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MUITOS PARÊNTESES
José Neres
Os professores recebem as turmas (quase sempre lotadas), um apagador, um pincel (nem sempre dos melhores), uma lista de chamada (às vezes) e um “se vire” (sempre nas entrelinhas)...
No final, quando o resultado não é o desejável, os professores (isso sem dúvida) são acusados pelo fracasso.
Não importa o que aquele profissional da educação tenha feito, ele será apontado como culpado de toda uma gama de problemas: Não sabe ensinar direito (acusação feita por quem nunca assistiu a uma aula de didática), não tem controle de turma (observação de quem capitaneou as sessões de bagunça o ano inteiro), perseguiu Fulano, Sicrano e Beltrano (quem seriam esses?), não entregou os planejamentos (que são apenas arquivados, sem leitura) etc etc etc
Depois de tantas cobranças e de tantos percalços, o que se vê (em praticamente todas as instituições de ensino) são professores física e psicologicamente abalados. Muitos não têm mais energia para continuarem em sala de aula (mas precisam completar o tempo para aposentadoria), alguns pensam em mudar de profissão e outros (infelizmente) perderam o prazer de ministrar suas aulas.
Ao fazer as contas, o professor descobre que é obrigado a optar entre comprar alimentos ou pagar um plano de saúde (ou funerário). Fazer tudo é tentar fazer mágica, é ultrapassar os limites da lógica (que lógica?!?).
Um dia desses (segundo dizem. Não me chamem para testemunhar), um aluno (será?) encarou uma professora e disse: “O que a senhora ganha em um mês eu tiro em dois dias”. E soltou uma gargalhada. Era verdade. Ele era chefe de um ponto de tráfico. Não estudava, não tirava boas notas e não era muito frequente. Mas tinha tudo para passar de ano, caso não tivesse sido morto por um comparsa.
Ao levantar a cabeça (muitos têm medo disso), os professores verão um cenário tenebroso em sala de aula: vários alunos dormindo, diversos se divertindo com seus aparelhos celulares de última geração, grupos conversando, uns em torneio de jogo da velha, uma turma que só vai para a escola por causa de um benefício financeiros que (por enquanto) exige presença…
Vez ou outra, porém (casos cada vez mais raros), aparecem alguns alunos que veem na educação uma porta para a sobrevivência. Esses se tornam um foco de luz no meio das trevas educacionais. Como é bom receber notícias de que eles estão vencendo na vida a partir de seus estudos!!!!
Mas diante desses lapsos de alegria (raríssimos), tentando descansar um pouco a mente, os professores ligam a TV, acessam a internet ou escutam o rádio e descobrem (mais uma, duas, três vezes!) que são os culpados do caos educacional, pois não sabem ensinar (e isso dito por quem declaradamente decidiu não estudar!)
Não dá tempo de refletir sobre o assunto. O sinal vai tocar… será que ainda dá tempo de tomar aquele cafezinho com um biscoito de água e sal, antes de ir ao banheiro e voltar para a sala de aula? (Sempre dá!)
José Neres, José Casanova e Tony Mohana - foto de Antônia Nilda Alves Cruz
Novos Artigos de Segunda #88
UM ENCONTRO COM JOÃO MOHANA
José Neres
Estava muito tempo sem ir a Bacabal.
Nas minhas habituais viagens a serviço, passava pela BR e seguia caminho. No máximo parava em um restaurante, para depois seguir adiante.
Porém, em 2025, durante uma sessão da Academia Vianense de Letras, conheci o professor, escritor e ativista cultural José Casanova. Conversa vai, conversa vem e ele me perguntou da possibilidade de um dia eu ir a Bacabal para uma conversa sobre João Mohana.
Esse é o tipo de convite que não se recusa. A oportunidade veio agora por ocasião da II Semana João Mohana, realizada pela Academia Bacabalense de Letras, de 9 a 15 de junho de 2026.
Basicamente, eu iria reproduzir minha fala de um ano antes, mas para um outro público e com uma responsabilidade ainda maior. Afinal, o padre-escritor, que é um dos nomes mais representativos da prosa maranhense, é também uma das maiores personalidades nascidas em Bacabal.
Chegou o dia.
A data marcada era um desafio para toda a equipe organizadora do evento: 12 de junho - não era apenas o Dia dos Namorados, mas também o segundo dia da Copa do Mundo e véspera da estreia do Brasil nesse campeonato de gigantescas proporções. Mas desafios existem para serem superados!
