segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

LITERATURA E ENVELHECIMENTO

 Novos artigos de segunda #60


LITERATURA E ENVELHECIMENTO 

José Neres 

 

“Envelhecer não é moleza.”
(Dostoiévski, em Gente Pobre)

 

Envelhecimento é um processo contínuo e irreversível. Mesmo quem faleceu muito jovem e não alcançou a velhice, passou, obrigatoriamente, por algum tipo de envelhecimento. Ele faz parte da vida.

A cada ato de respirar estamos mais velhos, e o corpo, invariavelmente, passa  por inúmeras e imperceptíveis transformações. Sobre isso, o pensador latino Sêneca advertiu a seus leitores e alunos que “Ninguém devolverá seus anos, ninguém o restaurará ao que era antes”, ou seja, traduzindo o pensamento de Sêneca nas letras da música popular brasileira, podemos dizer que “o que passou, passou, não importa, ficou do outro lado da porta”, como escreveu o compositor Peninha em sua conhecida canção.

Atenta a tudo o que se refere às experiências humanas, a literatura e todas as demais formas de arte abordam a temática do envelhecimento em suas obras. Não é à toa que o filósofo grego Platão, logo no livro inicial de A República, colocou nas palavras de Sócrates a seguinte constatação:

Em verdade, Céfalo, eu aprecio conversar com os velhos. Penso que devemos aprender com eles, pois são pessoas que nos antecederam num caminho que também iremos trilhar, para assim conhecermos como é: áspero e árduo ou tranquilo e cômodo.

Em seu ensaio intitulado “Saber Envelhecer”, o orador romano Cícero deixa uma importante recomendação sobre o processo do envelhecimento. Ele diz, o referir-se à memória das pessoas, que “os velhos a conservam tanto melhor quanto permanecem intelectualmente ativo” No entanto, a idade traz também suas cobranças físicas. Quem alertou sobre as consequências do envelhecimento foi o sábio Hipócrates, o Pai da Medicina, ao comenta em um de seus aforismos que:

Nos velhos aparecem dispneia, catarros com tosse, espasmos vesicais, disúrias, dores articulares, nefrites, vertigens, apoplexias, caquexias, pruridos de todo o corpo, insônias, diarreias, inflamações dos olhos e do nariz. Ambliopias, catarata, dureza dos ouvidos.

Talvez com intuito de amenizar os impactos dessas alterações no organismo, os agentes do comércio acabaram cunhando a expressão “melhor idade” e os gestores públicos adoraram o termo “idoso” com uma espécie de eufemismo pronto para mascarar aquilo que a fisiologia humana chama simplesmente de velhice.

E como esse processo de envelhecimento aparece na literatura? De diversos modos e em diversas obras.

Em “Memórias de Adriano”, famoso romance escrito por Marguerite Yourcenar, o imperador Adriano, protagonista do livro inicia sua narrativa em primeira pessoa comentado a visita que fez a seu médico. Aos sessenta anos de idade, o imperador lamenta sua debilidade física, preferindo não entrar em detalhes da “descrição do corpo de um homem que envelhece e se prepara para morrer de uma hidropisia do coração”. Ao longo do livro, em muitos momentos Adriano ressalta os problemas advindos da idade bastante avançada para a época.

A peça “Rei Lear”, de Shakespeare, é inteiramente dedicada a tratar da loucura, da velhice e dos conflitos intergeracionais. Em diversas passagens dessa obra, as demais personagens remetem à idade do antigo rei não como fonte de sabedoria, mas sim como exemplo de decrepitude. Em determinado momento, o próprio Rei declara, depois de ser ofendido por uma das filhas: “Querida filha, confesso que estou velho. A velhice é inútil. De joelho eu imploro que me concedais roupa, cama e alimentação”. Sobre essa peça Shakespeareana, o professor e crítico Harold Bloom chegou a afirmar que: “a leitura de rei Lear, em especial, é experiência rara. Sentimo-nos, a um só tempo, constrangidos e à vontade, para mim, nenhuma outra experiência individual pode ser tão gratificante”.

Existem centenas de obras literárias que remetem ao processo de envelhecimento e suas múltiplas consequências, como é o caso de “Memórias de Minhas Putas Tristes” (Gabriel García Márquez), “O Velho e o Mar” (Ernest Hemingway) “Memorial de Aires” (Machado de Assis), “O Largo do Desterro” (Josué Montello), “Litania da Velha” (Arlete Nogueira da Cruz), "O curioso caso de Benjamin Button (Scott Fitzgerald) e tantos outros. Alguns tratando o assunto de forma direta e outros a partir de metáforas.

No entanto, é na poesia de Cecília Meireles que os amantes da leitura encontram uma das mais belas e contundentes formas de representar a passagem do tempo no corpo de alguém.  Escreveu a autora que:


"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?"

 


 

 

11 comentários:

  1. Quantos livros com o tema Velhice! Espero que consigam ver o lado bom. Como José Neres relata, envelhecer é difícil. É interessante saber que mesmo grandes personalidades sentem um desespero diante do perecimento do corpo. É uma pena saber que poucos enxergam além da aparência e da fragilidade física. Em tempos passados, quando era necessário calcular o valor da vida de alguém, o mais velho tinha maior valor.

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    1. Obrigado pelo comentário. É preciso aprender a conviver com as mudanças do corpo e da mente. Envelhecer faz parte da vida.

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    2. Obrigado pelo comentário. É preciso aprender a conviver com as mudanças do corpo e da mente. Envelhecer faz parte da vida.

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  2. Pessoalmente, por experiência própria, acho que o lado mais importante da velhice é a eterna juventude do espírito.
    Acho que Freud, Jung e Rollo May, psicanalistas e os pais da Macrobiótica, poderão, melhor que eu, cogitar sobre o assunto.
    Quanto à decrepitude física, na velhice, é um assunto que a ciência médica explica muito bem, há milênios, sem o beneplácito da ficção.

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  3. O texto acima é da autoria de Alberico Carneiro.

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  4. Ótimo elenco de textos, que nos fazem mergulhar na experiência limite do envelhecer, já desde a epígrafe de Neres. Caminho inevitável, mas de amplitude da vida, que, não à toa, rende tantas obras de arte e reflexões. Ela nos espere à porta, e diz: "bem-vindos!".

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    1. Envelhecer faz parte de um processo. Mas nem todos entendem isso. Então vem a arte para nos ajudar a compreender nosso próprio processo.

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  5. Antonio Aílton Santos Silva16 de dezembro de 2025 às 03:31

    Digo: ...Ela nos espera à porta...

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  6. Amo Cecília porque ela não relata, não aconselha, não indaga. Ela nos desperta! Para vários temas, inclusive a velhice.

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    1. Também gosto muito da Cecília. Um exemplo de intelectual em nosso Brasil que não valoriza seus pensadores.

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