terça-feira, 29 de setembro de 2026

UMA JOVEM ESCRITORA

Novos artigos de segunda #99

Fonte: arquivo do autor 


NOSSO MUNDO CABE EM POEMAS

José Neres

ISNI: 0000000530697862



Sempre existirá uma nova geração chegando. É inevitável. É necessário.

Defendo a ideia de que é preciso reverenciar o passado com os olhos também no presente, evitando, se possível, comparações, pois cada geração tem suas peculiaridades, seus anseios e seus momentos próprios que provavelmente jamais serão reproduzidos.

Vejo, então, como algo salutar o aparecimento e a divulgação (ainda tímida) de novos autores, alguns deles ainda bastante jovens, como é o caso dessa escritora de quem falarei neste breve texto.

No último dia da XIX Feira do Livro de São Luís, houve, entre tantos outros eventos a posse oficial de quatro membros da AMLIJ - Academia Maranhense de Letras Infanto Juvenil - instituição presidida e idealizada pela escritora e ativista cultural Sharlene Serra e que acolhe jovens escritores que demonstram talento para as artes literárias.

Na ocasião, foram empossados Keven Kawã Belfort Nunes (do município de Matinha), Esther Ramos Magalhães (de Caxias), Emily Vitória Campos Almeida (de Zé Doca) e Isabella Cutrim Vale (de São Luís). Além desse momento solene, o público ainda contou com um recital de poemas e com o lançamento do livro “Meu mundo cabe em poemas”, de Maria Eduarda Silva Soares, jovem estudante do 7⁰ ano do Ensino Fundamental e que assina seus poemas com o nome literário de Madu Soares.

Dividido em dez partes, o livro “Meu mundo cabe em poemas” traz as marcas estilísticas de uma transição natural entre a infância e a adolescência, com uma paulatina tomada de consciência sobre o ser e o estar no mundo, com os reflexos poéticos das alegrias e das dores que permeiam esse momento tão importante da vida.

O livro começa com a autora se apresentando ao público. Como quem pede passagem para ocupar um espaço ainda desconhecido, mas que lhe pode ser predestinado, em versos simples, rimados e, principalmente, ritmados, Madu Soares coloca suas impressões digitais nas páginas do livro e, com uma dicção firme e herdada de suas leituras, diz em alto e bom som eivado de singelezas:


Meu nome é Dudinha,
menina feliz
carrego no peito 
aquilo que sempre quis.


A seguir, a autora traz à tona dos poemas pessoas que fazem parte de seus círculos familiares e de amizades. Amigos, pai, mãe, avó e demais membros da família são homenageados em poemas que trazem as marcas da simplicidade, da emoção e do agradecimento. 

Há espaço também para os autores que aparentemente marcaram a trajetória leitora de Madu Soares. Maria Firmina dos Reis, Ferreira Gullar, Clarice Lispector e Sharlene Serra são destacados em páginas especiais do livro. Sobre o autor do Poema Sujo, a jovem escritora arremata seu texto dizendo que:


O menino que brincava nas ruas
fez das palavras sua expressão,
e São Luís permaneceu viva 
em sua memória e criação.


A cidade de São Luís e o Maranhão como um todo também são lembrados em diversos momentos da obra, tanto por sua história quanto por suas tradições. Em seus versos, a autora mescla diversos sentimentos, como amor, coragem e fé, focando também em temas de matizes mais ideológicos e sociais, como a busca de visibilidade por parte das mulheres, respeito às pessoas com espectro autista e defesa de um ambiente sustentável, sendo que essa visão ecológica com relação ao mundo talvez seja um dos pontos altos do livro.

O livro “O meu mundo cabe em poemas” marca a chegada de uma nova escritora. Esperamos que seja bem recebida e que sua poesia nos ofereça outros bons frutos.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A TURMA DO FUNDÃO

 Novos artigos de segunda #98

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


A TURMA DO FUNDÃO 

José Neres 

ISNI: 0000000530697862


Embora muitas pessoas discordem (e é um direito de todos a discordância), acredito que existem diversas mudanças ocorrendo no campo da educação, embora nem sempre nos damos conta disso.


Uma dessas mudanças vem acontecendo com a chamada “turma do fundão”. Quem é mais antigo nas lides com a sala de aula deve recordar que ali era o espaço historicamente reservado para os alunos que faziam barulho, soltavam piadinhas, tumultuavam as aulas e tinham como missão sagrada e específica tirar os professores do sério.


