemente é citada
em seus poemas, seja pela presença de cadáveres, como ocorre nas páginas 19 e 21,
seja pela certeza do não aproveitar a vida e sentir-se desesperançado (páginas
11, 12, 13 e 17, entre outras).
A presença da dor é intensificada pela certeza da efemeridade da
vida, da chegada da velhice ou do desperdício dos momentos de existência. Novamente
retomando o diálogo intertextual com Manuel Bandeira, a escritora itapecuruense
lamenta o fato de que:
É
inútil tentar. Ao longe, esguio
Vejo
um cipreste lúgubre, sombrio.
Morrer!
E vou morrer sem ter vivido. (Luz, 1990, p. 11)
Lendo os poemas dessa escritora tão lúcida, mas hoje também tão
esquecida, é possível perceber que a Dor e o Sofrimento se completam em seus
versos. Em sua poesia, embora ela mesma tenha negado, ecoam os gritos da angústia
humana e da certeza da efemeridade da vida. Mas também ao ler os versos dessa
escritora, fica evidente que ainda há um fértil campo de pesquisa tanto sobre
sua vida quanto sobre sua obra e que seus textos clamam não apenas por
reconhecimento, mas também por estudos que possam extrair deles o máximo
possível de informações e de possibilidades interpretativas.
Dor e o Sofrimento são apenas dois dos temas possíveis de serem
vistos na obra de Mariana Luz. Há muitos outros à espera de estudos mais
aprofundados em artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses. Mariana
Luz e sua obra oferecem aos estudiosos das letras um vasto campo a ser
cultivado.
REFERÊNCIAS
DAMOUS, Laura Amélia. As
Mulheres da Academia. In: AML, Livro do
Centenário – 1908-2008. São Luís, AML, 2008. p 62-65.
DINO , Sálvio. Discurso de Posse. In: AML, Revista da
Academia Maranhense de Letras, Vol. 22. São Luís: AML, 2010. p. 173-195,
LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.
RAMOS, Clóvis. As aves que aqui gorjeiam: vozes femininas na
poesia maranhense. São Luís: SIOGE, 1993.
REGO, José de Jesus
Moraes. A arte poética e a nova crítica.
In: LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.
SANTANA, Jucey. Marianna Luz: Vida e Obra e Coisas de Itapecuru-Mirim.
Itapecuru-Mirim. Edição da Autora, 2014.
SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e Paralipomena, São Paulo: Nova
Cultural, 1997. (Coleção Os Pensadores)
OBSERVAÇÃO: Este artigo foi publicado inicialmente no livro Púcaro Literário II, organizado por Jucey Santana e José Carlos Pimentel Cantanhede, em 2018.
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