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Um conto antigo que pede licença para voltar
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DEVASTAÇÃO
José
Neres
Impossível esquecer a
primeira vez que vi Flora. Ela estava à beira do rio. Solitária. Vestida com
muitos grilos e raríssimas borboletas. Sobre seu sexo, repousava um buquê de
espinhadas e secas rosas, ladeadas por ramos de sensitivas e camomila. Silenciosa,
ela mastigava mecanicamente um restinho de sonho. Suas mãos eram galhos
ressequidos, mas suas unhas tinham ainda a maciez de perfumadas pétalas. Os
grilos cobriam seu corpo. Deixavam pouco espaço para as multicoloridas
borboletas.
Aproximei-me
devagar. Com olhar experiente, vi que aquele terreno ainda era fértil. Ela
murchava a cada tentativa de toque. Pacientemente, espantei um a um os grilos.
As borboletas encontram o caminho de volta, cobrindo o corpo de cores e
alegrias. Cautelosamente, afastei os ramos de sensitivas e os de camomila.
Livrei-a das ressequidas rosas e vi que um jardim se escondia por trás dos
espinhos. Um jardim. Uma fonte de néctar com aroma de jasmim, sândalo e alecrim
ao mesmo tempo. Provei o mel que emanava daquela fonte. As mãos ganharam viço
de verdejantes folhas e as unhas atingiram consistência suficiente para
arranhar minhas costas enquanto eu depositava nela a semente guardada para
aquele momento.
A
cada encontro, Flora se renovava, alimentava-se de sonhos novos e o sorriso
voltava a sua face. As borboletas esvoaçam pelo seu corpo, deixando entrever,
em breves relances, suas perfeitas formas. O vento levava seu perfume para toda
a região.
Saciado,
depois de tanto me afogar na seiva que ela abundantemente me oferecia, fiz o
que sempre fora meu costume: procurei outros campos.
Quem
chegou depois de mim jura que ali nunca houve flores, nunca houve perfume, que
ela jamais sorriu e que jamais uma borboleta pousou sobre aquele ressequido
corpo. Pois os que tentaram espantar os grilos que a cobriam só encontraram um
tronco coberto de percevejos e, cobrindo o ventre, sedosas folhas de urtiga.

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