Era no fundão que o barulho imperava. Era quase sempre de lá que vinham os aviõezinhos de papel, as piadinhas de duplo (ou triplo) sentido, as risadinhas maliciosas. Porém, quando o professor se virava, todos fingiam estar concentrados e, cinicamente, chegavam a perguntar se aquele sermão ou indireta era para eles. Depois disso, o ano letivo continuava e a vida também.


O desinteresse não mudou muito com o passar do tempo, contudo o cenário vem se tornando cada dia mais diferente. Hoje, o chamado fundão é ocupado por quem procura um cantinho mais aconchegante  para dormir, usar o celular mais à vontade, ouvir suas músicas preferidas ou simplesmente localizar uma tomada disponível a fim de recarregar a bateria de seu aparelho (geralmente de última geração).


As risadas abafadas e os papeizinhos jogados nos colegas foram substituídos paulatinamente pelo brilho que emana das telas dos celulares e pelas mensagens trocadas com pessoas que estão distantes, mas que habitam o coração do sempre desatento aluno…


E se o professor pedir atenção para a aula ou reclamar? Provavelmente, nos raros casos em que for ouvido, será solenemente ignorado. E os conteúdos das aulas? Depois um vídeo ou um esquema produzido por uma IA resolvem isso. E a busca de um aprofundamento? Aprofunda o quê mesmo?...


A turma do fundão sempre foi vista (com exceções, claro) como exemplo de incivilidade em sala de aula. Mas pelo menos, vez ou outra interagia com os professores e, de alguma forma, servia para animar as aulas e dar um tom menos formal ao dia a dia acadêmico. A nova geração dessa turma, no entanto, optou pela apatia e por uma presença ausente, ou seja, o corpo está ali, conectado a aparelhos e não à necessidade de aprender algo.


O pior é que esse fenômeno não se espalhou rapidamente por todos os níveis de ensino. Basta dar uma espiadinha em nossas salas de aula para constatar.


Alguns professores já começam a sentir falta da antiga turma do fundão…



sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ELAS E VOCÊ

 Novos artigos de segunda #97

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ELAS E VOCÊ 

José Neres 

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Imagine que você é bastante querido e respeitado e que tenha três pessoas importantíssimas em sua vida, sendo que todas elas muito contribuíram para que você tenha se tornado essa figura ilustre e famosa que é hoje.

Uma dessas pessoas foi literalmente abandonada há mais de uma década, porém continua na lembrança das outras pessoas, que perguntam sempre: “Cadê Fulana?”, “Tem alguma chance de voltar um dia?”, “Nossa! Ela era tão linda!!!”, “Faz tanta falta!”...

 Outra é aquela da qual parece que você tem até vergonha de admitir que ela passou por sua vida, contudo todos sabem da existência dela. Só aparece uma vez por ano, sendo tratada de modo simples e sem publicidade. Evita-se até mesmo colocar alguma menção a ela nas redes sociais. Foto, nem pensar. A coitadinha é muito maltratada. Tímida, ela atrai poucas pessoas e se conforma com a própria existência e com o esquecimento forçado.

Finalmente existe aquela que é festejada, amada, querida por quase todos. Quando ela chega, é só alegria. Você faz questão de dizer para todo mundo que banca todos os caprichos dela. Aparecem juntos em público, dançam, pulam e festejam qualquer coisa. Tudo é motivo para festa. Ela gasta bastante. Mas você justifica os gastos absurdos dizendo que traz lucro e popularidade.

Basicamente, você ignora a existência das outras duas para dedicar-se apenas àquela que é mais bonita, chamativa, cheirosa, barulhenta e perfumada…

Na verdade, você explora ou já explorou as três em algum momento da história em comum.

A primeira poderia ser sua menina dos olhos. Mas, segundo você mesmo, ela já está ultrapassada e é muito metida a intelectual. E, pior ainda, traz a lembrança de outros que passaram pela vida dela e que a tratavam até bem. Eles tinham orgulho de mostrá-la para todos. Apareciam nas colunas sociais, na TV e ela chegou a ser muito disputada e nacionalmente conhecida. Mas você mesmo admite que os tempos são outros. Tudo é mais dinâmico e os presentes que você ofertava à cidade hoje estão fora de moda. Resultado: você foi deixada de lado e os mais jovens nem mesmo têm conhecimento da existência de uma bela dama que foi abandonada durante um evento no qual nem mesmo a autoridade maior da época se dignou a aparecer. Qual o nome dela mesmo? Lembrei… acho que era Concurso Literário Cidade de São Luís.

