domingo, 10 de maio de 2026

MARIANA LUZ

 Novos artigos de segunda #82




DOR E SOFRIMENTO NA POESIA DE MARIANA LUZ:

 UMA BREVE LEITURA DE “MURMÚRIOS”

José Neres

 

            Considerada uma das filhas mais ilustre da cidade de Itapecuru-Mirim, Mariana Luz é uma daquelas celebridades que mereciam melhor acolhida tanto por parte dos leitores, dos estudiosos da literatura como também dos editores. Sua produção literária, embora não seja vasta do ponto de vista quantitativo, apresenta enorme relevância poética e pode ser considerada uma das mais significativas das letras maranhenses da metade do século XX.

            Depois de um inexplicável período de olvido, sendo apenas ocasionalmente citada em discursos e artigo esparsos, a autora de Murmúrios foi resgatada pela pesquisadora Jucey Santana em um importante livro que reúne não apenas a produção da poetisa maranhense, mas também boa parte da fortuna crítica a respeito dessa escritora, recuperando também depoimentos sobre sua atuação como educadora e outros detalhes até então pouco explorados. Em seu discurso de posse, em 1998, Sálvio Dino, atual ocupante da cadeira 32, que foi fundada por Mariana Luz, pouco se alongou sobre a escritora, mas não deixou de lembrar a importância daquela intelectual que “nasceu e passou toda a sua vida na cidade de Itapecuru, sempre integrada como professora normalista à causa do ensino da juventude. Poetisa, escritora, teatróloga, teve intensa colaboração na imprensa gonçalvina [e] que também deu valiosa contribuição na luta que a mulher sempre enfrentou para conquistar o seu justo lugar ao sol” (Dino, 2010, p. 198).

            Mesmo constantemente esquecida quando se trata de elencar os grandes poetas da literatura Maranhense, como ocorreu, por exemplo, quando o crítico e historiador literário Assis Brasil destacou os nomes mais representativos da poesia maranhense do século XX, em alguns momentos, o talento de Mariana Luz foi ressaltado, lembrado e elogiado por outros pesquisadores.

            Clóvis Ramos, ao estudar a poesia de expressão feminina no Maranhão, identifica no estro da autora de Murmúrios “uma poesia triste, amargurada” (RAMOS, 1993, p. 22) filiada à estética simbolista. A acadêmica Laura Amélia Damous destaca, além da atuação docente de Mariana Luz em sua cidade natal, considerada uma “legenda querida e luminosa para todos os itapecuruenses” (Dino, 2008, p 63), o fato de ela haver sido a segunda mulher a ocupar (e também a fundar) uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, instituição para a qual foi eleita e tomou posse em 1949.

            Em 1945, o crítico Crysósthomo de Souza comentou ser a autora de Tronco Velho “uma poetisa de apreciável estro (sendo que) suas produções revestem-se de encantador lirismo, de uma suave musicalidade, em movimentos de cores e luz” (apud Santana, 2014, p. 128). Consideração semelhante teceu o escritor Nascimento Morais, que considerou Mariana Luz, como “uma das mais brilhantes poetisas maranhenses” (apud Santana, 2014, p. 131). Lembrando os problemas financeiros enfrentados pela escritora e sua saúde frágil, Felix Aires, sucessor de Mariana Luz na AML, em seu discurso de posse recordou que a escritora era também conhecida como “a poetisa das rosas; artista e pensadora, a irmã das flores, como não poderia deixar de ser, pelo trato, pelo bom gosto e afinidade, tinha predileção pelas mais variadas espécies de rosas (apud Santana, 2014, p. 122).

            Mesmo dotada de grande talento e sendo reconhecida ainda em vida por seus versos e por sua atuação no âmbito da educação, Mariana Luz não teve uma vida fácil e enfrentou ao longo de toda a sua existência física provações ocasionadas pelos parcos recursos financeiros que inviabilizaram, entre outras realizações, a publicação de seus textos esparsos em forma de livro. essas dificuldades financeiras são lembradas em muitos momentos por Jucey Santana em seu alentado estudo sobre a vida e a obra de Mariana Luz. Segundo Santana (2014, p. 101), “na velhice, a poetisa enfrentou muitas dificuldades pessoais e financeiras, em virtude da falta de vigor físico, problemas de locomoção e visão deficiente, o que a incapacitava para o labor diário”.

