Novos artigos de segunda #97
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NA ESCOLA
José Neres
ISNI: 0000000530697862
A brevíssima história que narro a seguir foi-me contada há muito tempo por uma querida amiga que também é professora.
Claro que devo ter esquecido detalhes, mas de modo geral reconstituo com minhas palavras aquilo que ouvi em uma bela tarde.
Essa história voltou à minha memória por causa de algumas postagens que tenho visto sobre a docência, inclusive com falas equivocadas de algumas “autoridades”
Vamos ao fato…
***
Início de um novo ano letivo e, logo no primeiro dia da Semana Pedagógica, os professores tiveram uma surpresa: um aluno do ano anterior havia comparecido à escola e pedido para voltar a estudar. Ele havia prestado no vestibular (sim, foi no tempo do vestibular tradicional) e não havia sido aprovado.
Em conversa com a diretoria, ele explicou que a família era pobre e que não teria condições de pagar um curso pré-vestibular. Admitiu que não fora um bom aluno nos três anos que ali havia estudado e prometeu dedicar-me ao máximo.
A direção da escola não viu problemas e disse que ele poderia assistir às aulas, mas que não precisava fazer as provas. Porém, por uma questão de regimento, o uso do uniforme era obrigatório. Ele concordou sem objeção.
Frequentou a escola o ano inteiro sem faltar uma aula. Se inscreveu no vestibular e o resultado foi o mesmo.
Como precisava ajudar a família financeiramente, arrumou um emprego de serviços gerais, trabalho duro e que não pagava muito bem, mas que era extremamente necessário.
Pediu então para frequentar as aulas noturnas. A diretoria não viu problemas.
Chegava extenuado à escola e nem sempre rendia o suficiente nas aulas. Cochilava em alguns momentos e começou a faltar vez ou outra. Depois mais e mais…
Certa vez, na hora do lanche, enquanto ele devorava meia dúzia de biscoitos com meia caneca de suco ralo, a amiga que me contou a história se aproximou dele e perguntou se ele havia desistido do vestibular, pois estava algumas semanas ausente.
O olho dele brilhou e respondeu com um sorriso cansado: “Não, professora, jamais vou desistir. Um dia vou fazer um curso superior. Vou entrar para a faculdade. Nem que seja para ser só professor mesmo”.
Minha amiga soltou um sorriso pálido, baixou a cabeça e voltou para sua sala de aula. Não tinha forças para argumentar.
Foi a última vez que o viu. Nunca mais soube notícias dele.
***
Existem tantas nuances nesta história que também desisto de comentar.

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