Logo na chegada, fui muito bem recebido pelo José Casanova e pelas professoras e acadêmicas Liduina Tavares e Maria Raimunda Lopes Costa. É aquele tipo de contato que por si só já paga qualquer sacrifício realizado. Mas quem disse que falar sobre literatura é algo sacrificante? É pura alegria que renova nossas energias!!!
Chegou a hora.
Diversos acadêmicos e acadêmicas da Academia Bacabalense de Letras compareceram ao evento. Na plateia, tive o prazer de contar também com a presença da professora e querida amiga Antônia Nilda Alves Cruz, que deixou seus afazeres para para prestigiar aquele momento cultural.
À mesa, além de mim e do mediador José Casanova, estava também Tony Mohana, que além de ser um intelectual respeitado, é sobrinho de João Mohana e fiel guardião da obra desse escritor.
Tony Mohana despertou o interesse dos presentes ao falar sobre passagens da vida do Autor de Inês e Pedro em Bacabal e para isso recorreu a fragmentos da memória e das lembranças de seu tio Ibrahim Mohana. Revelações praticamente inéditas invadiram o recinto e encantaram a plateia. Aplausos!
A mim, coube falar dos aspectos romanescos da obra de João Mohana, autor de dois romances de grande sucesso: O outro caminho e Maria da Tempestade. Evitando ao máximo chegar aos famigerados spoilers, chamei atenção para a a tessitura desses livros, dos aspectos paralelísticos dessas duas obras e não tive como não tocar no assunto do “Pescoço da Viúva”, tema que sempre desperta a imaginação do público.
Além da criatividade, Mohana tinha o domínio técnico da escrita literária e sabia prender a atenção dos leitores. Ele era dono de imenso cabedal de cultura e sabia mesclar seu vasto conhecimento científico com a necessária sensibilidade humanística na construção do cenário e das personagens que lhe brotavam das mãos.
Valeu a pena voltar a Bacabal. Valeu a pena conversar sobre a vida e a obra do grande escritor João Mohana.
(Professor.
Membro da AML, ALL, APB e Sobrames-MA)
Lançado em 1979, em plena
efervescência de um período ditatorial no Brasil, o LP Peregrinação é um
dos melhores produtos da discografia produzida por um cantor e compositor
maranhense.
Mesclando letras que tratam de
questões amorosas, traços autobiográficos e críticas sociais, Nicéas Drumont
(1951-1990) – nome artístico do cantor e compositor rosariense Nicéas Alves
Martins, um sambista nato que circulava com extrema competência por
praticamente todos os ritmos musicais – nesse disco, conseguiu mostrar toda a
sua maestria e senso crítico com relação à realidade vivida pelo Brasil naquele
momento histórico.
No ano do lançamento de Peregrinação,
o Brasil iniciava um momento de transição com a posse do general João Batista
de Oliveira Figueiredo na presidência da República, em substituição ao também
general Ernesto Geisel. Era um período em que a censura ainda demonstrava sua
força e no qual os artistas insatisfeitos com o sistema tinham que utilizar
metáforas e alegorias para imiscuir suas indignações e críticas sociais em
peças teatrais, poemas, contos, romances, roteiros de filmes e nas letras de
músicas.
Nicéas Drumont aproveitou essa
fresta de transição e, no meio de canções que falavam de aventuras amorosas,
gravou alguns trechos que rementem direta ou indiretamente a algumas
insatisfações que não poderiam ser expressas abertamente em anos anteriores.
Logo na segunda música do disco,
intitulada Sentença, é possível perceber que o artista maranhense
utiliza uma hipotética história de decepção amorosa para remeter a alguns
pontos que podem ser também interpretados como um recado sobre o desejo de uma
mudança de sistema, algo bem próximo do que havia sido feito por Chico Buarque
de Hollanda anos antes, em Apesar de você, na qual o autor da Ópera
do malandro denunciava as opressões governamentais do Presidente Emílio
Garrastazu Médici (1905-1985). Nicéas Drumont aparentemente utiliza esse mesmo
recurso estético/simbólico em sua música, conforme pode ser visto a seguir: Tá chegando
a hora De lhe ver
pagar Todo o
sofrimento que você Me fez
passar. Você abusou
de meus direitos Andava por
aí contando marra Pulou
demais e caiu do cavalo Vai ter que
segurar a sua barra É a hora da
sentença Eu quero
ver você pagar Você fez
cama de espinho Aonde vai
ter que se deitar Em outra música que trata de tema
amoroso – Cavalo de Tróia, na qual um homem se torna totalmente
dependente da presença de sua amada, o compositor maranhense aproveitou a
situação para tecer uma comparação entre a situação econômica do Brasil em um
período em que as chamadas empresas multinacionais, com o intuito de reduzirem
os custos operacionais e aumentarem as margens de lucro, aproveitando-se das
lacunas presentes nas legislações dos países menos desenvolvidos, chegaram ao
Brasil e aqui se instalaram. Atento a tudo isso, Nicéas inicia a canção
dizendo: “Essa mulher parece multinacionais, tá me comprando e cada vez
querendo mais”, em uma clara referência ao processo de exploração do
trabalhador nessa fase da história do Brasil.