A outra, nos seus primeiros anos, também foi festejada. Chegou até mesmo a parar a cidade. Ganhou brilho próprio, mas ficou dependente das migalhas que você dava para ela. Como é difícil manter a altivez com parcos recursos, sem divulgação adequada e sem receber o carinho necessário. Preste atenção: ela continua linda e formosa, mas carece de atenção. Será que você tem vergonha de aparecer perto dela? Nunca entendi as razões pelas quais você só divulga a presença dela nos últimos minutos. Ela tem um nome tão bonito: Felis, mas é não desprezada! Não faça mais isso. Pare de ignorá-la. Faça-a sentir-se novamente feliz.

E a mais recente? A mais festeira? A que vive em shows e que consome o suficiente para manter com folga as outras duas? Você já pensou que apenas uma dessas jóias que traz para satisfazer o ego dessa menina vaidosa e dançante seria o suficiente para dar maior destaque e viabilidade à Felis e trazer de volta o Concurso, que faz tanta falta!

É… mas prioridade é prioridade. Segundo você mesmo deixa nas entrelinhas, quem atrai público e traz curtidas são os shows… as outras duas fazem parte do passado. 

Ei, antes de ir embora, pense um pouco: não foi o passado que fez você tão famoso? Então para que ignorar duas e valorizar apenas uma? E justamente a mais cara de todas?

Ah, entendi. Dá um bom retorno. Mas não é justo ignorar uma e dar apenas esmolas para outra. 

Um dia o passado pode voltar para cobrar essas dívidas e esses descasos.

Tchau! Aproveite a festa!


Qualquer semelhança é apenas mera coincidência!

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

NA ESCOLA

 Novos artigos de segunda #97

Imagem elaborada com auxílio de Inteligência Artificial 


NA ESCOLA
José Neres 
ISNI: 0000000530697862

A brevíssima história que narro a seguir foi-me contada há muito tempo por uma querida amiga que também é professora.

Claro que devo ter esquecido detalhes, mas de modo geral reconstituo com minhas palavras aquilo que ouvi em uma bela tarde.

Essa história voltou à minha memória por causa de algumas postagens que tenho visto sobre a docência, inclusive com falas equivocadas de algumas “autoridades”

Vamos ao fato…

***

Início de um novo ano letivo e, logo no primeiro dia da Semana Pedagógica, os professores tiveram uma surpresa: um aluno do ano anterior havia comparecido à escola e pedido para voltar a estudar. Ele havia prestado no vestibular (sim, foi no tempo do vestibular tradicional) e não havia sido aprovado.

Em conversa com a diretoria, ele explicou que a família era pobre e que não teria condições de pagar um curso pré-vestibular. Admitiu que não fora um bom aluno nos três anos que ali havia estudado e prometeu dedicar-me ao máximo.

A direção da escola não viu problemas e disse que ele poderia assistir às aulas, mas que não precisava fazer as provas. Porém, por uma questão de regimento, o uso do uniforme era obrigatório. Ele concordou sem objeção.

Frequentou a escola o ano inteiro sem faltar uma aula. Se inscreveu no vestibular e o resultado foi o mesmo. 
Como precisava ajudar a família financeiramente, arrumou um emprego de serviços gerais, trabalho duro e que não pagava muito bem, mas que era extremamente necessário. 

Pediu então para frequentar as aulas noturnas. A diretoria não viu problemas. 

Chegava extenuado à escola e nem sempre rendia o suficiente nas aulas. Cochilava em alguns momentos e começou a faltar vez ou outra. Depois mais e mais…

Certa vez, na hora do lanche, enquanto ele devorava meia dúzia de biscoitos com meia caneca de suco ralo, a amiga que me contou a história se aproximou dele e perguntou se ele havia desistido do vestibular, pois estava algumas semanas ausente.

O olho dele brilhou e respondeu com um sorriso cansado: “Não, professora, jamais vou desistir. Um dia vou fazer um curso superior. Vou entrar para a faculdade. Nem que seja para ser só professor mesmo”.

Minha amiga soltou um sorriso pálido, baixou a cabeça e voltou para sua sala de aula. Não tinha forças para argumentar. 

Foi a última vez que o viu. Nunca mais soube notícias dele.

***

Existem tantas nuances nesta história que também desisto de comentar. 

A MEUS ETERNOS PROFESSORES

  A MEUS ETERNOS PROFESSORES José Neres  Fonte da imagem: arquivo do autor  Durante todo a minha vida escolar e universitária, sempre tive o...