Novos artigos de segunda #80
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| Fonte da imagem: arquivo pessoal do autor Clique de Linda Barros |
UBIRATAN TEIXEIRA E EU
(José Neres)
Cheguei de volta ao meu Maranhão no final de 1986. Trazia na minha bagagem muito pouco da minha própria terra. Conhecia o nome de José Sarney, que era na época o presidente do Brasil conhecia também o mínimo da obra de Gonçalves Dias e Ferreira Gullar, autores e apareciam nas páginas dos livros didáticos adotado isso na minha antiga escola. Trazia na memória afetiva também a voz de Alcione, Ely Carlos, Cláudio Fontana e Nicéas Dumont, cantores que faziam sucesso em todo o Brasil. E nada mais!
Fui estudar na antiga Escola Técnica Federal do Maranhão - que depois virou CEFET e atualmente é o IFMA. Quis o destino que minha sala de aula ficasse a alguns passos da biblioteca daquela instituição de ensino. Então eu, ávido por conhecer um pouco mais de minha própria terra, passava os raros tempos livres entre as estantes daquele pequeno paraíso. A princípio, debrucei-me sobre os aspectos históricos, folclóricos e geográficos do Estado. Mas, uma bela manhã, encontrei um livro que me chamou atenção tratava-se da novela O Banquete, escrita por Ubiratan Teixeira.
Até aquele momento, eu não fazia a menor ideia de quem era Ubiratan Teixeira. Mesmo assim, levado pela curiosidade, resolvi pegar aquele pequeno livro e ler o seu conteúdo. Gostei. Procurei outros livros daquele mesmo autor, mas não os encontrei na biblioteca. Mas naquele momento nascia meu interesse pela literatura produzida por autores maranhenses. Depois, li João Mohana, Dagmar Destêrro, Bandeira Tribuzi, Nonnato Masson e muitos outros naquela mesma biblioteca.
Com o tempo, adquiri também o hábito de ler os jornais. Principalmente, o Estado do Maranhão, que tinha uma coluna muito interessante cujo título geral era "Hoje é dia de...". Foi um momento em que entraram em minha vida escritores como José Chagas, Jomar Moraes, Ivan Sarney e Oliveira Ramos, entre outros. E foi nas páginas daquele jornal que reencontrei o nome de Ubiratan Teixeira. Seu estilo era escorreito e coloquial ao mesmo tempo, carregado de ironias e com um evidente desejo de divulgar e defender a cultura maranhense. Não tenho a menor ideia de quantas crônicas dele eu li. Mas me lembro de que a cada semana eu aprendia bastante com as palavras daquele cronista.
Um dia naquele mesmo jornal encontrei uma reportagem sobre as bibliotecas particulares dos escritores maranhenses. Mesmo já acostumado com a pequena foto dele que aparecia na coluna, foi nessa reportagem que pela primeira vez encontrei mais informações sobre aquele escritor. Estava ele ali, diante de uma máquina de escrever, de camiseta, tendo ao fundo uma grande quantidade de livros. Até hoje guardo essa reportagem. Foi ela que despertou também em mim o desejo de viver cercado de livros.
Em 1998, comecei a publicar textos na página de Opinião do jornal O Estado do Maranhão. Enviei um texto sobre Ferreira Gullar, ainda pelos Correios, na certeza de que aquelas vinte linhas jamais seriam publicadas. Mas foram. A partir daquele momento, comecei uma série de colaborações que foram até o encerramento das atividades do jornal. Parece-me que o Ubiratan Teixeira lia alguns dos meus textos, pois umas duas ou três vezes ele citou meu nome entre os autores novatos que despontavam no cenário cultural maranhense. Para mim, ter meu nome em uma crônica de Ubiratan Teixeira era quase como ganhar na loteria.
Quando o doutor Jorge Murad criou o Festival Geia de Literatura, em São José de Ribamar eu fui convidado a ministrar uma palestra em uma escola. Foi quando eu conheci pessoalmente o escritor Ubiratan Teixeira. Foi um cumprimento rápido e algumas palavras amistosas. A partir daí, vez ou outra eu o encontrava em algum evento literário ou lançamento de livro. Muito cordato, ele me cumprimentava e trocava mas algumas palavras sobre literatura e teatro.
Em 2005, conquistei o prêmio Odylo Costa, filho, com o livro de contos Restos de vidas perdidas. Pouco depois, pela imprensa, fiquei sabendo que Ubiratan Teixeira havia sido um dos jurados do concurso, que muito me honrou, pois conhecia o senso crítico daquele leitor extremamente exigente. No ano seguinte, quando o livro foi lançado, autografei, um exemplar para ele, que nos honrou com sua presença. Lembro-me de que, depois de um sorriso amistoso, ele me disse: "Já li o trabalho e gostei bastante. Obrigado pelo livro". Pronto, com aquelas palavras meu livro ganhava mais um prêmio.
Anos depois, quando a AML, concedeu a medalha João Francisco Lisboa, meu nome estava elencado entre os contemplados. Foi naquela festiva à noite que tirei a foto que ilustra este artigo. Eu e Ubiratan conversamos sobre literatura durante vários minutos. Ele me deu uma verdadeira aula sobre teatro brasileiro e maranhense, sobre a cultura de nosso estado e sobre o abandono que em vivíamos. "Gosto muito de seu trabalho. Continue produzindo", disse ele antes de subir para o local reservado para os acadêmicos, pois o evento ia começar.
Em 2012 novamente encontrei nosso cronista na cidade de São José de Ribamar. Ele havia acabado de ministrar uma palestra e eu seria o próximo palestrante. Mas havia um intervalo entre os dois momentos. Foi quando nos sentamos próximo à Igreja e conversamos novamente. Naquela manhã, ele estava especialmente falante e me disse: "Quando você for se candidatar à Academia não esquece de me comunicar." Deu uma risada encantadora e saiu.
O destino prega suas peças. Na metade do mês de junho, 2014 em um final de semana no qual me isolei de todo o contato com as notícias, para concluir um trabalho, não fiquei sabendo de que aquele generoso cronista havia falecido. Segunda-feira bem cedo, ao assistir ao jornal, fui informado daquela triste notícia. Na época eu estava professor substituto da Universidade Federal do Maranhão e teria aula às 10:00. Arrumei-me mais cedo e decidir passar na academia para despedir-me daquele notável escritor.
Meses depois, quando foi aberta a vacância da cadeira número 36, instado por alguns amigos decidi candidatar-me àquela vaga. Fui eleito e no discurso de posse fiz um estudo sobre a vida e a obra de Ubiratan Teixeira, aqui agradeço pelas boas conversas, pelos excelentes textos e por toda a sua contribuição para a cultura maranhense.
Ubiratan é uma daquelas boas recordações que me acompanham na jornada de constante luta com as palavras

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