Na composição Em casa de bamba
crioulo é doutor, em alguns momentos, as diferenças de classe são
lembradas, como ocorre no fragmento a seguir: “Mulher de rico espera o sol na
praia / mulher de pobre só espera filho”. E, para completar, traz uma denúncia
a respeito da injusta distribuição de renda no Brasil, como pode ser visto a
seguir:“Não me venha com essa malandragem de comer a fruta e me dá o
caroço, pois não sou panela de pobre, que tanto cozinha e não passa de um osso”.
Em Aluguel, que também ficou
conhecida como Eu vou morar no mato, o artista rosariense, fez uma séria
denúncia sobre as modificações ocorridas na relação locador/locatário e que
acabaram culminando na aprovação da Lei 8.245, de 18 de outubro de 1991 – a
chamada Lei do Inquilinato. Interessante notar que a referida Lei foi aprovada
após o falecimento do compositor, mas o Projeto de Lei já havia causado
diversas controvérsias e sido discutido durante vários anos. As críticas ao
ordenamento jurídico que deu origem à chamada “denúncia vazia”, que permitia ao
dono do imóvel pedir de volta a casa alugada, sem justificativa para o
contratante, se considerasse que as condições de aluguel não lhes eram
satisfatórias, aparecem claramente na composição.
Utilizando de seu característico bom
humor e da criatividade que lhe eram peculiares, Nicéas Drumont escreveu: Já
vendi meu terno também
meu sapato eu
vou morar no mato eu
vou morar no mato (eu
já disse a você) Já
dizia meu avô nos seus raros argumentos que
o índio é que tá certo não
dá bola pro cimento Não
precisa de colchão dorme
no couro do gato se
livrou do condomínio e da lei do inquilinato. Claro que o elemento indígena a que
ele se refere na letra da música ainda está bastante ligado à visão romântica e
que a letras traz em si até mesmo um laivo de preconceito, mas não se vê nesses
detalhes um desejo de diminuir a importância dos povos indígenas, mas sim de
apontar uma alternativa ao que ele considerava como forma de exploração
pecuniária a partir do aumento abusivo do valor dos aluguéis.
De modo extremamente direto, o autor
de Gavião Vadio conseguiu escrever uma composição que possivelmente
poderá servir com hino de protesto contra todos os governos, independentemente
das colorações ideológicas. Aproveitando o fato que sempre haverá um razoável
número de pessoas insatisfeitas com o panorama político e a com a administração
pública, seja ela em esfera federal, estadual ou municipal, Nicéas Drumont
compôs o seguinte texto, que é autoexplicativo: Você
nos encheu de promessas jurou
bem alto e esqueceu Agora
tenha santa paciência Queremos
tudo que você nos prometeu (e não cumpriu) Já
não temos mais o que sofrer Já
não temos mais o que chorar Só
nos resta o dia pra gemer Só
nos resta a noite pra gritar Flores
maltratadas morrerão porque
lamparina seca não conduz ninguém É
demais a peregrinação Queremos
paz Queremos
luz Agora
é nossa vez de contestar E
você tem que tirar o prego de nossa cruz. Esse LP é hoje uma raridade, mas
graças às diversas plataformas de vídeo e de música, é possível apreciar esse
belo trabalho de Nicéas. Claro que, nestes tempos tacocrônicos em que vivemos,
as pessoas não parecem dispor de 34 minutos e 44 segundos para apreciarem um
dos bons exemplos do que há de melhor da música brasileira. Espero ser
contrariado e um dia ficar sabendo que você que agora me lê tenha colocado em
um dos motores de busca as tags Nicéas Drumont e Peregrinação, tenha
encontrado os links e tenha se deleitado com a audição desse disco que
parece cada dia mais atual.
Tomara!
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