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artigos de segunda #101
ESTA É UMA
NÃO RESENHA
José Neres
ISNI: 0000000530697862
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| Imagem cedida por Natércia Moraes Garrido |
Poeta é um ser geralmente insatisfeito que luta contra tudo e
contra todos, inclusive contra seus próprios fantasmas e contra os obstáculos
impostos pela sisudez das linguagens tradicionais.
Diante da impossibilidade de transpor o inefável para a página em branco, o que resta aos alquimistas da palavra que vivem de transmutar vivências e sentimentos em palavras que fogem do convencional? Alguns se rendem às soluções aparentemente fáceis e populares, evitando explorar as múltiplas potencialidades dos versos em prol de um lirismo exacerbado ou de um engajamento político militante.
Às vezes, o escritor pode revoltar-se e romper os com padrões impostos pela tradição, tal qual fizeram os autores da chamada terceira fase do Modernismo Brasileiro e nos movimentos de vanguarda. Mas romper com o quê? Com o que quiser. Pode ser com os temas mais comuns, ou com a previsibilidade da linguagem ou mesmo com as formas convencionais. E se o público não compreender ou se sentir ofendido com tais mudanças? Não importa! Sempre tem alguém que irá aplaudir e disseminar essas aparentes novidades.
No final, tudo é válido, pois a construção de uma obra de arte quase sempre envolve o estado de ânimo do autor ou sua visão momentânea de alguns aspectos da vida. O poema que pode ser lindo para uns talvez seja recepcionado com indiferença por outros leitores. O conto, romance, peça teatral ou composição musical que deixou alguém praticamente sem fôlego pode ser a mesma obra que desperte antipatia ou até mesmo ojeriza em alguém que não simpatiza com a forma ou com a temática abordada na obra de arte.
Mas o importante é cada pessoa possa continuar produzindo e divulgando suas obras. Que cada leitor possa abrir ou fechar um livro na hora que mais lhe aprouver. Que cada pessoa tenha o direito de ouvir e até dançar ao som de seus ritmos preferidos.... Tudo isso sem a necessidade de pedir desculpas ou implorar permissão a quem quer que seja.
Penso nisso enquanto leio o livro da escritora e amiga Natércia Moraes Garrido “Este é um não poema” (2026, Editora Urutau, 72 páginas). Desde o título, já fica claro que se trata de um livro que enceta algumas rupturas, afinal, é muito fácil encontrar algum livro com poemas, mas não é muito comum deparar-se com uma obra que já apresenta, desde as inscrições da capa, a certeza do não ser.
Importante notar que a frase-título que marca praticamente toda a trajetória do livro: “Este é um não poema” e totalmente diferente de uma outra informação como “Este não é um poema”, ou seja, o “não-poema” acaba por reconhecer a tácita existência do poema. De alguma forma no livro, a negação pode ser vista como uma afirmação daquilo que precisa ser negado ou mesmo questionado. Porém o esquecer voluntário é também uma forma de (re)lembrar aquilo que nos incomoda.
Fica a dúvida se estamos diante de 30 poemas que se completam e que mantêm um diálogo temático entre si, ou se de trata de um único poema dividido em trinta partes. Prefiro a segunda opção, mas acredito que a escolha da ideia de que ver o livro como composto por três dezenas de poemas não altera muito a interpretação do conjunto arquitetônico que norteia a ideia central do livro: a fragmentação do Ser diante de situações que questionam a Vida, a Morte e as inevitáveis Perdas sem possibilidades de reposição.
Os versos são compostos a partir de uma primeira pessoa que tenta ocultar seu gênero a partir de pronomes como eu, meu ou mesmo pela presença/ausência de elementos elípticos e que em raríssimos momentos de deixa “fotografar” pelas frestas da linguagem. Do outro lado, está um outro Ser, simbolizado pelos pronomes explícitos: “ele”, você... Tudo isso mediado por uma pontuação econômica, porém necessária, que geralmente se limita a um, dois ou três pontos finais em pontos estratégicos dos textos. Essa quase ausência de pontuação faz com que os leitores tenham a oportunidade de escolher o ritmo da leitura, as pausas e as opções sintáticas que podem derivar a partir de cada escolha. Isso permite que cada verso possa ter seus significados multiplicados.
A opção pelas letras minúsculas, pela ausência de títulos, pela repetição do verso-título ao final e do isolamento de uma palavra em 28 dos 30 poemas levam o leitor a perceber que há algo mais que se repete de forma sistemática. Inocentemente, alguém poderia imaginar que apenas as palavras estão repetidas, contudo, mas do que palavras, há a repetição de um grito silencioso que remete a um questionamento que não necessita nem mesmo do sinal de interrogação para estar presente.
Para quem ainda não leu o livro, reproduzimos abaixo um fragmento
escrevo para dizer que danço pela música incessante que você
não pode conhecer porque amargo é o contorno do gesto
há muito o que se dizer na esteira de um doce copo de vinho
mas bebo do líquido porque gosto de saborear as mil tonali-
dades cores que a realidade me extirpou ao nascer
a culpa do mundo cão não é minha nem sua nem
é.
este é um não poema. (p. 27)
De modo geral, esse novo trabalho poético de Natércia Moraes Garrido permite
aos leitores um mergulho na essência humana. Quase no final do livro, está dito
que “em não vim aqui para dizer da obviedade do destino que me aguarda” (p. 67),
o que é verdade. Não se trata de uma leitura simples e que possa ser regida
pela pressa em se concluir o livro, já que os hipotéticos não-poemas exigem uma
multiplicidade de (re)leituras a partir das diversas experiências que em tenha
o livro em suas mãos.
“Este é um não poema” é um livro para suscitar dúvidas e não para trazer respostas prontas. É um livro perfeito para quem já nasceu “pronto para vomitar a eterna vontade do querer...” (p. 13).

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