            Além disso a escritora ainda passou pelo dissabor de ter seu nome ridicularizado por detratores como o jornalista Raimundo Cardoso, que passou a atacá-la pelos jornais, deixando de lado os dotes artísticos da poetisa e destacando tanto suas origens humildes como sua raça e aspectos físicos. Mas, mesmo com esses contratempos, a poesia de Mariana Luz sobreviveu e seu livro Murmúrios, mesmo com tiragem reduzida e edições com pouco apuro gráfico, tornou-se uma referência quando se fala em boa poesia.

            A edição utilizada para este estudo é a de 1990, publicada pelo Serviços de Imprensa e Obras Gráficas do Estado do Maranhão – SIOGE, e que conta com apenas duas dúzias de poemas distribuídos em 35 páginas. Embora no livro haja uma indicação de que a obra é composta por sonetos, é importante lembrar que nem todos os poemas ali enfeixados podem receber tal classificação. Uma edição com mais poemas pode ser encontrada no anteriormente citado estudo elaborado por Jucey Santana, que traz diversos outros textos de Mariana Luz, inclusive crônicas e outros gêneros literários.

            Apesar da diversificação temáticas dos poemas de Murmúrios, dois temas se destacam: a Dor e o Sofrimento, que em muitos momentos formam elementos complementares um do outro. Esses aspectos da produção poética de Mariana Luz já foram detectados por outros pesquisadores como Santana (2014), para quem “sofrimento, solidão e tristeza são temas muito explorado pela autora”, e Ramos (1993), que lembra serem “raras as poesias de Mariana Luz onde o sorriso desabrocha”. Dominando a forma e o uso das rimas, nos versos dessa escritora existe uma espécie de “busca da arte pura”. conforme afirmou o professor José de Jesus Moraes Rego (1990).

            Lexemas como dor/ dolorida/ dolorosa e outras que gravitam em torno do campo semântico de tristeza e angústia são recorrentes ao longo de todo o livro. de certa forma, a escritora acaba deixando claro para seus leitores que o ato de viver perpassa pela experiência dos momentos difíceis. Em um dos primeiros poemas do livro, o eu lírico chega a advertir para o fato de que quem viveu sempre cercado de bons momentos “sem nunca pisar a via dolorosa”:

Não viveu, vegetou, pois só em sonhos

É que se gozam dias tão risonhos,

Sem sentir uma dor, um mal pungente. (Luz, 1990, p. 15)

            Mesmo sendo possível verificar ao longo dos poemas um diálogo intertextual com Arthur Schopenhauer, ao insinuar em seus versos que, assim como defendia o filósofo alemão, “embora toda a infelicidade individual apareça com exceção, a infelicidade em geral constitui a regra” (Schopenhauer, 1997, p. 227), a escritora itapecuruense negava ser pessimista e chegou mesmo a retrucar ao poeta Leslie Tavares, que possivelmente deve ter comentando sobre a ênfase dada por Mariana Luz à tristeza em seus poemas. Ela responde com veemência que:

Julgaste descobrir na minha pobre rima

Um sofrimento atroz que me alanceia a alma, (...)

Mas eu não sofro, crê, e do martírio a palma

Não me cabe, pois sinto a chama que reanima... (Luz, 1990, p. 28).

            Dessa forma, ela recusa a pecha de ser alguém voltado para temas sombrios e negativos. Diante da insistência que Leslie Tavares tem em demonstrar que a obra de Mariana Luz seja pessimista e que isso possa ser um reflexo do eu da escritora, ela volta a negar dizendo:

Como me julgas mal? Eu vejo encantos

Em tudo o que me cerca, e os agros prantos

Não me turbam da vida a calma infinda. (Luz, 1990, p. 29)

Claro que, como afirmou, Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”, ou seja, nem sempre registra no papel o que verdadeiramente está sentindo, podendo seus versos irem em sentido diametralmente oposto a seus sentimentos mais imediatos. Então utilizando-se como parâmetro apenas os poemas, sem a intensão de analisar psicologicamente a autora, é possível notar que seus temas preferidos estão centrados em uma carga de pessimismo diante da vida. Mesmo em um poema intitulado Risos (p. 25), a tonalidade dos versos descamba para um ar de tristeza e desesperança.

