domingo, 31 de maio de 2026

A ÚLTIMA CEIA

 Novos artigos de segunda #86


Esta semana não teremos artigo. Vamos para leitura de um despretensioso conto inspirado em... Tenho certeza de que vocês descobrirão a fonte de inspiração

Imagem elaborada com auxílio de IA


A ÚLTIMA CEIA

José Neres

 

O clima estava pesado naquela casa.


Desde o Natal do ano retrasado, era a primeira vez que a família se reunia para um jantar. Como sempre acontecia nessas ocasiões, comeriam pizza. Pizzas de variados sabores, para agradar a todos.


Não era uma data especial. Apenas uma das raras oportunidades de reunir todo mundo no mesmo ambiente.
Ali reinava o silêncio.


Quando Clara entrou, silenciosa, como sempre, respeitou o silêncio e se limitou a sentar-se no lugar de sempre. Lembrou-se que no Natal passado não houve ceia, nem mesmo uma reunião em família. Dona Sabina, a mãe, passou a noite diante do oratório. Seu Mário, o pai, preferiu ficar lendo em um canto da casa para disfarçar a solidão.


O irmão mais velho, Fred, vez ou outra olhava para a porta na esperança de que Juca chegasse com as pizzas.
O tempo passava lentamente.


Clara, a filha rebelde, olhava para todos tentando adivinhar qual seria a próxima reação de cada um de seus familiares. Depois do jantar, certamente ela voltaria para seu quarto, sempre cheio de mofo e de teias de aranha, se deitaria na cama e esqueceria do mundo, como sempre acontecia. Sabia que não seria interrompida em seu sono.


Quando sentisse vontade, iria levantar-se e passearia pelos outros cômodos. Nunca foi de ajudar a mãe nos afazeres domésticos. Agora mesmo que não faria.


Juca já estava casado. Morava em um bairro próximo, mas pouco aparecia por ali. Dizia todos os dias que jamais teria filhos. A esposa preferiu não participar daquele reencontro familiar.


Fred trabalha o dia inteiro e só chegava para dormir. Nos finais de semana, trancava-se no quarto e maratonava séries e filmes.


Seu Mário já estava aposentado. Os livros eram sua companhia. Até o piano, que ele adorava tocar, deixou de lado. Lia, riscava os livros e cultuava seus silêncios.


Dona Sabina havia envelhecido uns dez anos em pouco mais de um ano e alguns meses. Rezava o dia inteiro, mesmo enquanto limpava a casa. Mas rezava em silêncio. Apenas murmurava a oração. O único quarto que ela não limpava era o da filha. Clara já não merecia essa mordomia.


Juca chegou com as pizzas e com os refrigerantes. Aquele povo sempre comeu muito!


Clara continuava ali. Silenciosa. Seu sabor preferido não estava em nenhuma das caixas. Parece que ela não era mais bem-vinda ali. Melhor não voltar. A família jamais perdoaria o que ela fez.


Levantou-se sem fazer barulho e partiu rumo a seu quarto.


Não ficou sabendo que, antes de repartirem as pizzas. A mãe, o pai e os irmãos olharam tristemente para a cadeira vazia. E começaram a rezar pela filha e irmã, que certa noite, pegou uma fatia de sua pizza preferida, foi para o quarto, trancou-se e, inexplicavelmente, tirou a própria vida.
 

 

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial

 




2 comentários:

  1. Mais um conto potente e cirúrgico, Neres.

    A literatura maranhense e contemporânea ganha muito com a sua capacidade de destrinchar o silêncio e as tragédias cotidianas.

    A sugestão de trazer o elemento das fotografias de família é fantástica. Na nossa sociedade, o porta-retrato na sala ou o feed das redes sociais funcionam exatamente como essa "máscara" de perfeição: todos sorrindo, congelados no tempo, escondendo o caos, a negligência e, no caso desse conto, o luto e a culpa.

    Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelas palavras de carinho. Essas fraturas sociais estão cada vez mais profundas e ao mesmo tempo invisíveis.

      Excluir

A ÚLTIMA CEIA

 Novos artigos de segunda #86 Esta semana não teremos artigo. Vamos para leitura de um despretensioso conto inspirado em... Tenho certeza de...