De certa forma, assim como Camões questionou o chamado desconcerto do Mundo, Manuel Bandeira passou uma “vida inteira que podia ter sido e que não foi”, e Carlos Drummond de Andrade destacou seu modo gauche de ver o mundo, a escritora maranhense também demonstrou seu descontentamento com o aparente desequilíbrio entre o que ocorre de bom e de ruim para as pessoas. Em dois poemas que trazem imagens bem próximas, ela lamenta que “Se para uns a vida é eterno gozo / Porque a outros ferir tão duramente?” (LUZ, 1990, p. 12). Em outro poema, usando termos bem próximos, ela “dialoga” com Raimundo Correia ao demonstrar que existe um sutil jogo de essência e de aparências, máscaras que escondem um Mal Secreto que atormenta muitas pessoas, pois:

E o mundo passa alegre e rumoroso,

E para uns a vida é eterno gozo,

Eterno paraíso.

Sem ver que há dores, sofrimentos fundos,

Nascidos nos mistérios mais profundos

... ocultos num sorriso. (Luz, 1990, p. 16)

Essas dores e esses sofrimentos diversas vezes retratados nos versos de ML às vezes encontram eco na figura da Morte, que constantemente é citada em seus poemas, seja pela presença de cadáveres, como ocorre nas páginas 19 e 21, seja pela certeza do não aproveitar a vida e sentir-se desesperançado (páginas 11, 12, 13 e 17, entre outras).

A presença da dor é intensificada pela certeza da efemeridade da vida, da chegada da velhice ou do desperdício dos momentos de existência. Novamente retomando o diálogo intertextual com Manuel Bandeira, a escritora itapecuruense lamenta o fato de que:

É inútil tentar. Ao longe, esguio

Vejo um cipreste lúgubre, sombrio.

Morrer! E vou morrer sem ter vivido. (Luz, 1990, p. 11)

Lendo os poemas dessa escritora tão lúcida, mas hoje também tão esquecida, é possível perceber que a Dor e o Sofrimento se completam em seus versos. Em sua poesia, embora ela mesma tenha negado, ecoam os gritos da angústia humana e da certeza da efemeridade da vida. Mas também ao ler os versos dessa escritora, fica evidente que ainda há um fértil campo de pesquisa tanto sobre sua vida quanto sobre sua obra e que seus textos clamam não apenas por reconhecimento, mas também por estudos que possam extrair deles o máximo possível de informações e de possibilidades interpretativas.

Dor e o Sofrimento são apenas dois dos temas possíveis de serem vistos na obra de Mariana Luz. Há muitos outros à espera de estudos mais aprofundados em artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses. Mariana Luz e sua obra oferecem aos estudiosos das letras um vasto campo a ser cultivado.

 

 

REFERÊNCIAS

DAMOUS, Laura Amélia. As Mulheres da Academia. In: AML, Livro do Centenário – 1908-2008. São Luís, AML, 2008. p 62-65.

DINO , Sálvio. Discurso de Posse. In: AML, Revista da Academia Maranhense de Letras, Vol. 22. São Luís: AML, 2010. p. 173-195,

LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.

RAMOS, Clóvis. As aves que aqui gorjeiam: vozes femininas na poesia maranhense. São Luís: SIOGE, 1993.

REGO, José de Jesus Moraes. A arte poética e a nova crítica. In: LUZ, Mariana. Murmúrios. São Luís: SIOGE, 1990.

 SANTANA, Jucey. Marianna Luz: Vida e Obra e Coisas de Itapecuru-Mirim. Itapecuru-Mirim. Edição da Autora, 2014.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga e Paralipomena, São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Coleção Os Pensadores)


OBSERVAÇÃO: Este artigo foi publicado inicialmente no livro Púcaro Literário II, organizado por Jucey Santana e José Carlos Pimentel Cantanhede, em 2018.

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